Pequeno histórico da Pena de Morte


     A pena de morte existe desde que o homem surgiu na Terra e se organizou em grupos. Ela serve para os fins mais diversos. A pena capital foi utilizada nos mais diversos graus e está registrada em diversos documentos desde a Antiguidade. Ela foi utilizada não só para punir criminosos, mas também para estabelecer a hegemonia política e religiosa. Fez parte também de rituais religiosos – entre os maias e os incas, por exemplo.

     Ao mesmo tempo em que o Pentateuco nos apresenta os Dez Mandamentos, onde se diz “Não Matarás”, o homem manda matar o ladrão e o adúltero. O profeta Elias utilizou a pena de morte para punir os sacerdotes de Baal, que o desafiaram a provar a força de seu Deus. Jesus foi condenado à morte. Abraão esteve a ponto de matar seu filho, a pedido de Jeová.

     No mundo greco-romano, há casos célebres de execuções, como a de Sócrates, obrigado a beber veneno, e a de Júlio César, apunhalado até pelo filho adotivo Brutus. O Império Romano foi o responsável por milhares de mortes de cristãos nos primeiros quatro séculos após a vinda do Cristo. Quando a Igreja Católica se estabeleceu, começou uma caça aos hereges e supostos bruxos, em um processo cuja agonia atingiu uma remessa de livros espíritas para a cidade de Barcelona, na Espanha, em 1862. Este ato desesperado da Inquisição ficou registrado na história do Espiritismo como o “Auto-de-fé de Barcelona”.

     A França foi atingida por uma fúria revolucionária no final do século XVIII, atingindo desde a nobreza (incluindo os reis Luis XVI e Maria Antonieta) até os mais humildes, passando pelos líderes da Revolução Francesa, Danton e Robespierre, e o inventor do principal meio de execução da época, o dr. Guillotin.

     Na 2a Guerra Mundial, milhões de pessoas foram mortas em câmaras de gás, fuziladas ou simplesmente morreram de inanição ou doenças pelo simples fato de serem judias, homossexuais ou ciganas, entre outras coisas. E após a derrota da Alemanha, o tribunal de Nuremberg sentenciou vários desses assassinos à morte. Isso trouxe as vítimas de volta?

     No Brasil, o mais célebre condenado à morte, Tiradentes, foi alçado ao posto de herói nacional com o advento da República. Outros permanecem desconhecidos do grande público ou não são considerados dentro desta estatística. Em alguns casos, as pessoas foram classificadas como suicidas – é o caso do jornalista Wladmir Herzog, morto em 1975 –, vítimas de atropelamento ou foram enterradas em valas comuns durante o regime militar.

     Em muitos outros países, a pena de morte é comum e muitas vezes sumária, como nos países islâmicos, nos quais se adota o apedrejamento como forma de execução. Na maioria desses países, o regime é totalitário e não admite oposição. Mas há casos de povos ditos civilizados que adotam essa prática, como os Estados Unidos, onde foi executado há algumas semanas um deficiente mental. O Estado do Texas, onde o fato se deu, realizou até o final do ano 2000 o maior número de execuções desde 1930.

     Joana d’Arc, Santo Estevão, São Pedro, São Paulo, Giordano Bruno, além dos já citados, são alguns exemplos de vítimas célebres. O momento da morte foi, para quem assistiu à execução, revelador do caráter dos condenados. Enquanto Jesus pedia a Deus que nos perdoasse por que não sabíamos o que estávamos fazendo, Mussolini pedia clemência ao pelotão de fuzilamento.

     Além da punição autorizada por alguns governos, existem outras mais rápidas, implacáveis e, digamos, “informais”. Como exemplos, temos o Esquadrão da Morte, liderado pelo delegado Sérgio Fleury nos anos 70, a chacina da Candelária e o massacre no Pavilhão Nove do Carandiru.

Erro fatal
 


     A maioria das pessoas ignora que não se pode simplesmente executar um suspeito de cometer um crime sem provas. Quando se condena à cadeia alguém e depois descobrimos que ele é inocente, como foi o caso dos donos da Escola Base, acusados de praticar orgias com as crianças sob sua guarda, pode-se no mínimo oferecer uma compensação financeira pelo mal causado.

     Mas e quando o prisioneiro é executado e só depois se descobre sua inocência? Como reparar o erro? Indenizando sua família? Durante o Império, um fazendeiro foi acusado de matar toda uma família de colonos. Pela crueldade com que foi cometido o crime, ele foi alcunhado de “Fera de Macabu”. Após a sua execução, descobriu-se que a esposa do executado foi a mandante. Dom Pedro II ficou tão chocado que nunca mais autorizou uma execução.

     Devido a esse risco, os presos do corredor da morte nos Estados Unidos passam pelo menos dez anos esperando que a sentença seja cumprida ou comutada em prisão perpétua, se forem culpados. O custo maior é causado pelas despesas judiciais, muito maiores se comparadas a de um preso que cumpre uma sentença de prisão. Isso se deve, principalmente, ao risco de um erro judicial, como foi o caso da “Fera de Macabu”. Por isso, um preso condenado à morte custa mais caro que um outro sob prisão perpétua nas sociedades democráticas.

     Entretanto, a demora na execução da sentença pode ser avaliada como uma espécie de tortura psicológica aplicada aos presos, equivalente à roleta-russa. Chegará um momento em que a brincadeira irá cessar ou a única bala do tambor irá finalmente cumprir sua função.



Qual é o perfil psicológico de um serial killer?
 


    
As crônicas policiais brasileiras falam de um criminoso peculiar, uma espécie de “Jack, o estripador” tupiniquim. Chico Picadinho, como ficou conhecido, foi preso por matar e esquartejar prostitutas nos anos 60. Após dez anos de bom comportamento, ele obteve uma condicional e até se casou após sair da prisão. Mas não conseguiu se conter e cometeu crime semelhante. Até que ponto seu comportamento foi estudado? Com que frieza ele se preparou para cometer o crime que finalmente pôs fim à sua “carreira”?

    
A frase retirada de O Silêncio dos Inocentes indica um argumento pela manutenção da vida de prisioneiros como esses. Algumas pessoas podem perguntar: por que eu deveria poupar pessoas que causaram tanto sofrimento (e que podem voltar a causar), enquanto suas vítimas estão no plano espiritual e suas famílias sofrem com a ausência dos entes queridos?

    
Estudando o “Maníaco do Parque”, por exemplo, podemos descobrir como identificar perfis semelhantes ao dele precocemente e providenciar tratamento psiquiátrico, para que essas pessoas não cometam crimes como o motoboy Francisco de Assis Bezerra. Também temos a oportunidade de estudar casos semelhantes ao do estudante de medicina que causou um massacre no cinema do Shopping Morumbi, em 1999.



Crueldade e Pena de Morte   


     Segundo o autor do livro O que é Pena de Morte, esse tipo de punição tem duas funções: a de satisfazer um sentimento de vingança e cumprir um papel de intimidação. A pena capital tem um paradoxo, identificado pelo autor: quanto menor é a agonia do prisioneiro, menor é o apoio a tal tipo de punição. Segundo Carvalho Filho, as pessoas que apóiam tal medida apreciam-na justamente pelo sofrimento que causa ao condenado. Medidas e técnicas criadas para minimizar esse sofrimento, como a guilhotina e a injeção letal, são malvistas.

     Segundo o Código Penal iraniano, país que ainda adota a lapidação como forma de execução, “as pedras não devem ser tão grandes de modo a provocar a morte pelo golpe de apenas uma ou duas delas, nem tão pequenas que não possam ser chamadas de pedras...” (O que é Pena de Morte, pág. 37).

     São utilizados também os fuzilamentos, a forca, a cadeira elétrica, a câmara de gás, a decapitação por sabre e até mesmo a crucificação como meios de eliminar o criminoso. Alguns desses meios são considerados “humanitários” como forma de execução. Senão vejamos: na cadeira elétrica “os olhos (do condenado) saltam para fora, o condenado defeca, vomita sangue... a cadeira elétrica provoca um odor de carne queimada. Na câmara de gás, o prisioneiro baba, sua pele fica roxa, transmite aos expectadores a sensação de estrangulamento”. (O que é Pena de Morte, pág. 48).



A função política da pena capital  


     O Estado transforma-se em assassino de criminosos em nome da “justiça”. Mas a definição de crime pode variar de um país para outro. No Ocidente, faz-se uma revisão para retirar o adultério do Código Penal; em outros países, ainda é passível de ser punido com a morte. Nas regiões mais “civilizadas”, onde essa pena continua fazendo parte do cotidiano, somente serial killers e terroristas podem ser condenados. Mas há uma terceira categoria: o crime político.

     O seu uso em regimes autoritários tem a intenção de atemorizar a oposição ou, se o país não tiver medo da pressão internacional, simplesmente eliminar os adversários políticos. Durante a Guerra Fria, pipocaram por todo o planeta ditaduras de esquerda e de direita que não admitiam oposição alguma. Brasil, Chile, Argentina, Vietnã, Cuba, a ex-Alemanha Oriental foram lançados nesse turbilhão. Dezenas de milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas, exiladas ou mortas até o início da década de 90. Proliferaram os cemitérios clandestinos, como o de Perus, em São Paulo, e as famílias dos mortos convivem há décadas com a incerteza sobre o destino de seus entes queridos.

     O escritor indiano Salman Rushdie foi condenado à morte por um tribunal xiita, por ter supostamente ofendido Maomé em seu livro Versos Satânicos, tendo que se manter escondido por vários anos.



A visão espírita da pena de morte  


     É muito simples dizer que o Espiritismo é contra a pena de morte. Mas é preciso que saibamos quais argumentos a Doutrina oferece. Muitos desses argumentos são usados também por não-espíritas, como o respeito fundamental à vida e o fato da pena capital não amedrontar os criminosos em suas práticas.

     As questões 760 a 765 de O Livro dos Espíritos tratam do tema. Na resposta da 760, por exemplo, declara que “sua supressão assinalará um progresso da Humanidade. Quando os homens forem mais esclarecidos, a pena de morte será completamente abolida da Terra”. Mas lamenta o fato dessa época estar muito longe de nós. Temos muito trabalho até alcançarmos esse objetivo.

     Em apoio à tese de que a prática da pena de morte não diminui os índices de criminalidade (muito pelo contrário), Rodolfo Konder, em seu livro Anistia Internacional, uma porta para o futuro, cita os casos da Flórida e da Geórgia. Os dois estados norte-americanos são os campeões de execuções desde 1979. Neles, o índice de homicídios aumentou no período imediatamente posterior à retomada da pena capital. Segundo o autor, “a explicação é evidente: se o Estado, poder supremo, símbolo freudiano da autoridade, pode recorrer a esta forma de extrema de violência para ‘fazer justiça’, por que as pessoas no âmbito particular de suas vidas não podem fazer a mesma coisa”?

     Não podemos descartar a possibilidade de um surto obsessivo ter ajudado a aumentar a criminalidade nas regiões citadas pelo jornalista. Além do raciocínio feito acima, o Espiritismo alerta para a influência que os espíritos dos condenados, revoltados pela punição sofrida, podem exercer sobre pessoas violentas ou com tendências criminosas. Na Revista Espírita de 1866 (pág. 277), um prisioneiro prestes a ser executado faz um discurso sobre a inutilidade da aplicação de tal pena como meio de coibir o ato criminoso, lembrando justamente que há vida após a morte. Em sua prédica, a pessoa declarou não ter consciência de ter cometido o crime pelo qual ele foi condenado. O mesmo ocorreu com o deficiente mental executado em 16/11/2000 no Estado do Texas, EUA.

     No capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Fénelon discorre acerca da longevidade do homem mau comparado à do homem de bem. Ele salienta que é muito mais produtivo para o primeiro ter uma vida longa, pois terá oportunidade de refletir sobre sua vida e, eventualmente, arrepender-se. Isso abre caminho para que possa se redimir, ao passo que um jovem criminoso condenado à morte poderá desencarnar revoltado e, como foi citado acima, influenciar outros criminosos.



  Autor: Edgar Massaki Egawa

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