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CENTRO DE PLANEJAMENTO DE
REENCARNAÇÕES
André
Luiz: "Achamo-nos, Alexandre e eu, em breve, num dos gabinetes
extensos do edifício principal do Centro de Planejamento de
Reencarnações, onde um dos numerosos amigos do orientador veio
atender-nos atenciosamente. "Apresentou-me Alexandre ao
assistente Josino, que me recebeu com extrema gentileza e fidalguia
de trato. Esclareceu o instrutor o objetivo de nossa visita.
Desejava me fosse conferida a possibilidade de visitar a instituição
de planejamento, quantas vezes me fosse possível durante a semana em
curso, em vista da minha necessidade de adquirir noções seguras,
referentemente ao trabalho de auxílio nas atividades
reencarnacionistas. O assistente prometeu a melhor boa vontade.
Conduzir-me-ia a colegas dele, para que não me faltassem minúcias de
conhecimento, exporia suas próprias experiências à minha observação,
para que eu retirasse delas o máximo proveito e, por fim, quanto
estivesse ao seu alcance, guiaria meus impulsos no
aprendizado. "Felicitavam-me o íntimo as melhores e mais
confortadoras impressões, não só pela recepção carinhosa, senão
também pelo ambiente educativo. Não longe de nós, em luminosos
pedestais, descansavam duas maravilhas da estatuária, a figuração
delicada de um corpo masculino e outro modelo feminino,
singularmente belos pela perfeição anatômica, não somente da forma
em si, mas também de todos os órgãos e as mais diversas glândulas.
Através de disposições elétricas, ambas as figuras palpitavam de
vida e calor, exibindo eflúvios luminosos, quais os homens e
mulheres mais evolvidos na esfera carnal. Identificando-se a
admiração, Alexandre sorriu e disse ao assistente Josino, com o
propósito de fazer-se ouvido por mim: - Talvez André não conheça
bastante o nosso respeito e gratidão pelo aparelho físico
terrestre. - Em verdade - ajuntei - ignorava, até agora, que o
corpo carnal fosse, entre nós, objeto de tamanhos cuidados. Não
sabia que a nossa colônia contasse com instituição desse teor. -
Como não, meu amigo? - interferiu o Assistente, com inflexão de
carinho - o corpo físico na Crosta Planetária representa uma bênção
de nosso eterno Pai. Constitui primorosa obra de Sabedoria Divina,
em cujo aperfeiçoamento incessante temos nós a felicidade de
colaborar. Quanto devemos à máquina humana pelos seus milênios de
serviço a favor de nossa elevação na vida eterna? Nunca
relacionaremos a extensão de semelhante débito. E, fixando os
modelos que me provocavam assombro, acentuou: - Todo o nosso
zelo, no serviço de reencarnação, permanece muito aquém de quanto
deveríamos realizar em benefício do aprimoramento da máquina
orgânica. Embora hesitante, ousei perguntar: - Todos os
núcleos de espiritualidade superior mantém círculos de trabalho
desta natureza? Foi Alexandre quem respondeu, com a delicadeza
habitual: - Em todas as colônias de expressão elevada, essas
tarefas são desempenhadas com infinito carinho. O auxílio à
reencarnação de companheiros nossos traduz o nosso reconhecimento ao
parelho físico que nos têm proporcionado tantos benefícios, através
do tempo. Recordei, porém, que o meu pai terrestre (Vide
Nosso Lar - Nota do autor
espiritual), um dia, voltara à experiência carnal, procedendo das
zonas francamente inferiores, e indaguei: - E aqueles que
regressaram à Crosta, partindo das regiões mais baixas, terão o
mesmo generoso auxílio? Desejando imprimir à pergunta a mais viva
sinceridade, acrescentei: - Meu genitor, na derradeira romagem
terrestre, voltou, faz algum tempo, à esfera carnal em condições bem
amargas... Alexandre interrompeu-me o curso da frase,
ponderando: - Compreendemos. Se era ele criatura de razão
esclarecida, embora não iluminada, permanecia após a morte em estado
de queda e não deve ter voltado à bendita oportunidade da escola
física sem o trabalho <intercessório> e forte ajuda de
corações bem - amados de nosso plano. Nesse caso, terá recebido a
cooperação de benfeitores, situados em posições mais altas, que lhe
terão endossado as promessas no serviço regenerador. Se ele foi,
porém, criatura em serviço puramente evolutivo, circunstância essa
na qual não teria regressado em condições amargurosas, contou ele
naturalmente com o abençoado concurso dos trabalhadores espirituais
que velam, na Crosta, pelos trabalhos reencarnacionistas, em
processos naturais. Em face dos esclarecimentos do instrutor,
entendi as diferenças e tranqüilizei o coração. Fosse porque a
palestra escalpelara melindroso assunto de família humana, fosse
pelo propósito de me deixarem à sós com as minhas profundas
reflexões naquele extenso gabinete de serviço, o orientador e o assistente
entraram em silêncio, compelindo-me a rebuscar novos
motivos de conversação para o meu aprendizado. Passei então a
observar detidamente os modelos masculino e feminino, não longe de
meus olhos. Muito gentil, Josino pousou a destra, de leve, nos
meus ombros, e falou-me: - Aproxime-se das criações educativas.
Você lucrará muito, observando de perto. Não contive um gesto de
agradecimento e afastei-me dos dois respeitáveis amigos,
acercando-me das figuras ali expostas. Detive-me na contemplação do
molde masculino, que apresentava absoluta harmonia de linhas, qual
arte helênica de sabor antigo.
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"Não longe de nós, em luminosos pedestais,
descansavam duas maravilhas da estatuária, a figuração
delicada de um CORPO MASCULINO e outro MODELO FEMININO,
singularmente belos pela perfeição anatômica, não somente da
forma em si, mas também de todos os órgãos e as mais diversas
glândulas. Através de disposições elétricas, ambas as figuras
palpitavam de vida e calor, exibindo eflúvios luminosos, quais
os homens e mulheres mais evolvidos na esfera
carnal." |
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O modelo,
estruturado em substância luminosa, constituía, a meu parecer, a
mais primorosa obra anatômica até então sob minha análise.
Semelhava-se aquela figura humana, imóvel, a qualquer coisa
divinal. Fixei-lhe as minuciosidades com espanto. Nunca vira
semelhante perfeição de minudências fisiológicas. Toda a musculatura
estava, ali, formada em fibras radiosas. Desde o frontal ao
ligamento anular do tarso, viam-se fios de luz simbolizando as
regiões diversas da musculatura em geral. Determinadas fibras,
todavia, como as que se localizavam na zona orbicular das pálpebras,
no triangular dos lábios, no grande peitoral, no pectíneo, nas
eminências tenar e hipotenar até o extensor dos dedos, eram mais
brilhantes. Do exame de superfície, passe a observações mais
profundas, identificando as disposições maravilhosas das figuras
representativas da circulação linfática e sanguínea. Oh! os órgãos
estavam todos ali, vibrando em obediência a dispositivos elétricos
para demonstrações educativas. Os vasos para o sangue venoso
apresentavam-se em luz acinzentada, ao passo que as regiões do
sangue arterial figuravam-se em cor encarnada. Surpreendido,
rendi silencioso preito de admiração à Sabedoria Divina, que nos
concede o sublime aparelho físico terrestre para as nossas aquisições
eternas. Impressionava-me a composição perfeita dos vasos distribuídos
em torno do tronco
celíaco, à maneira de
pequenos rios de luz, destacando-se em expressão a luminosidade das
cavas superior e inferior, das jugulares externa e interna, das
artérias e veias axilares, da veia porta, das artérias esplênica e
mesentérica superior, da aorta descendente, dos vasos ilíacos e dos
gânglios da virilha. Cobrindo as maravilhas orgânicas, estava o
sistema nervoso, semelhando-se a capa radiante estruturada em fios
tenuíssimos de luz feérica. A região do cérebro parecia uma lâmpada
em azul suavíssimo, cuja luminosidade se ligava em sentido direto ao
cerebelo, descendo em seguida pela medula espinhal até o plexo
sagrado, onde o foco brilhante adquiria expressão mais intensa, para
atenuar-se, depois, no grande ciático. Transferi minhas
observações para a forma feminina, igualmente radiosa, concentrando
meu potencial analítico sobre o sistema endócrino, disposto à
maneira de constelação, entre as peças orgânicas. Desde a epífise,
situada entre os hemisférios cerebrais, até os núcleos procriadores,
as glândulas pareciam formar belo sistema luminoso, semelhantes a
pequenos astros de vida, congregados em sentido vertical, qual
antena rútila atraindo a luz procedente de Mais Alto. Cada qual
apresentava sua forma específica, suas expressões vibratórias, suas
características particulares, diversificando-se, igualmente, a cor
de cada uma, embora recebessem todas, a seu modo, a coloração da epífise, semelhante a pequenino sol azulado, mantendo em seu campo
de atração magnética todas as demais, desde a hipófese até a região
dos ovários, como o nosso astro de vida, garantindo a coesão e o
movimento de sua grande família de planetas e asteróides. Minha
estupefação não tinha limites. É forçoso confessar, porém, que
minha surpresa se estendia muito mais, ao fixar os eflúvios
brilhantes que emanavam dos centros genitais, semelhando-se, em
conjunto, a minúsculo santuário cheio de luz. Como eu dirigisse
ao meu instrutor um olhar de indagação, seus esclarecimentos não se
fizeram esperar. - Na Crosta - disse-me Alexandre, sorrindo, após
aproximar-se de mim -, em sentido geral ainda existe muita
ignorância acerca da missão divina do sexo.Para nós, porém, que
desejamos valorizar as experiências, a paternidade e da maternidade
terrestres são sagradas. A faculdade criadora é também divindade do
homem. O útero maternal significa, para nós outros, a porta bendita
para a redenção; para grande números de pessoas na Esfera do Globo,
a visão celestial é símbolo de repouso e alegria sem fim, enquanto,
para muitos de nós, a visão terrestre significa trabalho edificante
e salutar. Não alcançaremos, porém, a terra prometida do serviço
redentor, sem o concurso das forças criadoras associadas, do homem e
da mulher. Compreendi, com novo espírito, o caráter sublime das
energias sexuais e recordei-me, compadecidamente, de todos os
encarnados que ainda não conseguiram edificar o respeito e o
entendimento relativos aos sagrados órgãos procriadores. Meu
orientador, entretanto, como antena receptora receptora de todas as
minhas emissões mentais, advertiu-me, bondoso: - Relegue ao
esquecimento qualquer expressão das reminiscências menos
construtivas. Os que ultrajam o sexo escrevendo, agindo ou falando,
já são grande infelizes por si mesmos. Guardei a lição e abençoei
a nova experiência que começava. Despediu-se Alexandre,
deixando-me na grande instituição de planejamento, onde o Assistente
Josino, ocupado nos encargos de seu ministério, me confiou aos
cuidados de Manassés, um irmão dos serviços informativos da casa,
que me acolheu prazerosamente, cercando-me de gentileza e
carinho. Senti imediatamente que o meu aprendizado ali se
iniciava com imenso proveito. Manassés era um livro volante. Seus
pareceres e informes traduziam valiosos
ensinamentos. Aproximando-nos dos pavilhões de desenho, onde
numerosos cooperadores traçavam planos para reencarnações incomuns,
foi o meu novo companheiro procurado por uma entidade simpática que
lhe pedia informações. Manassés apresentou-ma, otimista. Tratava-se
dum colega que, depois de quinze anos de trabalho nas atividades de
auxílio, regressaria à esfera carnal para a liquidação de
determinadas contas. O recém-chegado parecia hesitante. Via-se-lhe o
receio, a indecisão. - Não se deixe dominar pelas impressões
negativas - dirigiu-se Manassés a ele, infundindo-lhe bom ânimo. - O
problema do renascimento não é assim tão intrincado. Naturalmente,
exige coragem, boas disposições. - Entretanto - exclamava o
interlocutor, algo triste -, temo contrair novos débitos ao invés de
pagar os velhos compromissos. É tão penoso vencer na experiência
carnal, em vista do esquecimento que sobrevém à encarnação... -
Mas seria muito mais difícil triunfar guardando a lembrança - redargüiu
Manassés, incontinenti. Prosseguindo, sorridente,
acrescentou: - Se tivéssemos grande virtudes e belas realizações,
não precisaríamos recapitular as lições já vividas na carne. E se
apenas possuímos chagas e desvios para rememorar, abençoemos o
olvido que o Senhor nos concede em caráter
temporário. Esforçou-se o outro para esboçar um sorriso e
objetou: - Conheço-lhe o otimismo; quisera ser igualmente assim.
Voltarei confiante no concurso fraterno de vocês. E modificando o
tom de voz, indagou: - Pode informar-me se o meu modelo está
pronto? - Creio que poderá procurá-lo amanhã - tornou
Manassés,
bem disposto -; já fui observar o gráfico inicial e dou-lhe parabéns
por haver aceitado a sugestão amorosa dos amigos bem orientados,
sobre o defeito da perna. Certamente, lutará você com grandes
dificuldades nos princípios da nova luta, mas a resolução lhe fará
grande bem. - Sim - disse o outro, algo confortado -, preciso
defender-me contra certas tentações de minha natureza inferior e a
perna doente me auxiliará, ministrando-me boas preocupações.
Ser-me-á um antídoto à vaidade, uma sentinela contra a devastação do
amor-próprio excessivo. - Muito bem! - respondeu Manassés,
francamente otimista. - E pode informar-me ainda a médio de tempo
conferida à minha forma física futura? - Setenta anos, no mínimo
- redargüiu meu novo companheiro, contente. O outro fixou uma
expressão de reconhecimento, enquanto Manassés continuava: -
Pondere a graça recebida, Silvério, e, depois de tomar-lhe a posse
no plano físico, não volte aqui antes dos setenta. Trate de
aproveitar a oportunidade. Todos os seus amigos esperam que você
volte, mais tarde, à nossa colônia, na gloriosa condição de um
"completista". O interpelado mostrou um raio de esperança nos
olhos, agradeceu e despediu-se. As últimas observações de
Manassés ascenderam-me curiosidade mais forte. Não contive a
indagação que me vagueava no pensamento e perguntei sem
rebuços: - Meu amigo, que significa a palavra
"completista"? Ele sorriu, complacente, e retrucou,
bem-humorado: - É o título que designa os raros irmãos que
aproveitaram todas as possibilidades construtivas que o corpo
terrestre lhes oferecia. Em geral, quase todos nós, em regressando
à esfera carnal, perdemos oportunidades muito muito importantes no
desperdício das forças fisiológicas. Perambulamos por lá, fazendo
alguma coisa de útil para nós e para outrem, mas, por vezes,
desprezamos cinqüenta, sessenta, setenta por cento e, freqüentemente, até mais, de nossas possibilidades. Em muitas
ocasiões, prevalece ainda, contra nós, o agravante de termos
movimentados as energias sagradas da vida em atividades inferiores
que degradam a inteligência e embrutecem o coração. Aqueles, porém,
que mobilizam a máquina física, à maneira do operário fidelíssimo,
conquistam direitos muito expressivos em nossos planos. O
"completista", na qualidade de trabalhador leal e produtivo, pode
escolher, à vontade, o corpo futuro, quando lhe apraz o regresso à
Crosta em missões de amor e iluminação, ou recebe veículo enobrecido
para o prosseguimento de suas tarefas, a caminho de círculos mais
elevados de trabalho. Semelhante notícia representava para mim
valiosa revelação. Nada mais legítimo que dotar o servidor fiel de
recursos completos. E lembrei-me dos desregramentos de toda a sorte
a que se entregam as criaturas humanas, em todos os países,
doutrinas e situações, complicando os caminhos evolutivos, criando
laços escravizantes, enraizando-se no apego aos quadros transitórios
da existência material, alimentando enganos e fantasias, destruindo
o corpo e envenenando a alma. Num transporte de justificada
admiração, redargüi: - Recordando o cativeiro dos Espíritos
encarnados no plano das sensações, consola-nos saber que há um
prêmio aos raríssimos homens que vivem na sublime arte do equilíbrio
espiritual, mesmo na carne. - Sim - disse-me Manassés,
aprovando-me com o olhar -, por mais estranho que possa parecer,
semelhantes exceções existem no mundo. Passam, freqüentemente, para
cá, entre os anônimos da Crosta, sem fichas de propaganda terrestre,
mas com imenso lastro de espiritualidade superior. E dando-me a
impressão de que desejava esclarecer-me, relativamente a ele mesmo,
acrescentou: - Há muitos anos me esforço para conseguir a
condição dos "completistas"; no entanto, até agora continuo em
fase de preparação... Compreendi que Manassés, tanto quanto eu, trazia
regular bagagem de recordações menos felizes, com respeito ao uso
que fizera do corpo terreno nas experiências passadas e procurei
modificar a orientação da palestra. - Sabe de algum
"completista"
que tenha regressado à Crosta? - interroguei. -
Sim Naturalmente - continuei, curioso - terá escolhido um
organismo irrepreensível. Meu companheiro mostrou significativa
expressão fisionômica e acentuou: - Nenhum dos que tenho visto
partir, embora os méritos de que se encontravam revestidos,
escolheram formas irrepreensíveis, quanto às linhas exteriores.
Solicitaram providências em favor da existência sadia,
preocupando-se com a resistência, equilíbrio, durabilidade e
fortaleza do instrumento que os deveria servir, mas pediram medidas
tendentes a lhes atenuarem o magnetismo pessoal, em caráter
provisório, evitando-se-lhes apresentação física muito primorosa,
ocultando, assim, a beleza de suas almas para a eficiente garantia
de suas tarefas. Assim procedem, porquanto, vivendo a maioria das
criaturas no jogo das aparências, quando na Crosta Planetárias, incumbir-se-iam
elas próprias de esmagar os missionários do Bem, se
lhes conhecessem a verdadeira condição, através das vibrações
destruidoras da inveja, do despeito, da antipatia gratuita e das
disputas injustificáveis. Em vista disso, os trabalhadores
conscientes, na maioria das vezes, organizam seus trabalhos em
moldes exteriores menos graciosos, fugindo, por antecipação, ao
influxo das paixões devastadoras das almas em desequilíbrio. Entendi a extensão do esclarecimento e meditava na
grandeza dos princípios espirituais que regem a experiência humana,
quando Manassés acrescentou, após longa pausa: - As mentes
juvenis, quais crianças do mundo, brincam com o fogo das emoções;
todavia, os espíritos amadurecidos, mormente quando chegam à
situação de "completistas", abandonam toda experiência que os possa
distrair no caminho de realização da Vontade Divina. Em seguida,
convidado pelo meu novo amigo, penetrei numa das depend6encias
consagradas aos serviços de desenho. Pequenas telas, demonstrando
peças do organismo humano, estavam ordenadamente em todos os
recantos. Tinha a impressão fiel de que me encontrava num grande
centro de anatomistas, cercados de auxiliares competentes e
operosos. Espalhavam-se desenhos de membros, tecidos, glândulas,
fibras, órgãos de todos os feitios e para todos os gostos. - Como
sabe - observou Manassés, cuidadoso -, no serviço de recapitulação
ou de tarefas especializadas na superfície do Globo, a reencarnação
nunca pode ser vulgar. Para isso, trabalham aqui centenas de
técnicos, em questões de Embriologia e Biologia em geral,no sentido
de orientar as experi6encias individuais do futuro de quantos irmãos
se ligam a nós no esforço coletivo. Sentindo espontânea
veneração, contemplei os servidores que se inclinavam atenciosos,
arquitetando o porvir de muitos companheiros. Como era complexa a
oportunidade de renascer! Que atividades intensas exigia dos
benfeitores espirituais! Ao meu gesto de estranheza, respondeu
Manassés numa síntese expressiva: - Você não ignora que os homens
ainda selvagens ou semi-selvagens, embora utilizando os recursos
sempre sagrados da Natureza, edificam suas habitações em moldes mais
simples e rudimentares; todavia, o homem que já atingiu certo padrão
de ideal, desenvolvendo faculdades superiores, constrói o lar,
organizando plantas prévias. Indicando o quadro interior,
extremamente movimentado, acrescentou, sorridente: - Não estamos
aqui senão cogitando, igualmente, de projetos para futuras
habitações carnais. O corpo humano não deixa de ser a mais
importante moradia para nós outros, quando compelidos à permanência
na Crosta. Não podemos esquecer que o próprio Divino Mestre
classificava-o com templo do Senhor. Impressionado, seguia
atenciosamente os trabalhos em curso. Dispunha-nos a seguir adiante,
quando uma irmã, de porte muito respeitável, se aproximou saudando
Manassés afetuosamente. Ele respondeu com gentileza e
apresentou-ma: - É nossa irmã Anacleta. Cumprimentei-a,
sentindo-lhe a simpatia pessoal. - Trata-se de uma das nossas
trabalhadoras mais corajosas - acentuou o funcionário do trabalho de
informação. A senhora sorriu, algo contrafeita por se ver
focalizada na opinião franca do companheiro. Todavia, Manassés, com
o otimismo que lhe era característico, prosseguiu: - Imagine que
voltará à Esfera do Globo, em breves dias, em tarefa de profunda
abnegação por quatro entidades que, há mais de quarenta anos, se
debatem em regiões abismais das zonas inferiores. - Não vejo
nisso abnegação alguma - atalhou a senhora, sorrindo -, cumprirei
tão-somente um dever. - E fixando-me, desassombrada e serena,
asseverou: - As mães que não completaram a obra de amor que o Pai
lhes confia junto dos filhos amados, devem ser bastante fortes para
recomeçarem os serviços imperfeitos. Esse o meu caso. Não se deve
mencionar sacrifício onde existe apenas obrigação. Interessava-me
a história daquela irmã despretensiosa e simpática e, por isso
mesmo, animei-me a perguntar-lhe: - Regressará, então, dentro em
breve? De qualquer maneira, sua resolução traduz devotamento e
bondade. Não posso esquecer que também minha mãe voltou ao círculo
da carne, tangida por sublime dedicação. Notei que os olhos dela
se encheram de lágrimas discretas, que não chegaram a cair,
emocionada talvez com a minha observação sincera. Estendeu-ma a
destra, gentilmente, e, dando a idéia de que não desejava continuar
em conversação relativa ao assunto, disse-me, comovida: - Muito
grata pelo conforto de suas palavras. Mais tarde, ao se lembrar de
mim, ajude-me com o seu pensamento amigo. Nesse ponto da ligeira
palestra, Manassés indagou: - Já recebeu todos os projetos? -
Sim - respondeu ela -, não somente aos que se referem aos meus
pobres filhos, mas também a planta relativa à minha própria forma
futura. - Está satisfeita? - Muitíssimo! - redargüiu a dama. -
Na lei do Pai, a justiça está cheia de misericórdia e continuo na
condição de grande devedora. Em seguida, despediu-se, calma e
afável. Manassés compreendeu-me a curiosidade e explicou: -
Anacleta é um exemplo vivo de ternura e devotamento, mas voltará às
lutas do corpo a fim de operar determinadas retificações no coração
materno. Por imprevid6encia dela, noutro tempo, os quatro filhos que
o Senhor lhe confiara, caíram desastradamente. A pobrezinha
albergava certas noções de carinho que não se compadecem com a
realidade... Anacleta, contudo, voltando ao campo espiritual,
compreendeu o problema e dispos-se a trabalhar afanosamente para
conseguir, não só a reencarnação de si própria, senão também a dos
filhos que deverão segui-la nas provas purificadoras da Crosta. -
Quantos anos gastou para obter semelhante consessão? - perguntei,
impressionado. - Mais de trinta. - Imagino-lhe os sacrifícios
futuros! - exclamei. - Sim - esclareceu Manassés -, a experiência
lhe será bem dura, porque dois dos rapazes deverão regressar na
condição de paralíticos, um na qualidade de débil mental e, para
auxiliá-la na viuvez precoce, terá tão-somente a filha, que, por si
mesma, será também portadora de prementes necessidades de
retificação. Ia dizer da minha profunda surpresa, diante do
mecanismo de introdução ao serviço reencarnacionista, quando outra
irmã se acercou de nós, procurando por Manassés. Depois das
saudações afetivas, explicou-se ela, gentil, dirigindo-se ao meu
novo amigo: - Desejo sua obsequiosa interferência na retificação
do meu plano. - E abrindo pequeno mapa, onde se via desenhado com
extrema perfeição um organismo de mulher, acentuou: - Veja bem o
meu projeto para o sistema endocrínico. Sei que os amigos me
favoreceram, planejando-o com muita harmonia nas menores
disposições; entretanto, desejaria modificações. - Em que
sentido? - indagou o interpelado, surpreso. A recém-chegada
indicou os pontos do projeto onde se localizava o colo e falou: -
Fui advertida por benfeitores daqui, no sentido de não me apresentar
na Crosta, dentro de linhas impecáveis para a forma física e, em
razão disso, para que eu tenha mais probabilidades de êxito em meu
favor, na tarefa que me proponho desempenhar, estimaria que a
tiróide e as paratiróides não estivessem tão perfeitamente
delineadas. Como sabe, Manassés, minha tarefa não será fácil. Devo
reaver um patrimônio espiritual de grandes proporções. Preciso fugir
de qualquer possibilidade de queda e a perfeita harmonia física me
perturbaria as atividades. O novo companheiro endereçou-lhe
expressivo olhar e disse-lhe: - Tem razão. A sedução carnal é
imenso perigo, não só para aqueles que emitem a sua influenciação,
como também para quantos a recebem. - Prefiro a fealdade corpórea
- tornou ela. Não estou interessada num corpo de Vênus e, sim, na
redenção de meu espírito para a Eternidade. Manassés prometeu
interpor os seus bons ofícios, e, tão logo se despediu da nova
interlocutora, passou a mostrar-me as mais interessantes figurações
de órgãos do corpo humano. Admirava, tomado de profunda
impressão, aqueles gráficos numerosos que se alinhavam, com absoluta
ordem, demonstrando o cuidado espiritual que precede o serviço de
reencarnações, quando o meu amigo ponderou: - A medicina humana
será muito diferente no futuro, quando a Ciência puder compreender a
extensão e complexidade dos fatores mentais no campo das moléstias
do corpo físico. Muito raramente não se encontram as afecções
diretamente relacionadas com o psiquismo. Todos os órgãos são
subordinados à ascendência moral. As preocupações excessivas com os
sintomas patológicos aumentam as enfermidades; as grandes emoções
podem curar o corpo ou aniquilá-lo. Se isso pode acontecer na esfera
de atividades vulgares das lutas físicas, imagine o campo enorme de
observações que nos oferece o plano espiritual, para onde se
transferem, todos os dias, milhares de almas desencarnadas, em
lamentáveis condições de desequilíbrio da mente. O médico do porvir
conhecerá semelhantes verdades e não circunscreverá sua ação
profissional ao simples fornecimento de indicações técnicas,
dirigindo-se, muito mais, nos trabalhos curativos, às providências
espirituais, onde o amor cristão represente o maior papel. ...
Compreendendo-me o estado d'alma, o companheiro continuou: - São
inúmeros os projetos de corpos futuros em nossos setores de serviço.
Depreende-se, da maioria deles, que todos os enfermos na carne são
almas em trabalho da ingente conquista de si próprias. Ninguém trai
a Vontade de Deus, nos processos evolutivos, sem graves tarefas de
reparação, e todos os que tentam enganar a Natureza, quadro legítimo
das leis divinas, acabam por enganar a si mesmos. A vida é uma
sinfonia perfeita. Quando procuramos desafiná-la, no círculo das
notas que devemos emitir para a sua máxima glorificação, somos
compelidos a estacionar em pesado serviço de recomposição da
harmonia quebrada. E, durante alguns dias, ali permaneci na
instituição benemérita, compreendendo que a existência humana não é
um ato acidental e que, no plano da ordem divina, a justiça exerce o
seu ministério, todos os dias, obedecendo ao alto desígnio que manda
ministrar os dons da vida, "a cada um por suas
obras".
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OBRA DE ANDRÉ
LUIZ |
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