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Entrevista Folhateen
Num fen�meno que n�o acontecia desde Ra� e Caio, Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kak�, traz a aten��o da classe m�dia ao futebol.
"Namoraria a Sandy, dependendo da situa��o. Acho ela bonitinha. Mas n�o sou um cara muito namorador..."
Na porta de seu quarto ainda est� pendurada uma plaqueta que diz: "Crian�a feliz tem Jesus no cora��o". Mas Cac�, 18, ou Kak�, como gosta de ser chamado o mais novo �dolo do futebol do S�o Paulo, j� n�o se enquadra na mensagem faz tempo, apesar dos poucos p�los que exibe nas pernas de artilheiro.
Kak� ainda guarda um jeit�o de menino, � t�mido, fala pouco, aparenta ter uns 15 anos de idade. Tem uma tranquilidade que muito marmanjo n�o adquire nem depois dos 35. Segundo ele, grande parte dela vem de sua f� evang�lica. Ele tem um perfil diferente do da maioria dos futebolistas. Cac� faz parte de um seleto grupo de jogadores que n�o t�m o esporte como �nico meio de ascens�o social. O futebol, para ele, foi uma op��o, e n�o um meio de fugir da pobreza, como acontece com grande parte dos esportistas.
Classe m�dia
Kak� � bem-nascido. Entrou no S�o Paulo como s�cio, ainda jovem, e ingressou nas categorias inferiores aos 12 anos. Estudou at� o ano passado, completou o segundo grau como manda o figurino e ainda pensa em fazer vestibular para educa��o f�sica "quando tiver mais tempo". Aos 18 anos, j� dirige seu pr�prio carro e ainda teve o sal�rio de jogador do time de juniores engordado para R$ 6 mil neste ano.
Mora com os pais, um engenheiro civil e uma professora, e o irm�o Rodrigo, 15, em um apartamento de classe m�dia no disputado bairro do Morumbi, em S�o Paulo, pertinho do est�dio onde virou her�i.
O boom aconteceu na final do Torneio Rio-S�o Paulo, no in�cio do m�s. Kak� marcou os dois gols que deram a seu time um t�tulo in�dito e virou xod� da torcida masculina tricolor e foco do ass�dio das garotas s�o-paulinas, que j� trataram de montar um f�-clube para o jogador (veja na p�g. 8). "J� ganhei tr�s bichinhos de pel�cia", revela, depois de exibir uma pasta onde guarda todas as cartas que recebe das f�s.
Apesar de toda a festa que passou a presenciar a sua volta, Kak� parece n�o estar deslumbrado. "Eu n�o mudei nada, foi a m�dia que mudou em rela��o a mim."
Kak� diz que se considera um jovem comum, mas a verdade � que n�o �. Primeiro porque, longe do estigma adolescente de rebeldia e contesta��o, � o t�pico bom mo�o, daqueles que muitas m�es almejam ter como genro. N�o bebe nem fuma, tem boa apar�ncia, sobriedade, disciplina e simpatia. "N�o gosto de aprontar muito nem gosto de pol�mica. Gosto de ser uma pessoa boa", diz. O segundo motivo ele mesmo explica: "Os jovens de hoje querem aventura e acabam fazendo coisas que n�o s�o muito legais. N�o se contentam muito com o que t�m". E voc� se contenta, Kak�? "Ah, � claro, gra�as a Deus." Nem tinha como ser diferente.
"Hoje sou uma pessoa tranq�ila e aprendi a superar problemas gra�as aos ensinamentos da B�blia", conta. Foi assim que ele encarou o acidente sofrido no in�cio de 2001, quando bateu a cabe�a no fundo de uma piscina, ao escorregar de um tobo�gua, e fraturou a sexta v�rtebra, tendo que passar dois meses sem saber ao certo se voltaria a jogar. Por pouco escapou de ficar parapl�gico. "Em nenhum momento me revoltei contra isso. A gente passa por muitas lutas, e o acidente s� acabou aumentando a minha f�."
Quando est� longe dos treinos do clube, o jogador passa o tempo jogando Winning Eleven 4 (um game de futebol do PlayStation) com seu irm�o e passeando em shoppings e parques. "N�o sou um cara que gosta muito de sair � noite", explica.
Mas o programa preferido de Kak� � ir � Igreja Renascer, na Vila Mariana, ou ficar em casa com a fam�lia, estudando a B�blia e orando. Colegas da igreja dizem at� mesmo que ele daria um bom pastor. "Se for escolhido por Deus para isso, serei muito feliz", assume.
"A religi�o � nosso fundamento. Jesus � o fundamento de tudo e estamos sempre buscando estar na presen�a e na vontade Dele", confirma a m�e, Simone.
A B�blia e os cultos da igreja despertam o interesse de Kak� mais do que tudo. Em mat�ria de m�sica, por exemplo, o jogador s� ouve can��es gospel, de prefer�ncia rock e pop.
� evidente numa r�pida conversa com ele que Deus est� em primeiro lugar em sua vida (veja quadro ao lado). Acima at� do futebol. A religi�o � parte integrante de qualquer discurso do jogador, e as refer�ncias a Deus pontuam a maioria de suas frases. "Acho que sou um bom jogador porque Deus quis assim e me aben�oou neste ramo", atribui ele. Seu trecho favorito da B�blia, aquele que carrega sempre consigo, � o vers�culo "Tudo posso naquilo que me fortalece".
Maria chuteira
E Kak� est� podendo mesmo � com as meninas. Muitos treinos do S�o Paulo ficam cheios de garotas que aguardam uma oportunidade para pedir aut�grafos (grafados com a letra "K") e bater um papo com o novo gal� na porta do centro de treinamento do time. Mas Kak�, que j� declarou n�o ser mais virgem, n�o parece muito preocupado com elas no momento.
"J� namorei algumas vezes, mas n�o sou um cara muito namorador", diz. D� para contar as namoradas em uma m�o, ent�o, Kak�? "N�o...(risos) Mas acho que em duas d�", brinca. De qualquer forma, o jogador canta a bola: "Estou solteiro".
Ele ainda treina entre os reservas do S�o Paulo, mas esta situa��o deve mudar em pouco tempo. O habilidoso meia Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kak�, de 19 anos, foi integrado ao elenco profissional no in�cio deste ano e, ao lado do atacante Renatinho, � a maior promessa do Tricolor para o in�cio de temporada. Humilde, Kak� acredita que ainda tem um caminho muito longo para percorrer antes de conquistar uma das onze camisas titulares do time de Vad�o. Ele d� muito valor ao bom momento que vive pois por pouco n�o teve de abandonar o futebol: em setembro do ano passado, o atleta fraturou uma v�rtebra em um tobo�gua, correndo o risco de ficar parapl�gico. Por sorte, o acidente o afastou dos campos por apenas 60 dias.
Quem � o Kak�? O Kak� � um garoto humilde, evang�lico, de 19 anos, que procura fazer somente as coisas da maneira certa.
Por que esse apelido? Porque quando o meu irm�o mais novo era pequeno, n�o conseguia falar Ricardo e me chamava de Cac�. A partir da� meus pais tamb�m come�aram a me chamar dessa maneira e Kak� acabou ficando.
Quais s�o suas caracter�sticas dentro de campo? Sou um jogador que gosta de estar sempre em movimento, procurando abrir espa�os para receber a bola.
Como foi o come�o da sua carreira? Aos sete anos comecei a jogar futebol de sal�o em Cuiab�. Pouco depois vim para S�o Paulo, onde entrei na equipe de campo do Tricolor na categoria dente-de-leite.
Voc� sempre foi titular nas categorias inferiores? Nem sempre. Algumas vezes fiquei no banco de reservas, mas a maior parte do tempo estive entre os jogadores titulares.
Voc� passou a ser conhecido pelas boas atua��es no decorrer das partidas contra Santos e Flamengo. Voc� esperava se tornar famoso t�o rapidamente? N�o. Mesmo porque s� voltei a jogar partidas oficiais no final do Campeonato Paulista Sub-20 e logo depois fui promovido para o elenco titular, quando pude disputar dois cl�ssicos.
Como foi marcar seu primeiro gol como profissional contra o Santos? Foi um momento de muita alegria e emo��o, j� que o jogo estava empatado, n�s t�nhamos um jogador a menos e eu pude entrar, marcar o gol, e ajudar a equipe a conquistar a vit�ria, superando o momento dif�cil.
Como voc� est� lidando com a fama e o prest�gio diante dos torcedores e da imprensa? Tenho vivido dias muito bons, mas tenho consci�ncia de que futebol � momento e tenho que aproveitar as oportunidades para n�o deixar a boa fase passar. Espero continuar entrando bem nas partidas para poder me firmar entre os titulares do S�o Paulo.
Voc� acha que j� est� pronto para ser titular? Ainda n�o. Eu acho que a postura do Vad�o, que vem colocando os garotos aos poucos, � a mais correta. O ritmo dos treinos � diferente dos jogos, mas estamos nos adaptando muito bem e vou me esfor�ar muito para jogar.
Conte um pouco sobre o acidente que sofreu. No dia 31 de setembro do ano passado, durante um final de semana em que n�o pude jogar pela equipe j�nior por estar suspenso, viajei para Caldas Novas (GO). Desci num tobo�gua e acabei batendo a cabe�a no fundo da piscina. Fui para o hospital e levei seis pontos na cabe�a, mas n�o houve qualquer preocupa��o com as minhas costas. Tanto que cheguei a participar de dois treinos na outra semana, quando reclamei das dores que sentia para os m�dicos do clube. Foi ent�o que descobriram uma fratura no processo espinhoso da sexta v�rtebra.
Como foi sua recupera��o? Os m�dicos afirmaram que me salvei por pouco. Fiquei 50 dias com um colete no pesco�o, tamb�m conhecido como colete cervical, e outros dez dias treinando para voltar a melhor forma f�sica e t�cnica. O risco de abandonar o futebol era muito grande.
Voc� acha que seu caso pode servir como exemplo para as pessoas que passam por dificuldades? Com certeza. Tudo acontece para que a gente aprenda e n�o repita os erros. Eu aprendi muito nos momentos dif�ceis que vivi, quando o time disputava competi��es important�ssimas e eu tinha que ficar de fora. Gra�as a Deus consegui superar minhas dificuldades e me encontro em um momento bom. As pessoas t�m que lutar at� encontrar o seu melhor momento.
Voc� costuma guardar os jornais que apresentam mat�rias suas? Sim. Tenho a maioria das reportagens guardadas em casa. � muito bom ser not�cia, mas procuro sempre estar com os p�s no ch�o, pois hoje posso estar em alta e amanh� j� estar em baixa.
Como � a rela��o com sua fam�lia? Posso dizer que minha fam�lia � realmente muito unida. A rela��o com meus pais e meu irm�o � muito boa e eles est�o curtindo esta fase comigo.
O que voc� acha do r�tulo de "Novos Menudos" que os jovens atletas do Tricolor - entre eles voc� - receberam? A gente fica entusiasmado, j� que os "Menudos" conquistaram importantes t�tulos (Campe�o Paulista em 1985 e Brasileiro em 86) pelo S�o Paulo. Por�m, os garotos que est�o subindo agora querem fazer sua pr�pria hist�ria e n�o � diferente comigo.
Quais s�o seus �dolos no futebol? Acho que �dolo � uma palavra muito forte. Prefiro falar dos exemplos que tenho dentro do esporte como o Ra� e o Zico.
Voc� concorda com as compara��es que fazem do seu futebol com o do Ra�? Muitas pessoas t�m falado dessa semelhan�a e isso demonstra que pelo menos alguma coisa tem a ver. Ser comparado com o maior �dolo da torcida s�o-paulina na d�cada de 90 � motivo de muita satisfa��o para mim.
Quais s�o seus sonhos? Ser um jogador profissional bem sucedido, que possa participar da conquista de campeonatos no S�o Paulo para depois ser negociado com uma equipe europ�ia. Participar da sele��o brasileira tamb�m faz parte dos meus sonhos.
Percebe-se que voc� � um jogador diferenciado dos outros culturalmente. Voc� ainda estuda? Infelizmente n�o tenho tido tempo para estudar, mas conclu� o segundo grau. O conhecimento � uma das poucas coisas que ningu�m pode tirar de voc�, ent�o temos que estar sempre dispostos a aprender.
Voc� pensa em fazer faculdade? No momento ainda � invi�vel, mas quero cursar Educa��o F�sica.
Que tipo de m�sica voc� costuma ouvir? Adoro m�sica gospel.
Quais s�o os lugares que vai quando sai? N�o sou de sair a noite, prefiro ficar em casa. Mas gosto muito de assistir a filmes no cinema.
A atual equipe do S�o Paulo tem condi��es de brigar pelo t�tulo do Rio-S�o Paulo, do Paulista e da Copa do Brasil? O S�o Paulo pode conquistar todos os torneios que disputar. Basta que todos no elenco estejam conscientes, em busca do mesmo objetivo, que disputaremos os t�tulos.
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