MEDO DA MORTE

“(...) A morte o assusta, porque ele duvida do futuro e porque tem de deixar no mundo todas as sua afeições e esperanças.” Allan Kardec (Nota à questão 941 de “O Livro dos Espíritos” – FEB)

 

POR QUE AS PESSOAS TÊM MEDO DA MORTE

 

    A resposta a essa pergunta é verdadeiramente plural porque cada pessoa apresenta, quando questionada a respeito, uma justificativa diferente: muitos não conseguem imaginar dizem — o tormento que há de ser ficar enterrado! A simples referência dessa possibilidade sufoca-os. Alguns comentam o desconforto que por certo há de vir quando os vermes iniciarem seu trabalho profilático no eterno ciclo da vida. Outros dizem jamais ter pensado no assunto. E existe a enorme  parcela daqueles que se­quer admitem discutir o tema.

A recusa, talvez.inconsciente na maioria dos casos, em refletir sobre a realidade da morte, justificada pelas mais estapafúrdias desculpas, não se escora de fato tio medo. E o desconhecimento da vida espiritual que inibe os indivíduos de alçar vôos mais altos em direção a tais considerações. Até mesmo porque é provável que minam as impositivas trans­formações daí então decorrentes. E isso os constrange porque não se sentem fortalecidos nem possuem as necessárias convicções para proceder a quaisquer trans­formações. Então se acomodam.

Um ângulo talvez não focado sobre o assunto é o fato de que o desconhecido nos intimida. No rol das motivações que a maioria apresenta não se identifica, com facilidade, o argumento de que seu medo se ampara no fato de desconhecerem o que será encontrado na outra dimensão. E a ausência desse argumento revela a total ignorância  quanto aos desdobramentos que a simples reflexão sobre a morte pode apresentar.

    A postura normal dos indivíduos sempre que faceam a realidade do decesso — e isso, via de regra, apenas ocorre quando mor­re alguém do seu círculo de relações pessoais — é: 1) a de ressaltar as qualidades (algumas, inverossímeis) do finado; 2) recitar sua inconformação diante do quadro, manifestando seu pesar por tão prematura perda; 3) entregar-se a um sensível desespero, com evidentes mostras de desequilíbrio, que talvez esteja refletindo seu pavor ante a constatação da inevitável realidade que um dia o alcançará; ou 4) aparente submissão, com palavras consoladoras aos familiares, como se fosse uma fortaleza para o embate do momento.

Decerto não pretendemos minimizar a morte. Evidente que os envolvidos sentimentalmente com o falecido melhor avaliarão a per­da mensurando o peso da sua ausência no cenário cotidiano. Mas, não estaria a morte — como tantos outros quadros com que nos defrontamos na vida — apresentando-nos o ambiente ideal para as reflexões mais profundas, e sempre oportunas, sobre o andamento de nossas ações e, além, evidenciando que temos ainda a possibilidade de, com essa revisão, modificar alguns de nossos comportamentos?

 

MORRER É DAR UM SALTO NO ESCURO

 

Lemos, há alguns anos,  em um matutino carioca, breve artigo de um médico que afirmava, baseado em pesquisas,que morrer era como dar um salto no escuro. Ainda que não nos tenha sido possível recuperar a publicação, a opinião do autor firmava-se, evidentemente,no desconhecido que representa a morte para os que aqui ficam aguardando a vez. E é provável que a maioria das pessoas assim creiam. Também outro artigo publicado em “O Globo” de 05/11/83,que nos dá notícia sobre um seminário\organizado pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP), conclui que “tanto para os leigos quanto para os pesquisadores de grande bagagem cultural, a morte é basicamente o desconhecido”. Entretanto, todos aqueles que se tenham preocupado, em algum momento, com a continuidade da vida sabem, de alguma forma, que a morte é uma grande utopia. Nem mesmo o corpo físico ela alcança.

Lavoisier (1743-1794), químico francês, autor da célebre afirmativa de que na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, ensejou-nos a reflexão de que tal axioma também se aplica ao corpo físico após o fenômeno da morte. Enquanto parentes e amigos choram  a ausência do “morto” e o finado prossegue, na outra dimensão, trabalhando sua evolução, que acontece no interior do túmulo? Simplesmente a transformação. A vida microintrabacteriana que todos trazemos latente no transcurso da vida de relação liberta-se logo após o resfriamento do corpo físico.

A desagregação molecular ganha livre impulso porque,liberto dos liames do perispírito (cujas ligações com o corpo físico lhe garantiam, além da nutrição, seu aquecimento) o corpo cede à ação dos germes que, agora, se tomam uma realidade patente, passando a nutrir-se do “morto”. E um novo ciclo-processo de liberação de energia. Não há perda, e sim transformação.

Nas páginas de “O Consola­dor” (FEB), Emmanuel dedica-nos espaço considerável em profícuo comentário  sobre a “transição”. Na questão 147, ante a pergunta se a morte causaria inesperadas modificações na condição do indivíduo, o Mentor esclarece: “A morte não prodigaliza estados miraculosos para a nossa consciência. Desencarnar é mudar de plano, como alguém que se transferisse de uma cidade para outra, aí no inundo. sem que o fato lhe altere as enfermidades ou as virtudes Com a simples modificação dos aspectos exteriores.

Como se percebe, a colocação sugere amplas considerações para aqueles que acreditam que a mor­te elimina os estados de sofrimento, de dor, depressão, cansaço ou angústia de quem quer que seja. Sempre que perguntamos sobre o estado de saúde de alguém que soubemos doente, em condição crítica, recolhemos, às vezes, a resposta: “ — Morreu. Descansou! ‘. Porém, como vimos com Emmanuel, muito se ilude quem acredita que a morte representa descanso ou cura automática para o que nos insidia.

Se há descanso é, antes, para os que cuidavam do enfermo, por­que este despertará, na Dimensão da Verdade, ainda em condição lastimável, pois somente assim poderá ele entender a assertiva preferida pelo Senhor, há dezenove séculos, de que a cada um é dado segundo seu merecimento. Assim, o nosso mofo, muito vivo no além, poderá refletir, agora distanciado das injunções do mundo onde se crê que a matéria  é a maior realidade, sobre o quanto lhe pesam no psiquismo as horas de ócio, as intemperanças, os excessos, revisitando todos os atos falhos de sua última passagem pela carne.  
    Nesse sentido, a morte é, de fato, um salto no escuro. A surpresa em face da realidade — o prosseguimento da vida após os umbrais interpostos pelo decesso — é como se fora nossa passagem, repentina, de uma sala muito iluminada para um lugar totalmente escuro, do qual desconhecêssemos qualquer detalhe.

 

OS ESPÍRITAS TÊM MEDO DA MORTE?

 

    Ignoramos se existe estatística nesse sentido. Por isso não se pode negar ou confirmar a hipótese. Ainda assim conhecemos confrades e confreiras que, não obstante o manancial de informações absorvidas da Codificação sobre o tema, são, digamos, receosos quanto à morte e preferem mesmo não tecer comentários a respeito ou sequer participar de tais estudos.

Semelhante comportamento caracteriza um contra-senso: não se pode conceber que haja pessoas que, teoricamente, esclareçam e reconfortem seus semelhantes diante do quadro da separação momentânea, e sintam mal-estar ante a lembrança de que também serão alcançadas pelo mesmo transe.

A questão 155 de “O Consola­dor” traduz significativa indagação: “O receio da morte revela falta de evolução espiritual? Ao que responde Emmanuel:

“ - Nesse sentido, não podemos generalizarr semelhante definição. (...) não é justo que o crente sincero se encha de pavores ante a idéia de sua passagem para o plano invisível aos olhos humanos, sendo oportuno o conselho de uma preparação permanente do homem para a vida nova que a morte lhe apresentará.” (Destacamos). Infere-se que o conhecimento da vida espiritual não significa evolução e também não auxilia, necessariamente, o homem a não temer ou aceitar e compreender semelhante transição.

       O convencimento – única via que poderá abalar os alicerces do medo – dar-se-á a tempo certo, gradual, na medida em que o profitente espírita converta-se num estudioso  a ponto de conceber, intimamente, o desdobramento da Evolução, que tem muitas capas, na existência humana. Será pelo estudo que, motu próprio,  terminaremos por eliminar os vãos receios e aguardar, sem quaisquer preocupações dessa natureza, o nosso momento.

        Ao espiritista não estão reservadas condições especiais, é bom que saibamos. Inserimo-nos na leira comum e precisamos, tanto quanto os demais companheiros de jornada terrena que seguem despreocupados de quaisquer re­flexões de natureza espiritual, trabalhar nosso progresso e assim tentar garantir lugar na fila dos solicitantes de oportunidades melhores, já que temer ou não a mor­te não representa, em absoluto, evolução espiritual.

 

QUE É (COMO É) MORRER?

 

    Em ‘O Livro dos  Espíritos” (FEB) ,questão 68, somos informados de que o que causa a morte natural dos seres orgânicos é o esgotamento dos órgãos. Não é difícil compreender que o colapso dos órgãos pode ser também causado pelas nossas in­continências. Percebendo a importância da oportunidade para lançar luz sobre o modus operarandi da volta do Espírito ao seu lugar de origem, Kardec obsequia-nos com o capítulo III (op. cit.), onde os Espíritos comentam quanto à condição da alma após a morte e a separação da alma e do corpo. li o tranqüilizante que faltava.

   Após percuciente análise desse breve capítulo, qualquer pessoa se sente reconfortada e compreende que diariamente -todas as vezes em que se deita para o re­pouso físico— treina a Vida após a vida. E como se fora um sonho. Quantas vezes nos vemos em situações agradáveis ou desconfortáveis e que são descontinuadas pelo despertamento? Se era algum envolvimento desagradável o acordar representa um alívio.

Tanto quanto o renascimento na carne, a morte também nos lança, de forma traumática, em nova realidade. Inexistisse o trauma, a criança não choraria ao nascer. Os traumas maiores são provavelmente causados: 1) pelo apartar-se do aconchego da bolsa com o líquido amniótico e, 2) devido ao distanciamento com a intimidade do plano espiritual. Ainda que renasça sob a proteção de Amigos de Mais Alto e garantida a presença dos Espíritos simpáticos que o guardarão, o recém-lançado à densidade do novo plano terminará por esquecer e ignorar aquelas ligações. Quando chegar o momento do retomo o trauma se repetirá, daí a perturbação, tão comum, para o recém-desencarnado.

Oportuno compêndio para esclarecer a quantos interessados no assunto é o livro “A Crise da Mor­te” (FEB) do cientista italiano Ernesto Bozzano (1862-1943), cujo texto foi traduzido em 1930 por Guillon Ribeiro. Relatando os desdobramentos de 17 casos de desencarnação, o autor transfere-nos excelente material para reflexão além da possibilidade de antevermos o cenário espiritual de cada desencarnante conforme as revelações apresentadas.

 

DEIXAR QUE OS MORTOS ENTERREM SEUS MORTOS

 

    A referência de Jesus a “deixar que os mortos enterrem seus mortos” representa claro aviso para que não nos debrucemos desesperados sobre o esquife ante o quadro da morte. Consciente de que a morte é uma utopia e de que o nosso ente querido se transferiu para outro cenário e, mais, de que em breve nos reencontraremos, não há por­que valorizar com morbidez a separação material. Comedimento e respeito sim. Desequilíbrio e instabilidade emocional, que acarretam sensíveis prejuízos à nossa economia, além de afetar a recuperação do recém-desencarnado devem ser evitados.

    Com muito mais eficiência e benefício para o desencarnado realizarão seu funeral aqueles que emocionalmente estiverem menos  comprometidos com ele. Já o s familiares e amigos mais próximos tenderão a lamentar seu passamento. facilmente raiando ao desespero, atitude que será muito prejudicial a todos os envolvidos no quadro doloroso. Não por acaso o Senhor é o Médico das Almas por excelência. Com tal exortação ele condena o destempero e, assim, evita o mal-estar pernicioso ao nosso organismo.

Ao dizer que se deixasse aos mortos (do sentimento) enterrar seus mortos, o Senhor visava à preservação de todos. Ele sabia que nós, ignorando a realidade da vida espiritual, tenderíamos a complicar uma situação comum.

    A Codificação Kardequiana, conformada nas orientações evangélicas, revestida de vero  espírito cristão, indica-nos o comporta­mento seguro e tem atestado, no transcorrer do tempo, com inquestionável série de recados vindos da Dimensão da Verdade, que o que vemos baixar ao túmulo é o corpo do qual se travestiu a Individualidade imortal. Do Outro Lado, aqueles que foram objeto  do nosso afeto prosseguissem, vivos. em novas experiências, aguardando o momento de recepcionar-nos para a retomada dos laços de fraternidade e amizade irrestritas e que o tempo nao consumirá, ja­mais.

Como lembra Joanna de Ângelis:”Morrer é transformar-se molecularmente, abandonar o pesa­do envoltório material para movimentar-se em diferente faixa vibratória.

A morte é apenas o passaporte para a vida. “*

 

*      FRANCO, Divaldo P. Oferenda pág.17 , 3ª edição, Livraria Espírita Alvorada —Editora. Salvador (BA).

(Revista “Reformador” – abril de 1998)

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