i n t e r v i e w s 

ERNESTO RODRIGUES
 
 
 

Rui Eduardo Paes - Tens estudado regularmente com Emmanuel Nunes, frequentando todos os seminários que este compositor faz quando vem a Portugal. A tua admiração pela obra dele é conhecida e é às vezes patente a influência de Nunes no teu trabalho. Porquê esta especial afinidade pelas suas concepções? O que mais te interessa em Nunes, tendo em conta que és, essencialmente, um improvisador?
Ernesto RODRIGUES - Personalidades como Emmanuel Nunes têm para mim um interesse superlativo. É um enorme privilégio poder disfrutar de toda a sua eloquência, sagacidade, argúcia e mestria. Como ser humano, é de uma simplicidade e de uma generosidade assombrosas. A sua personalidade está intimamente ligada a um forte sentido de modernidade e a sua obra é um testemunho vivo da busca permanente de novas soluções e respostas em matérias como o contraponto e a espacialização - é sobretudo aqui que o seu testemunho tão unanimemente reconhecido tem importância capital. Tendo-se afastado de correntes dominantes na sua época, tais como o pós-serialismo ou o pós-modernismo, determina um universo onde, através de um léxico muito pessoal, elabora uma exploração das características sónicas/tímbricas/texturais/térmicas dos instrumentos, com ou sem transformações electroacústicas em tempo real. Com uma destreza notável no domínio de abstracções tão exactas como as matemáticas, é frequentemente rotulado como demasiado frio, mental ou rígido - epítetos com os quais estou totalmente em desacordo.
No fim de um concerto meu nos Instants Chavirés, alguém do público perguntou-me se a peça que tínhamos acabado de tocar era da minha autoria ou se teríamos interpretado uma obra do Emmanuel… Respondi-lhe que tudo tinha sido improvisado. Nos seus seminários, as partituras das suas obras são dissecadas e analisadas ao mais ínfimo pormenor. Ao longo dos anos, talvez tenha assimilado e interiorizado (in)conscientemente algumas das características que melhor definem o estilo do compositor. Emmanuel Nunes reúne características de invulgar coerência artística no mundo da música contemporânea escrita. Não nego as influências, ainda para mais quando vêm de cima… no entanto, nunca é demais frisar que não existe da minha parte qualquer intenção deliberada de criar um resultado sonoro que a ele se assemelhe.

Rui Eduardo Paes - O teu trabalho de composição desenvolveu-se, sobretudo, nos domínios da electroacústica. Contrariamente ao que acontece com a tua vertente improvisacional, na qual te manténs distante do “mainstream”, a tua electrónica tem grandes afinidades com a “erudita”. Porquê?
Ernesto RODRIGUES - O resultado musical de uma peça é sempre determinado pelo “método” aplicado, e na minha óptica só há duas maneiras de o fazer - ou se compõe ou se improvisa. Se improviso, sirvo-me de “argumentos” ligados à prática, à gestualidade, ao espaço envolvente, à interacção, aos estímulos - é tudo muito pragmático e imprevisível. Os factores risco e erro estão sempre presentes e inter-relacionados com esta situação. Na improvisação, o erro é assumido e transmuta-se para planos em que pode ganhar contornos tão ou mais importantes do que a ausência desse mesmo erro. Pode até assumir o papel preponderante de fio condutor da peça em causa. A dada altura podes encará-lo como mais um “motivo” e, dependendo da “perícia” do improvisador, pode ser levado para níveis ou caminhos nunca antes intuídos/codificados.
O mesmo não se passa no acto de compor, visto que temos o tempo do nosso lado, e podemos apagar, mudar, remediar, emendar, reflectir, etc., tomando a opção que mais nos agrada ou que é mais coerente com o “todo” da partitura. É exactamente aqui que reside a grande diferença entre os dois “métodos”. Por exemplo, se analisarmos uma partitura de Penderecki, notamos que a dado momento, no compasso y, pode surgir uma transposição a nível rítmico, melódico ou harmónico (com variadíssimas probabilidades matemáticas), de uma precisão milimétrica e que se referiria ao compasso prévio x. Na improvisação, este fenómeno seria de todo impossível de ocorrer. Esta extrema complexidade, com objectivos bem marcados, pode atingir níveis de relações impossíveis de se coadunar com o tempo real. Daí eu estar profundamente dividido entre estes dois mundos e não poder dizer que um se sobrepõe ao outro - complementam-se. Vejo-os como pólos díspares e até opostos, embora se proponham atingir o mesmo objectivo - a música. É, talvez, por eu ter intuído e assimilado vincadamente esta abordagem “académica” da composição, que relacionas à partida a minha electrónica com a “erudita”.
Com a entrada em cena do software específico MAX/MSP, que nos dá possibilidades quase infinitas e vem abrir um vasto leque de  novas hipóteses composicionais, começou-se a explorar “instrumentos” de trabalho de grande especificidade (FFT, granulares, etc.) e os resultados ganharam outros contornos. Se, por um lado, temos hipóteses novas e que nos permitem inovar, por outro deparamo-nos com demasiados lugares comuns ou impasses, na medida em que anda tudo à volta do mesmo. De qualquer modo, há muito boa electrónica editada quase todos os dias. Está na cabeça das pessoas dar a volta por cima. “O problema não está naquilo que se usa, mas sim naquilo que se faz”, comentou-me Emmanuel Nunes a este propósito…

Rui Eduardo Paes - Contra a cristalização de certos procedimentos na improvisação mais convencional, aqueles mesmos que transformaram a chamada “música não-idiomática” em mais um idioma, tens procurado novas vias e novas soluções. Também achas mais importante improvisar do que tocar “música improvisada”, como advoga a nova geração de improvisadores que preferem não se apresentar como tal?
Ernesto RODRIGUES - É claro que, com a erosão do tempo (esse grande escultor), tudo se revela adequada ou inadequadamente aos nossos olhos. É isso a dialéctica histórica. O grande “motor” evolutivo da história não recua nem pára, e nós seres humanos somos os “princípios reactivos” dessa evolução. Quando há duas ou três décadas Derek Bailey enunciou as bases da chamada “música não-idiomática”, pondo em prática exaustiva e sistematicamente esses mesmos princípios, depois adoptados e correspondidos pelos músicos mais desprendidos de (pre)conceitos, lançou novas concepções, tanto teóricas como práticas, num terreno já em si avesso a cristalizações ou estagnações. O que não quer dizer que essas teorizações fossem axiomáticas, irreversíveis, estanques ou até imunes às leis da geração e da corrupção... As “mutações” que verificamos ao longo da história do homem são necessárias e conformes com essa mesma condição. A memória lega-nos de forma geral quase tudo o que foi marcante em determinada época, seja no bom ou no mau sentido.
Improvisar ou “tocar música improvisada” é-me indiferente. A fasquia que coloco é a de tentar ser coerente comigo próprio e de fazer corresponder o mais possível a música que faço com as exigências de qualidade, frontalidade, autenticidade e contemporaneidade, ainda que com a devida consciência da subjectividade e da relatividade destes atributos. Talvez ingenuamente, tenho uma certa dificuldade em admitir o divórcio entre a vida e a obra de qualquer artista - a ética e a estética não são separáveis. Sei apenas que o conceito de “arte pela arte” não me preenche.

Rui Eduardo Paes - Julgo que, devido a um cansaço teu em relação ao expressionismo extremo, ao virtuosismo e ao exibicionismo tecnicista da música improvisada e do neo-free jazz, a partir de determinada altura começaste a interessar-te pelas práticas emergentes do reducionismo e do “near silence”, a exemplo de Radu Malfatti, Bernhard Günter e de projectos como IST, Sealed Knot ou Assumed Possibilities. O que te atraiu concretamente nas suas propostas?
Ernesto RODRIGUES - O jazz e todas as correntes com ele relacionadas têm um carácter iminentemente expressionista. Com todo o respeito, não é essa a via que procuro nem que acho adequada para mim neste momento - parece-me haver formas mais subtis, eficazes e condizentes com o panorama e as carências do mundo actual. No meu caso, a mudança radical dá-se em finais de 1997, quando se extinguiram os projectos a que pertencia: Fromage Digital, IK*Zs(3) e Lautari Consort II. Logo após o termo destes três trios, fiquei com mais espaço e disponibilidade mental para poder definir e traçar as “estratégias” que mais me interessavam e convinham em termos conceptuais, o que aconteceu em 1998. No ano seguinte, com a gravação de «Self Eater and Drinker» com Jorge Valente, pus em prática alguns dos conceitos que hoje me norteiam. É claro que estes atributos são bem mais evidentes em «Sudden Music» ou em «Ficta», mas a aproximação a estas coisas que mexem com a nossa personalidade é tendencialmente lenta.
Transpondo para os dias de hoje, os projectos que indicas, e aos quais acrescentaria AMM, FIN e Crank, são exactamente aqueles que vão ao encontro do que procuro e acho imperativo. Radu Malfatti é um dos meus músicos de eleição - reconhecido no meio desde sempre, é o mentor do trio mais in silence do planeta - refiro-me ao seu projecto com Phil Durrant e Thomas Lehn. Para além de trombonista/improvisador, Radu tem (cada vez mais) um pé na música erudita escrita, aí revelando uma personalidade firme e vincada. Os Sealed Knot afiguram-se-me muitíssimo consistentes, de “requinte” e “bom gosto” elevados, e muito, muito “focados”. A sua música tem o dom de subverter a ordem, com novos conceitos de indeterminação e de uma “aleatoriedade” nada inocente e cheia de “cultura”. Não recorrendo à notação, é o grupo onde o limiar entre a tradição escrita e a não escrita do ponto de vista do resultado sonoro é mais ténue.

Rui Eduardo Paes - A música que tocas passa pela recusa do fraseado linear, a utilização quase exclusiva do atonalismo e de microtonalismos, a privilegiação de materiais sonoros que vão muito para além das notas convencionalmente reconhecidas, a incidência na elaboração de texturas em detrimento de um trabalho estrutural, o gestualismo e a criação de atmosferas. O que procuras realmente?
Ernesto RODRIGUES - As “características” que enumeras são o “material” mais utilizado na abordagem da semântica proposta pelas novas gerações da improvisação. Tenho a pretensão de me actualizar em termos de linguagem. Se consigo ou não, isso é sempre subjectivo e até discutível. A dinâmica criativa dialéctica é fundamental. Os materiais melódicos, harmónicos e rítmicos têm de ser moldados e dissecados à luz das realidades condizentes com o mundo sensível de cada época. Vivemos numa turbulência caótica e incontestável, em crise de valores e até de identidade, e tudo no mundo corre muito rapidamente. O tempo, com a sua componente psicológica, escasseia a toda a gente. Cabe à Arte fazer o contraponto com a realidade nua, pobre e inerte a que estamos sujeitos. Hoje podemos fazer um excelente concerto unicamente com uma ou duas notas (entre Fa e Fa#, por exemplo) - logo, o uso de microtonalismos, texturas, sons de características subliminares e psico-acústicas, drones, elementos de rugosidade, etc., são fenomenologicamente capazes de ser bem mais apropriados. Estes atributos podem conferir à música um lado mais telúrico ou mais escatológico e eu gosto disso.

Rui Eduardo Paes - Tens tido a preocupação de tocar em contextos acústicos como se os instrumentos fossem electrónicos. Com que propósito?
Ernesto RODRIGUES - A exagerada concentração de práticas musicais que recorrem aos computadores - “laptop music” - é um dado aquirido, incontestável e com tendência para aumentar. A laicização da electrónica é também um facto insofismável… É o instrumento por excelência das novas gerações. É cada vez mais raro encontrar novos talentos de expressão acústica; logo, parece-me que o devir da chamada música electrónica está em casa das pessoas e não nas academias, como se verificava até aos finais do séc. XX. A criatividade incontrolável da individualidade é agora “democraticamente” aceite e mesmo imposta. Este facto coloca-nos perante uma nova perspectiva, que também nos revela aspectos indubitavelmente positivos. Toda esta panóplia informática impõe novas abordagens, físicas e semânticas, aos instrumentistas acústicos. Os que mais me impressionam são aqueles que, ao reflectir sobre esta nova realidade, reformularam o seu discurso e aparecem com novas concepções e abordagens no que ao “fraseado”, ao vocabulário e até à postura diz respeito. Os intrumentos ganham contornos microtexturais até hoje insuspeitados. No que me toca, tento pôr estes predicados em prática, sentindo-me bastante atraído por esta nova pesquisa que, na minha opinião, tem alcançado resultados positivos e até desconcertantes.

Rui Eduardo Paes - Os músicos com quem mais habitualmente trabalhas são Guilherme Rodrigues, teu filho, com 14 anos de idade, e o percussionista José Oliveira, também artista plástico, performer e poeta. Podes falar-me deles?
Ernesto RODRIGUES - Com o José Oliveira há inegavelmente uma grande cumplicidade intelectual e artística. Somos exactamente da mesma geração e apercebi-me que, ao longo dos anos, comungávamos das mesmas referências estéticas. Possui uma fortíssima componente performativa e grande originalidade em tudo aquilo que faz - agrada-me o radicalismo inerente à sua personalidade. É o “meu” percussionista por excelência e tem correspondido às minhas expectativas.
Em relação ao meu filho Guilherme tudo aconteceu espontaneamente: já ele estudava música há quatro anos quando começou a interessar-se por aquilo que me via e ouvia fazer, e também pelo que se ouvia em casa. Foi ele próprio que manifestou interesse em assistir aos meus ensaios e em juntar-se a nós. Logo após a primeira experiência, percebi que ele se integrava muito facilmente, se entrusava e entrava no espírito pretendido, denotando uma grande versatilidade. Meia dúzia de ensaios deram origem ao primeiro CD da Creative Sources Recordings, «Multiples». Daí para cá tenho-o requisitado para grande parte do trabalho que produzo. Será o embrião da quinta geração de improvisadores em Portugal?

Janeiro 2003
 

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