Bem-Vindo à Vida !

Preparada a caneca de café, senta-se à maquina de escrever. "Era uma vez..." Nada! Não, o começo assaz banal. Escreveria coisa mais moderna, modernosa. Seria vanguardista é isso! Mas escreveria sobre o que?
Levanta. Roda pela casa que é nada mais que um cubículo. Vai a varanda e olha os carros que se movimentam sem se movimentar no engarrafamento de tarde caindo. Mais uma vez o nada e o vazio. Café esfria. Pensa em algo que nem sequer se forma em pensamento: feto de idéia abortado.
Ah, profissão maldita!! O Livro estava quase pronto, faltavam alguns míseros contos, qualquer coisa que enchesse páginas... Mas nada saia! Mas porque? Escritor talentoso era, e consagrado. Alias não, consagrado apenas: talentoso se fosse escreveria, concluiria tão pesado fardo.
Literatura era prazer, sempre fora... Prazer masturbatório até! O prazer era maior em fazer coisas para que apenas ele lesse, formando assim uma auto-furnicação intelectual(oide). Ler texto de outros era bom, mas só para se inspirar. Ele era para si próprio o maior escritor do mundo, e agora não era mais que um analfabeto. Escrever para outros lhe dava o prazer de masturbar mulher que lhe atiçasse, não era prazer seu próprio, mas o prazer de dar prazer a outrem.
Mas agora nem mesmo escrevia, nem por auto deleite, nem para deleite alheio, nem mesmo tinha mais paciência para ler de outros. A inspiração lhe faltava enquanto a noite caia e a rua engarrafava de carros para depois se desengarrafar e tornar-se deserta. E nenhuma inspiração lhe vinha...
Droga!! Por quê, se talento lhe sobrava até um passado recente?!
Uma idéia começa a ser fecundada e fecunda no útero de sua cabeça, vai formar forma em pouco e não vai abortar não quando... Trrriiiimm!!!
Telefone! "Mas que merda!!" grita, grita com a dor da morte de um filho prematuro. Atende. Era ela. Ela que fazia sua voz amolecer, seu coração disparar para acalmar-se, e nada mais fazia sentido. Ele virava uma árvore feliz.
Chamava-o para sair, que a noite estava quente, mas lá fora era agradável e tinha festa em boate, e dançariam a noite toda e depois da noite o amor sempre deságua da casa dela, em cama deles dois. (esta ultima parte não falou, mas entende quem ama e tem tesão). Iria? Não iria, tinha que terminar de escrever, terminar o que nem começado tinha. "Não vou, fica para próxima", seco. "Tudo bem, seu trabalho é importante, tem de terminá-lo. Temos a vida toda pela frente pra sairmos, mas não vá se matar pelo seu livro...Beijos e tchau..!", com a melancolia compreensiva da face pseudo-egoística do amor ela desliga.
Tu, Tu, Tu, Tu.... Mas ele não. Um estalo havia se consumado em sua cabeça, e já nem pensava em escrever.
Morrer por um livro, não morreria. Mas e se deixasse de viver? A vida passava lá fora, carros quase lentos em pistas intransitáveis talvez fossem mais velozes e de corações mais retumbantes do que ele, e simplesmente porque carros não tinham livros a serem escritos. Escrever não era mais um prazer masturbatório, mas um suicídio lento e masoquista.
Ficava claro porque a inspiração não lhe chegava. Estava feliz como uma árvore, aquela felicidade que nem se sabe se tem, ou quando tem, ou mesmo que definição completa é essa de ser feliz. E A felicidade lhe gritava compreensiva ao telefone, lhe buzinava frenética na rua congestionada lentamente se esvaindo. Mas ele continuava num quarto e sala apertado tentando parir a fórceps uma obra qualquer que lhe fosse prazer, que fosse prazer aos outros. E lá fora a vida vivia, os carros buzinavam, alguém lhe amava e dançaria com ele toda a noite, e se misturariam num caldeirão de lençóis mais tarde, na madrugada silenciosa e tépida. E o telefone pendia languido entre sua mão morta e sua orelha já surda ao mundo enquanto seu mundo se desfraldava no próprio conto de sua vida, onde era ele mesmo autor e personagem, numa metalinguagem cósmica. Mas poderia
ele não ser feliz como árvores? Ou como carros?! Poderia... a felicidade de gente que vive e ama e beija e não é árvore estava lá fora o tempo todo, lhe chamou ao telefone e não ouviu, estava ela a gritar para que deixa-se para lá essa estória de escrever. Alguma hora a felicidade e o amor, de ser feliz e de amar se acabam, e viria a tristeza, e com ela toda a inspiração que precisava. Ao mesmo se fosse feliz como tigres e não como vegetal
idéias nasceriam explodindo forte em sua cabeça, e poderia escrever o que quisesse, mas só na hora exata de parir...
Sua cara se abobalhava como a de um peixe morto até que nota que era tempo de viver, que escrever ficasse para depois. Tinha todo o tempo do mundo para escrever, mas parar viver e para não morrer só tinha esse que é cada segundo de sua vida. Sacode a cabeça, bate o telefone no gancho. Estava livre! Não iria escrever agora, mas não faria isso para que a inspiração viesse depois, mas sim para que não viesse nunca. Chega desse prazer em se torturar! Não escreveria agora para não escrever nunca mais... Estava livre. Estava livre? Não ainda, a maquina de escrever ainda o olhava com o olhar de rédeas de animal de tração. Agarra a maquina com a força de arrancar grilhões, e arremessa-a pela janela... e ouve, ouve apenas sem olhar e com estonteante alegria calma e explosiva o som do aparelho se estrebuchando no chão da rua! Estava livre, e lá, não muito além dos muros, um mundo com engarrafamento, mulher, boate, e transa e tigres e árvores gritava para que ele vivesse. Ele acaba por acatar o chamado necessário: pega as chaves, sai de casa, bate a porta para trancar a cela em que estava e desce escadas correndo. "Bem vindo a vida!", era o que tudo lhe sussurrava!

 

              
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