Nascimento de um Vampiro


Edward, filho de Charles Brisemont, homem corajoso, em seus 19 anos partia de um pequeno vilarejo para a capital. Levava consigo uma carta, uma indicação de seu pai ao Sr. de Winters, para que fosse admitido na companhia dos mosqueteiros do rei.
Seu pai sempre quis que seus filhos fossem mosqueteiros como ele foi, pois achava que eles deveriam terminar aquilo que começou e foi impedido pela perda de sua mão direita em uma luta. Ele já havia enviado seu filho mais velho à capital, mas este havia sido morto covardemente - a notícia que recebeu foi de que teria sido morto com uma punhalada nas costas. Além de ganhar a vida, Edward tinha outro objetivo ainda maior: vingar seu irmão. Mas havia um problema, ele ainda não sabia a identidade do assassino.
Então saiu Edward de seu vilarejo carregando não apenas a carta de indicação de seu pai, mas também todo seu rancor, de um inimigo que nem ao menos sabia o nome, além do florete, com o qual foi treinado pelo pai, para se defender no caminho, se lhe acontecesse algum imprevisto e com o qual ele almejava tirar a vida do assasino de seu irmão.
Foram dois dias de jornada até a capital. Na noite do primeiro dia, como não encontrasse abrigo, dormiu ao relento, utilizando-se de sua capa como proteção. Quando acordou, sentiu que lhe faltava algo, mas era apenas sua imaginação. Ao anoitecer do segundo dia chegou à cidade e, como não quisesse se apresentar ao comandante sujo do jeito que estava e fatigado pela viagem, instalou-se em uma estalagem onde foi muito bem recebido por uma mulher jovem e bela, que recebia ordens de outra, mais velha, provavelmente sua mãe.
Durante a noite ouviu alguns gritos, que lhe pareciam vir da bela moça que lhe recepcionara. Sua honra não lhe permitia deixar uma linda donzela como aquela em apuros, pegou seu florete e foi verificar. Ao descer viu um homem com um grande saco nas costas, ao ser mexido o saco fazia barulho de metal: eram as riquezas da casa. Outro homem ameaçava a moça com uma faca. Ao ver Edward, os dois gatunos não pensaram duas vezes, decidiram por correr para a rua.
Edward conseguiu acertar ainda a perna do homem com a faca, mas o outro, com o dinheiro, correu. Como aquele que foi acertado não podia se mover, correu na direção do fugitivo que, ao notar que seria alcançado, por estar carregando muito peso, soltou a sacola e fugiu. O dinheiro foi restituído à moça, mas o ladrão havia fugido. Pelo menos havia conseguido prender um deles, o que já não era uma derrota total.
No outro dia não se comentava outra coisa na estalagem. Foi poupado de pagar pelo pernoite, mesmo depois de insistir que havia apenas feito sua obrigação. Não era ganancioso mas lembrou que o episódio dos ladrões poderia lhe ajudar com o Sr. de Winters, afinal havia prendido mais um gatuno.
Dirigiu-se ao quartel dos mosqueteiros.
- Que fazes aqui com este homem - lhe perguntou o guarda
- Venho trazê-lo para a prisão e resolver algum problema de emprego
- Então queres ser um mosqueteiro?
- Sim, e trago indicação para isso.
- E qual teu nome, filho?
- Me chamo Edward, filho de Charles Brisemont.
Ao ouvir o nome do pai de Edward, o guarda mostrou-se surpreso, se não espantado, e fez sinal para que entrasse.
- Mas deixe este homem aqui que cuidaremos dele.
O homem foi conduzido por outro guarda enquanto Edward andava pelo prédio. Aproveitava a procura para vislumbrar a paisagem, aquilo que seria como sua casa. Finalmente achou o Sr. de Winters, em sua sala, conversando com outro homem.
Aguardou a saída do homem, pediu licença e entrou.
- Bom dia, meu rapaz. O que o traz aqui?
- Senhor, tenho indicação de meu pai para me apresentar ao senhor. - disse isso e entregou a carta
Depois de ler a carta, o Sr. de Winters levantou o rosto, olhou para o rapaz e disse:
- Vejo que tens ótima descendência. Teu pai serviu muito bem o rei como um de seus soldados e acredito que estejas disposto a fazer melhor ainda que ele.
- Farei o melhor que puder, senhor.
- Muito bem, filho. Apresenta-te amanhã às três horas a mim para que façamos os testes necessários.
- Sim, senhor.
Disse isso, pediu licença novamente e saiu da sala. Em seu caminho, não olhava muito bem para o que acontecia a sua volta: estava totalmente vislumbrado por ter conseguido se tornar um mosqueteiro do rei e, por isso, acabou por esbarrar em um homem. Quando olhou para a figura, para pedir desculpas, notou um homem com quase o dobro de seu tamanho vestindo o uniforme dos mosqueteiros e que parecia não ter gostado muito do esbarrão.
Como não tivesse nenhum amigo nessa cidade, foi Edward festejar sozinho em uma taverna da cidade. Entrou e pediu qualquer coisa para beber. Sentou-se e passou a refletir. Seu primeiro objetivo estava quase cumprido, precisava apenas passar nos testes no dia seguinte e se tornaria um mosqueteiro, como queria seu pai. Mas havia mais alguma coisa que o perturbava: ainda precisava encontrar o assassino de seu irmão. Estava pensando em seus problemas quando sentiu algo lhe cutucar as costas, parecia a ponta de um florete. Virou-se.
Era realmente um florete. Reconheceu de pronto o homem que o segurava: era o mesmo em que havia esbarrado no quartel. Sentiu um calafrio lhe subir a espinha. Mas o homem não tinha intenções hostis, guardou o florete e sentou-se ao lado de Edward.
- Olá, rapaz. Vejo que você é novo por aqui.
- Sim, sou. - Edward se mantinha alerta
- Sabe, quando eu te encontrei no quartel, tive uma vontade incrível de te dar uma estocada. Mas isso já passou, eu estava apenas mal-humorado com um problema que fui resolver com o Sr. de Winters. Agora que tudo já foi resolvido, não tenho mais raiva. Mas me diga: que fazias no quartel?
- Tentava conseguir adesão ao corpo de mosqueteiros do rei.
- E conseguiste?
- Sim.
- Ah!! Então temos que comemorar! - e pediu algo também para beber - À tua saúde!
Edward notou que o homem realmente era inofensivo.
- Diz-me teu nome.
- Edward Brisemont.
- Brisemont... Conheço este nome, és filho de Charles Brisemont?
- Sim, o conheceste?
- Não pessoalmente mas ouvi dizer que foi bravo guerreiro.
- E conheceste meu irmão, Conrad?
- Claro, claro. Éramos muito amigos. Pena que tenha nos deixado.
- E sabes como isso se deu?
- Edward, não creio que este seja o melhor lugar e ocasião para falarmos disso.
- Então onde queres conversar?
- Se quiserdes realmente falar sobre isto, podemos ir à minha casa.
- Então vamos.
Edward estava realmente muito interessado em saber isto, queria a todo custo vingar seu irmão. Dirigiram-se à casa do homem. Era uma casa razoavelmente grande, onde foram recebidos por um criado que pôs a mesa para que conversassem.
- Agora, lembro-me que ainda não sei nem mesmo teu nome, amigo.
- Ah, claro. E eu também esqueci de apresentar-me. Chamo-me Alexander.
- Muito bem, senhor Alexander. Conta-me o que sabes sobre a morte de meu irmão.
- O que sei não é muito. Ele foi encontrado morto em sua própria casa, com uma facada nas costas. Única e fatal. A polícia não tem certeza de nenhum suspeito mas sabem que foi alguém com muito conhecimento do corpo humano e com muito treinamento. Alguns acreditam que tenha sido até mesmo outro soldado.
- Mas quem?
- Eu não acusaria ninguém pois, além de não ser perito, não tenho provas contra ninguém.
- Ele tinha algo contra alguém, alguém que perseguisse?
- Não, ele era um homem muito pacífico. Porém, não querendo desacreditar seu irmão, poderia ter algo muito secreto, que escondia mesmo de seus melhores amigos.
- E tu consideras esta possibilidade?
- Aprendi na vida que todas as possibilidades devem ser consideradas, por mais absurdas que sejam.
Depois disso seguiu-se um tenebroso silêncio. A noite já principiava a cair e Edward fez sua última pergunta.
- Estarias disposto a me ajudar a investigar a morte de meu irmão?
- Claro, tudo para vingar um homem honrado.
Após ouvir isto Edward levantou-se e saiu. Seguiu para a estalagem onde havia dormido o dia anterior. Estava tudo trancado, talvez por causa do incidente da madrugada. Bateu na porta. Atendeu a moça que havia o atendido no outro dia e deixou-o entrar. Edward cumprimentou e subiu para o seu quarto, sem nem mesmo parar para comer algo, pois estava muito preocupado com o problema de seu irmão.
No dia seguinte Edward acordou com uma fome incrível, resultado da falta de comida do dia anterior, e desceu para fazer o desjejum. Lá embaixo, a moça o esperava com a comida, parecia que ela havia adivinhado sua fome. Como estivessem fechadas todas as janelas, pediu que fossem abertas mas ela retrucou que prefere o escuro.
Ele notou que se sentia um pouco atraído pela moça, mas não sabia-lhe nem o último nome. Resolveu perguntar e foi prontamente respondido. Seu nome era Clarice Visegron. Mesmo não conhecendo a família da moça, Edward sentiu algo estranho ao ouvir aquele nome.
Mas decidiu que deveria esquecer estes devaneios do coração. Alimentou-se, despediu-se e foi para a praça, tomar um pouco de ar. Em meio a alguns carros e pessoas que passava, notou algo que não tinha notado no dia anterior. Seu olhar se fixou em uma casa onde dois mendigos pediam esmolas na calçada. A casa parecia muito bem trancada e talvez abandonada. Mas notou um homem de pé, ao lado da casa.
Resolveu ir falar com o homem.
- Com licença.
- Sim, o que deseja?
- Que é esta casa aqui?
- Ah, esta casa. Ela só funciona à noite, é melhor que o senhor volte depois do pôr-do-sol.
- Mas quem mora aí?
- Ninguém, volte à noite e o senhor pode descobrir.
Edward deu as costas e voltou à praça. Agora havia ainda mais uma coisa que o intrigava: o que aconteceria naquela casa à noite? Por que o homem teria sido tão evasivo? Olhou para o relógio em uma torre: já eram quase três horas e ele precisava apresentar-se ao Sr. de Winters. Apertou o passo até o quartel.
Chegou exatamente à hora marcada à sala do comandante.
- Muito bem, rapaz. Estais pronto?
- Estou, senhor.
- Então vamos aos testes.
Seguiram para uma área onde Edward foi conduzido a vestir uma roupa para esgrima. Ele teria que lutar com um soldado, que estava o esperando.
- Brisemont, este é Grimaud, mosqueteiro do rei. Podem iniciar.
O adversário era bastante habilidoso, mas Edward conseguiu vencer a luta, com alguma dificuldade.
- Muito bem, Brisemont. Continuemos.
Desta vez Winters levou Edward para uma pista de corrida com alguns obstáculos, onde lhe preparou um cavalo. Depois destes testes ainda houve muitos, consumindo uma semana de esforços, e em todos Edward foi bem-sucedido.
- Brisemont, - disse Winters - tendo passado por todos os testes, agora tu serás admitido como mosqueteiro do rei. Receberás um novo florete, se assim desejares, montaria e abrigo no dormitório do quartel. Se não quiserdes alguma dessas coisas, diz-me agora.
Tudo era bem-vindo mas Edward ainda queria guardar o florete de seu pai.

Precisamos contar ainda que, durante a semana de testes, durante o tempo em que não estivera no quartel, Edward foi, à noite, investigar a casa misteriosa. Na primeira noite, descobriu que se tratava de uma casa de
aluguel, mas a casa ainda lhe era interessante. Durante as manhãs, tentou descobrir mais sobre a moça misteriosa que lhe recepcionava, mas ela sempre fugia do assunto, parecia que tinha medo de algo.
No quarto dia, viu que Clarice, a moça que acabou por roubar seu coração com todo seu mistério, entrava na casa de aluguel. Mas isso não poderia estar acontecendo. Seria ela uma prostituta? Todo aquele mistério era por causa disso?
Tudo levava a crer que ela realmente trabalhava lá, e isto lhe decepcionou muito. A mulher que ele julgava amar, tinha, para ele, se transformado num monstro. Passou a nutrir ódio por ela, mas, no fundo, ainda a desejava.
Decidiu investigar melhor a casa e a mulher. Chegou a seguí-la para descobrir o que ela fazia na casa. Viu ela bater três vezes, cada uma de modo diferente, talvez uma senha, em uma porta que lhe foi aberta e entrou. Ele
olhou para todos os lados e pôs o ouvido na porta para ouvir o que falavam.
Pôde ouvir claramente.
- Mestra, - dizia Clarice - ele me segue. Acho que ele desconfia de que trabalho aqui.
Ao ouvir isso, Edward sentiu um calafrio mas, como não sentisse seu esconderijo ameaçado, continuou a escutar.
- Não devias ter deixado isso acontecer. - respondeu uma voz feminina - Agora será mais difícil cumprir meus planos.
- Eu tentei impedi-lo, mas não pude.
- Clarice, tu sabes que está proibida de amar este rapaz, não?
- Sim, mestra.
- Isso é muito importante, não estraga por completo meus planos.
- Te serei sempre fiel.
- Então traga-mo aqui amanhã à noite.
- Mas...
- Recusas-te?
- Não, mestra, farei o que me ordenas.
Edward notou que a porta seria aberta. Saiu da casa e seguiu para a casa de Alexander, que havia se tornado seu amigo e o receberia de braços abertos. Foi recebido pelo criado, com uma lanterna na mão.
- Por favor, quero falar com teu amo.
- Sim, siga por aqui.
- Que te aconteceu, Edward? Pareces muito pálido.
- Preciso te falar, Alexander.
- Muito bem. - e fez sinal para que o criado puseste a mesa.
- Alexander, tu sabes o que é aquela casa que parece abandonada na praça?
- É uma casa de aluguel. Dizem que é amaldiçoada. Que tens com aquela casa, amigo?
- Há uma moça.
- Esqueça-a, rapaz. Ela não te ama realmente.
- Não, não é isto. É a moça que me acolhia na estalagem.
- Aquela que pensastes amar?
- Esta mesmo. Eu descobri que ela tem algum negócio naquela casa, mas ela não trabalha lá. Se é que entendes o que digo.
- Claro, claro, entendo. Mas qual o negócio que ela tem lá?
- Não sei ao certo, parece um tipo de mensageira. Eu a segui até lá e a vi falando com uma mulher, à qual chamava de mestra. Falavam sobre mim.
- E isto é bom ou ruim?
- Penso que é ruim, muito ruim. A outra mulher pediu que Clarice me levasse até lá no dia de amanhã.
- E que pensas em fazer?
- Era isto que vim te perguntar.
Depois de refletir um pouco, Alexander tem uma idéia.
- Então eu te aconselho a dormir aqui em minha casa por hoje. Se ela te encontrar amanhã no quartel, então acho que deves seguí-la até o local que for guiado. Como dissestes, ela falava com uma mulher e uma mulher não pode ser tão perigosa, mesmo que more em uma casa amaldiçoada.
- Se a casa é amaldiçoada, então não deveria eu levar algo para me proteger?
- Realmente, leve um dente de alho para afugentar os maus espíritos.
E foram dormir.
No outro dia, Edward acordou amedontrado, após ter pesadelos. Pegou logo um dente de alho e foi para o quartel. Era seu dia de serviço, precisava ficar de guarda.
O dia corria bem mas, quando aproximaram-se as seis horas, hora da troca da guarda, Edward viu uma pessoa conhecida se aproximar. Depois de chegar mais perto, notou que era Clarice, ela havia ido buscá-lo para sua entrevista à mulher da casa de aluguel. Ele sentiu vontade de correr mas conteve-se em checar se o dente de alho ainda estava em seu bolso.
- Posso conversar contigo, Edward? - perguntou Clarice
- Claro. - respondeu, quase gaguejando, ao notar que a nova guarda já se aproximava
Depois de passar o serviço aos novos guardas, Edward foi com Clarice para a praça. A proximidade da casa lhe amedrontava e ela quase podia notar isso.
- Edward, tenho algo muito importante para te dizer.
- Pode falar.
- Sabe, ...
- Pode falar, estou ouvindo. - ele notava que ela também estava nervosa
- Preciso que tu me sigas para conhecer uma amiga. Ela diz que tem negócios com tua pessoa.
- Mas quem é esta pessoa? - perguntava ele, apenas para disfarçar
- Venha siga-me.
Edward levantou-se e já seguia na direção da casa, quando notou que ela tomava outro caminho. Sentiu-se melhor ao perceber isto.
- Tem mais alguma coisa que preciso dizer-te.
- Dize, deixa de tanto mistério.
- Desde que chegaste à cidade, te vigio, Edward. Noite e dia, todo o tempo que posso olhar para ti eu te vigio.
- Isto tem algo a ver com tua amiga, Clarice? - e apertou sua mão
- Sim e não - e deixou uma lágrima cair
- Por que choras?
- Por ti.
- Por mim? Mas por que? - Edward sentiu que ainda queria aquela moça naquele momento, e parecia ser correspondido, por mais que suspeitasse dela
- Porque estás condenado.
- Por que? Dize! Quem me condenou?
- Você ainda não pode saber.
Disse isto e beijou o rapaz. Ele ainda não sabia o que a mulher da casa queria, mas aquele momento foi por ele desejado durante muito tempo. Clarice se soltou e saiu correndo, na direção de sua casa. Edward não soube o que fazer, ficou paralisado pela surpresa. Resolveu ir à casa de Alexander, onde encontraria além de abrigo, um amigo para conversar.
Foi informado pelo criado que não encontraria seu amo naquele momento. Voltou à praça, a casa já não mais lhe amedrontava como antes, ficou a pensar sobre os acontecimentos. Aquela mulher, a condenação que Clarice citou, o assassino de seu irmão. Agora eram três os problemas que o perturbavam e o mais fácil de resolver era o que dizia respeito à mulher misteriosa da casa de aluguel.
Levantou-se e seguiu para a casa. Ao entrar sentiu um calafrio, talvez fossem os fantasmas da casa, mas isso não o amedrontava: estava determinado.
Bateu à porta que Clarice batera no outro dia do mesmo modo que ela havia batido. Uma mulher abriu, uma figura extremamente pálida, um pouco menor que ele, com cabelos longos e negros que chegavam à cintura, seus olhos verde pareciam hipnotizá-lo.
- Entre, meu rapaz. - e apontou a cama - Onde está sua amiga Clarice?
- Ela me pediu que viesse aqui apenas. Não me acompanhou.
- Então ela te disse o assunto de nossa conversa.
- Disse que tinhas negócios comigo, mas eu desconheço esses negócios.
- Realmente, tenho algo muito importante para lhe dizer.
- Pareces tão misteriosa quanto ela.
- Por que? Ela é misteriosa?
- Sim, parece que está sempre escondendo algo de mim.
- É sobre isto que preciso falar-te. Espere que vou preparar algo para ti.
A mulher se vira e toma dois copos e enche de vinho tinto. Num deles ela derrama um pouco de seu sangue, mas Edward não nota isto. Era o começo de sua condenação.
- Tome. - entregando o copo com o sangue - Tu não me conheces, mas eu conheci muito bem teu pai.
- O que tem meu pai? - Edward nota que esta mulher pode ser uma chave para o assassino de seu irmão
- Ele era um grande homem. Disse-me uma vez, após perder a mão: "Anna, minha missão não está completa mas eu enviarei meus filhos para cumpri-la. E tu serás testemunha disto." E vejo que ele cumpriu sua promessa. Tu sabes de que missão ele falava?
A este momento Edward já havia bebido parte do vinho, sentiu um gosto estranho mas creditou aquilo aos costumes das pessoas da cidade grande.
- Não, não sabia. - ele falava mas estava hipnotizado pela mulher, ela era agora a mais bela mulher do mundo naquele momento para ele, já havia mesmo esquecido Clarice
- Foi isto que ele me incubiu de te revelar. Ele te falou sobre mim?
- Não, nunca citou tua pessoa. Nem mesmo teu nome
- Isso é bom. - disse ela segurando um sorriso - Sabes que ele queria tornar-se conde, não?
- Não. - respondeu espantado - Meu pai sempre foi um homem muito humilde, não almejava estes títulos de nobreza.
- Pois era este seu objetivo. Ele planejava escalar degrau a degrau até seu título almejado por intermédio de sua posição como homem de armas. É esta a tua missão agora.
- Mas por que ele não me disse antes?
- Isso terás que descobrir.
- E que tem tu com os negócios do meu pai?
A este ponto a mulher só não empalideceu mais por que lhe seria impossível.
- Teu assunto comigo já é findo, podes sair.
Quando ouviu isto, Edward agradeceu aos céus. Provavelmente se ficasse mais algum tempo com aquela mulher ele não conseguiria se controlar tamanho era o sentimento que o enfeitiçava. Ela parecia ter lhe dado algum tipo de porção do amor. Como não pudesse voltar para o dormitório do quartel àquela hora da
noite, resolveu ir procurar por Alexander.

Enquanto nosso amigo caminhava para a casa de Alexander, Anna White maquinava seus planos em sua casa. Edward já havia bebido de seu sangue, agora ele sentiria vontade de servi-la inconscientemente. Mais tarde, quando seu amor fosse tanto que ele se mataria por ela, ela mesma o mataria, como havia feito com seu irmão. Assim sua vingança contra Charles Brisemont seria quase completa: haveria matado seus dois filhos mais velhos, só lhe faltaria o mais novo.

Ao chegar em residência de Alexander, Edward o encontrou a jogar dados com outro homem que reconheceu rapidamente: era Grimaud, aquele contra o qual havia lutado durante os testes. Os dois se levantaram e o cumprimentaram quando chegou à sala, conduzido pelo criado.
- Boa noite, Edward. Acho que conheces meu amigo Grimaud.
- Sim, já tive a honra. - falou, cumprimentando Grimaud
- Mas o que vieste fazer aqui?
- Preciso falar-te algo.
- Tudo bem. Espere um pouco que tenho um jogo a acabar com meu amigo.
Depois de algumas jogadas, Alexander se levantou e perguntou:
- Incomoda-te se ele ouvir nossa conversa?
- Não, ele pode até me ajudar.
- Então conta teu problema.
- Lembra-te daquela mulher que queria falar-me, que te disse ontem?
- Claramente.
- Muito bem. Fui falar-lhe, e estou desconfiando que a mulher seja uma bruxa. Acho que me enfeitiçou.
- Por que dizes isto?
- Sinto algo muito forte por ela, mais forte do que sinto por Clarice.
- E dizes que vistes ela pela primeira vez ontem?
- Sim.
- Então isto é provavelmente bruxaria. Amanhã iremos comunicar isto à Igreja. Queres mais alguma coisa, meu amigo?
- Sim, se for possível.
- Pode pedir.
- Preciso de abrigo por esta noite, pois não me será possível ir dormir no quartel a essa hora.
No outro dia, quando amanheceu, Edward sentiu que seus olhos se incomodavam com a luz do sol. Fechou a janela, mesmo achando aquilo muito estranho, pois ele desde criança gostava da companhia do sol e naquele dia a luz não estava tão forte pois era inverno e as nuvens acizentadas cobriam o céu.
À tarde, quando tiveram uma folga, Alexander chamou-o para irem à Igreja, denunciar a mulher. Mas ele recusou, dizendo que havia se enganado, que não sentia nada pela mulher. Estava mentindo: ele sabia que se denunciasse a mulher, ela seria provavelmente queimada viva, e não queria que isso acontecesse.

Naquela mesma tarde, foi ver a mulher, mas foi impedido pelo homem que estava na porta. Ele dizia que ela só poderia vê-lo à noite. Na mesma noite ele voltou à casa e foi falar com a mulher mas parecia que ela não estava lá, lhe disseram que ela foi jantar.
Edward ficou angustiado, não podia viver mais um dia sem ver a mulher. Começou a apresentar alguns sintomas de doença. Creditou isso à falta da mulher.
Passou a ficar de cama por muitos dias e, quando soube da notícia, Clarice vinha todos os dias vê-lo. Ela dizia que fora a outra mulher que havia feito isso a ele, que ele não merecia aquilo e ficava a se culpar. Ele sentiu muita pena da moça mas não acreditava nela.
Depois de algumas semanas doente, Edward sentiu que lhe faltavam forças. À noite, Anna veio lhe ver.
- Edward, tu não deves morrer.
- E não morrerei. - ele dizia isso apenas para os outros pois sabia que a doença iria vencê-lo
- Mas tu és tão moço ainda. - a mulher parecia que estava com pena dele
- Não te preocupes, eu sobreviverei.
- Não deixarei que esta doença o mate.
Fechou os olhos do rapaz, mordeu-o e tirou-lhe todo o sangue. Edward sentia toda sua vida lhe deixar. E, por mais que tentasse, não conseguia resistir.
- Desgraçada! - gritou e caiu
A mulher, dizia para si mesma que aquilo que iria lhe fazer seria ainda melhor vingança. Mordeu o próprio pulso e deu-lhe de beber seu sangue. Ao caírem as primeiras gotas, Edward sentia algo muito estranho, era como se a vida lhe voltasse, mas não exatamente como isso. Começou a beber o sangue da mulher, instintivamente. Se sentia dominado por alguma força maior.
Depois que Edward parecia satisfeito, alguém bateu à porta. A mulher ficou apavorada, tentou carregá-lo para pularem a janela. Mas a Besta tomava o rapaz, e com ela vinha sua força. Ao abrir a porta, uma figura deslumbrante lhe apareceu: era Clarice. Não pensou duas vezes, atacou-a. Assim, Anna fez com que Edward tirasse a vida daquela moça que ele amava realmente, não pelo Sangue mas pelo coração.
Levou-o para seu refúgio e o escondeu lá por algum tempo, dando-lhe para beber de algumas prostitutas que lá trabalhavam.
Depois de libertado pela sua Senhora, Edward notou que toda a sociedade havia o dado como morto. E o pior: ele realmente estava morto, havia se tornado um vampiro. Adotou o nome de seu irmão, que queria vingar e o sobrenome da mulher que havia lhe trazido para este novo mundo. Passou a apresentar-se como Conrad White e a andar pelos becos, pelas sombras, sempre se escondendo das outras pessoas. Não podia admitir o que havia lhe acontecido.

 

              
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