DIAS OUTONAIS
Ilona
Bastos

Tanto
necessito de harmonia,
Que dos meus gestos
faço dança,
Para que a arte
torne belos
Estes dias curtos
do Outono.

Limpo
cada folha da palmeira
Como
quem penteia os cabelos de oiro
De
uma princesa donzela.

Atento, o meu olhar passeia
manso
Sobre as construções
passantes,
Quando em trânsito navego
na cidade,
E lentos desfilam edifícios
altos
Nas margens empedradas da
avenida.

Prendo-me
aos detalhes do mármore jovem,
Do
ferro forjado da varanda antiga,
Às
minúcias doces de um jardim cuidado,
À
cortina em renda por trás da
vidraça

Rola-me entre os dedos a
caneta prata.
Sinto-a macia, em ânsias de
apontar
As palavras prontas que
lestas irrompem
Na tarde outonal.

Na
chegada a casa, no abrir da porta,
Na
entrada escura, no buscar da luz,
Imito
a elegância do bailado,
Cisne
encantador, fonte de candura,
Em
gestos suaves que no ar desenho

E assim se passam os dias do
Outono.
Como a folha seca que ao
vento se entrega
E sonhando voa, ave por
segundos,
Cada vez mais alto, mais
longe, mais leve,
Até que o remoinho, ao
virar da esquina,
Tolha o seu caminho.
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