Reforma Íntima
O
mal subsiste em nós e entre nós, a despeito das luzes que, do Alto, se
derramam incessantemente sobre a Humanidade desde os seus primórdios. A condição
humana ainda abriga reações animais, em que os instintos ancestrais de defesa
do espaço, da fêmea, da prole, do alimento, da vida emergem das camadas
profundas do nosso inconsciente. Instintos que vimos transformando desde que
passamos da fase animal para a fase racional, do início da nossa consciência,
ha milhões de anos, através do aprendizado das reencarnações. O que, hoje,
ainda subsiste na raça humana desses instintos é terrivelmente prejudicial à
convivência humana pelos dolorosos conflitos que gera.
As
predisposições para o bem ou para o mal, isto é, a disposição de agirmos
num ou noutro sentido vem do nosso Espírito, representando o conteúdo da nossa
evolução.
Esse conteúdo alberga vestígios instintivos que afloram na consciência sob
formas refinadas entre muitas outras, do egoísmo, do orgulho e da vaidade
-exaltações geradas pelo nosso ego inferrior - os quais são verdadeiros cânceres
arrasadores da paz e deles procede a grande maioria das imperfeições nefastas
que infelicitam cada vez mais os homens, os povos do nosso tempo.
Essas
predisposições desorganizam nossas emoções, provocam perturbações no nosso
plano mental e povoam a nossa alma de pensamentos negativos contra o próximo,
veneno mortal para a nossa saúde física e psíquica, além de atraírem, por
sintonia, a presença de entidades malévolas que incentivam esses estados de ânimo
negativo e deles se nutrem estimuladas ainda pela atmosfera astral do nosso
planeta saturado de miasmas perniciosos que hoje ameaçam a convivência pacífica
fraterna e harmoniosa em todos os lugares.
Com
o advento do Consolador prometido pelo Mestre, que é a Doutrina Espírita,
derradeira bênção derramada pela Providência Divina, luminosa, desvendadora
dos mistérios e aflições que atormentavam a alma humana, foram relançadas,
revividas, pela Codificação Kardequiana, sob o amparo de Jesus, as bases
fundamentais do Evangelho Redentor para a renovação das almas através da sua
Lei do Amor aplicada na Reforma Íntima, permanente, incansável, de cada ser
humano, na realização do objetivo máximo de tornarmo-nos merecedores, pelo
nosso próprio esforço e mérito, de habitar o prometido mundo de regeneração
e paz, onde, conforme afirmação do Cristo, os brandos herdarão a Terra.
A
Reforma Íntima é um processo voluntário de transformação de nossa alma.
Essa transformação, que o ser humano se propõe a si mesmo, é uma transformação
moral. Trata-se de promover mudanças éticas no caráter, na conduta, nos
pensamentos, palavras e obras.
De acordo com o que a nossa Doutrina nos ensina, revivescência que é do
Cristianismo primitivo, o paradigma, o símbolo real, o Mestre em quem devemos
nos refletir no labor incessante da nossa mudança é o doce rabi da Galiléia,
Jesus de Nazaré. O Evangelho de Jesus é não só a pedra angular do Consolador
Prometido, da Doutrina dos Espíritos, mas a régua de medida, o referencial
universal com que aferiremos o nosso proceder, o nosso avanço ou o nosso recuo
no processo de espiritualização que nos propusermos: a visão real do que
somos no íntimo de nossa consciência e quão perto ou distante estejamos do
amado Mestre Jesus que nos exorta a nos amarmos uns aos outros como Ele nos
amou.
Jesus
buscou na sua vida de abnegação e sacrifícios ilimitados ensinar-nos o
caminho da nossa redenção, da nossa salvação pessoal: "Eu sou o
Caminho, a Verdade e a Vida". Ele viveu sempre os ensinos e conceitos
salvadores que deixou como legado redentor para a Humanidade. Embora fosse um
Espírito Excelso, viveu junto aos homens, lutando na vida humana com as mesmas
armas, sem privilégios especiais e sem recorrer a interferências extraterrenas
para eximir-se das angústias e das dores, inerentes à sua tarefa messiânica.
Seu programa na Terra estava e está destinado a salvar tanto o sábio quanto o
rico, tanto o iletrado quanto o pobre, por isso enfrentou as mesmas reações
que eram comuns a todos os homens, suportando as tendências instintivas e os
impulsos atávicos, próprios da condição humana.
O
Evangelho - manual da lei do amor de Deus - não é simplesmente um repositório
de máximas e advertências morais. Em verdade, o Evangelho, relatando a experiência
vivida integralmente por Jesus, em 33 anos de sua vida física, é para
demonstrar a todos o "caminho" da evolução indicado pelo Criador à
criatura, um tratado para orientar em qualquer época, qualquer tipo humano em
qualquer latitude terrestre.
A vida de Jesus, tão sublime e vivida sob a força do seu imenso amor por nós,
Governador que é deste Orbe, teve por norma fundamental viver e expor a Lei de
Deus. O Evangelho é a síntese de todos os ensinamentos que, respeitando o
livre-arbítrio individual, apresenta, para todas as épocas, normas de evoluir
ao alcance de todos os homens, independentemente de grau de inteligência, raça
ou condição social. É um processo doutrinário de moral que disciplina e
orienta qualquer ser humano. E está consubstanciado nos ensinos:
Amar
a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; só fazer ao próximo
o que queremos para nós mesmos; jamais fazer ao próximo o que não queremos
para nós mesmos.
Precisamos, enfim, da aplicação dos preceitos cristãos às nossas vidas,
pensamentos, palavras e obras, usando o nosso discernimento iluminado pelos
princípios da Doutrina Espírita e pela prece sincera e pura; direcionando o
nosso livre-arbítrio no caminho do bem e do amor ao próximo, expulsando de
nossa alma o orgulho, a vaidade, o egoísmo que armam o gatilho das derrotas
morais. Sigamos o Cristo e seremos vencedores.
Título:
Jesus, o Evangelho e a Reforma Íntima
Autor: RAPHAEL RIOS
Fonte: Revista "O Reformador" - Novembro de 1998