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A auto-an�lise de Kak�(23.05)
Ass�dio da m�dia e das f�s. Festas e eventos com patrocinadores. Cobran�a excessiva da torcida (e de si pr�prio). Apesar de rejeitar um psic�logo, ele faz, para Placar, uma in�dita sess�o de an�lise
por Arnaldo Ribeiro, da Ag�ncia Placar
S�O PAULO - Hoje em dia,eu s� leio isso. Dica de cinema, teatro, restaurante...", diz Kak�, folhando os guias de fim-de-semana da Folha de S. Paulo e do Estad�o. Foi assim que o badalado menino-prod�gio do S�o Paulo recebeu PLACAR para mais uma entrevista. Era uma sexta-feira, 4 de abril, dois dias depois de o S�o Paulo ter vencido o Gama por 5 x 1 � data em que o ex-t�cnico do Tricolor Oswaldo de Oliveira rompeu de vez com as torcidas organizadas do clube, que exigiam, aos palavr�es, sua sa�da; data em que todos os jogadores do time (menos ele, Kak�, que, machucado, n�o esteve no Morumbi) convocaram uma entrevista coletiva em sinal de apoio ao comandante.
Espere a�: o S�o Paulo fervendo no caldeir�o e o principal jogador do time distante em absolutamente todos os sentidos? Desd�m? Desleixo? Ego�smo? Nada disso. Kak� simplesmente estava convencido de que, com um estiramento muscular na coxa, nada poderia fazer, naquele momento, pelo time. A parada for�ada (mais de 30 dias sem jogar) depois de uma enxurrada de cr�ticas das mais variadas � duas experi�ncias novas para quem s� viveu no topo desde o in�cio de sua trajet�ria no time profissional, em 2001 � serviu para ele refletir. "Pensei em muita coisa. Foi excelente ter dado um tempo."
Um Kak� mais falante do que nunca e bem menos sorridente do que sempre afirmou que a principal conclus�o de noites e noites de cabe�a no travesseiro foi: "n�o desrespeitar, nunca mais, os limites." Limites, neste caso, no mais amplo sentido. F�sicos, t�cnicos, sociais, emocionais...
Limites f�sicos em primeiro lugar. Afinal, foi por n�o conhec�-los que Kak� estourou o m�sculo da coxa e n�o p�de disputar a decis�o do Campeonato Paulista deste ano. Desde que voltou da disputa do Torneio do Catar, com a Sele��o Sub-23, no in�cio do ano, Kak� (que praticamente n�o teve f�rias e n�o fez a pr�-temporada completa com os demais atletas s�o-paulinos) diz ter sentido dores em praticamente todos os m�sculos das duas pernas. "Joguei partidas, digamos, meia-boca porque eram todos jogos decisivos; contra a Portuguesa Santista (em Santos), S�o Raimundo (no Morumbi) e contra o Corinthians (o primeiro jogo da decis�o). Um dia antes da final, estourei de vez."
Kak� exime o departamento m�dico do S�o Paulo de culpa, mas decidiu agir de forma diferente daqui para frente. "Da pr�xima vez, quando sentir uma contus�o, vou parar at� me curar. N�o vou seguir em frente como fiz."
Limites t�cnicos, tamb�m. Kak� disse estar se sentindo pressionado, por ele mesmo, a decidir os jogos para o S�o Paulo. Por isso, passou a abusar demais das arrancadas individuais "em vez de fazer a jogada mais f�cil", prejudicando inclusive o time e irritando alguns companheiros � principalmente os que j� sentem ci�mes do seu sucesso, do seu sal�rio (um dos mais altos do elenco; 80 mil reais fixos, fora o direito de imagem, que praticamente dobra os vencimentos), do ass�dio que sofre das f�s e da pr�pria cartolagem fora dos gramados.
"Eu estava tomando muito para mim a responsabilidade de decidir, mas botei na cabe�a que n�o jogo sozinho; posso ser decisivo, mas assim como o Ricardinho, o Rog�rio, o Lu�s Fabiano..."
Oswaldo de Oliveira, ex-t�cnico do S�o Paulo e admirador de Kak�, diz que o jogador "� daqueles que n�o fogem da raia". "Isso tem um aspecto positivo, l�gico, mas tamb�m um negativo: ele sente um certo complexo de culpa nas derrotas e, por isso, uma das fun��es do meu trabalho sempre foi descarregar um pouco essa carga."
Limites sociais, claro. Kak� sempre procurou atender a todos, mas o ass�dio insano da m�dia (n�o s� a esportiva � chega a receber de 30 a 40 convites por m�s para participar de programas de televis�o diversos), dos f�s e de toda a sorte de parasitas que rondam o futebol tornou-se insuport�vel. "At� o fim do ano passado, eu recebia convites at� para apresentar baile de debutante. Eles chegavam por todos os lados. Saiu do controle."
O diagn�stico claro de todo esse quadro �: estresse. Da� a import�ncia da parada que o corpo lhe proporcionou. Curioso � que a coluna "Kak�: voc� n�o precisa decidir",segundo o pr�prio jogador, o ajudou muito nesse processo de reflex�o. Kak� leu o texto no site de PLACAR www.placar.com.br, pouco depois da decis�o do Paulista, contra o Corinthians. "Tirei bastante coisa dali, mas queria fazer uma ressalva: n�o preciso de psic�logo", disse, numa das poucas vezes em que exibiu seu sorriso caracter�stico.
No S�o Paulo, por�m, tem muita gente que pensa o contr�rio; que um div� s� faria bem a Kak�. O t�cnico Oswaldo de Oliveira � um deles. Quando chegou ao clube, no ano passado, ele se assustou com a sobrecarga di�ria de compromissos que Kak� enfrenta. "Isso acaba afetando o desempenho dele. Na volta do Kak� da Copa do Mundo, procuramos filtrar um pouco esse ass�dio. Mas a�, veio o Brasileiro: o Kak� jogou muito e a coisa retornou em progress�o geom�trica."
Outro que defende div� para Kak� � o supervisor Marco Aur�lio Cunha. "O psic�logo pode detectar problemas que n�s provavelmente nunca descobriremos. Aos 21 anos, o Kak�, apesar de um forma��o privilegiada, n�o tem condi��es de arcar com tudo."
O assunto � tratado com cuidado, mesmo porque psicologia ainda � um grande tabu no mundo de preconceitos que cerca o futebol. O atacante Lu�s Fabiano, outro �dolo s�o-paulino, s� que de temperamento explosivo, foi convencido a duras penas pela c�pula tricolor a procurar um terapeuta � e est� gostando da experi�ncia.
Apesar do esfor�o de Oswaldo e companhia, o pr�prio S�o Paulo, muitas vezes, contribui para o estresse de sua maior estrela. Recentemente, mesmo machucado, Kak� teve de bancar o garoto-propaganda do clube. Foi o escolhido para representar o time em Bras�lia no evento que marcou o engajamento do S�o Paulo na campanha "Fome Zero".
L�, entregou pessoalmente uma camisa ao presidente Lu�s In�cio Lula da Silva, que seria leiloada em prol da campanha. Dias depois, saiu de sua casa, � noite, para se encontrar com o filho de Muamar Kadafi, presidente da L�bia, que, convidado pelo S�o Paulo, trouxe seu time de futebol para um amistoso no Morumbi. Al-Saadi Kadafi s� se satisfez quando encontrou Kak�.
E o que os verdadeiros respons�veis pela imagem de Kak� pensam disso tudo? V�gner Ribeiro, seu empres�rio desde os prim�rdios, entende tamb�m que seu pupilo est� muito exposto. "Ele n�o deve mais, por exemplo, ficar aparecendo na TV toda hora. Por acaso, voc� v� o Ronaldinho (do Real Madrid) em mesa redonda? N�o podemos desgastar a imagem do Kak�. Ele n�o pode aparecer demais. Essa � a nossa estrat�gia." Arranhar a imagem n�o pode? E sugar as energias de um moleque de 21 anos? Pode?
Em todo o caso, Ribeiro e o pai de Kak�, Bosco, tiveram o cuidado de contratar a empresa de marketing esportivo Traffic para cuidar da marca Kak�; ou seja: de tudo o que envolve o jogador fora de campo. "Damos estrutura em todos os sentidos; amparo financeiro, jur�dico e pessoal. Tudo para que ele tenha paz e tranq�ilidade para jogar", afirma Kl�ber Leite, vice-presidente da Traffic, que desenvolve um trabalho semelhante com Ronaldo, do Real Madrid, e Robinho, do Santos.
Leite tamb�m diz que a empresa est� empenhada em preservar Kak�. "Recusamos recentemente 18 propostas comerciais. O Kak� s� estar� associado a empresas que t�m o perfil dele e interessadas numa rela��o duradoura." Atualmente, Kak� tem contrato com seis marcas: Adidas, Armani, Ambev, Tilibra e mais duas que est�o em fase final de entendimentos, Nestl� e Alpargatas (Rider).
"Vamos cortar os compromissos sociais dele tamb�m. Vai minguar a apari��o do Kak� em revistas e festas. Podem aguardar", afirma Leite. "O pessoal da Traffic est� disciplinando a minha imagem", diz o jogador, satisfeito. A associa��o Kak�-Traffic � vista com certo mau humor por boa parte dos dirigentes do S�o Paulo, que entendem que o excesso de compromissos comerciais do jogador tem atrapalhado seu desempenho em campo. Quanto a isso, Leite � claro: "Se eu fosse o S�o Paulo, ficaria feliz por ter algu�m cuidando t�o bem da minha maior possibilidade de gl�ria."
A empresa controla, de fato, todos os passos do �dolo. Se Kak� quer ir a um cinema, quem cuida de tudo � a Traffic, que compra os ingressos e d� um jeito do craque entrar em cima da hora, j� com as luzes apagadas, e sair assim que o The End aparecer, ainda no escuro. "S� fico ouvindo cochichos quando entro", diz Kak�.
A tietagem das f�s continua no mesmo ritmo, apesar de ele ter assumido seu primeiro namoro oficial com a bela morena Caroline Lyra, 15 anos, filha de Ros�ngela Lyra, executiva da Christian Dior na Am�rica Latina. "Quando eu estou com ela, as f�s seguram um pouco", diz Kak�, que curte a vida de popstar, mas, de vez em quando, lamenta a falta de privacidade e de liberdade para usufruir dos seus 21 anos.
"Outro dia, tinha uma festa que precisava ir; de uma pessoa querida. N�o era balada, nada, mas resolvi perguntar para o pessoal do S�o Paulo se deveria ir porque sabia que teria imprensa l�, essas coisas, e eu estava machucado. Eles disseram que sim. S� falaram para eu tomar algumas precau��es, como n�o ir para a pista de dan�a, por exemplo." Falaram para voc� n�o dan�ar, Kak�? "�. Depois eu fiquei pensando que eles tinham raz�o. Iriam falar: �jogar voc� n�o pode, mas dan�ar pode, n�?� Se tudo tivesse bem, ningu�m iria ligar, mas como n�o estava..."
Realmente n�o estava. Na verdade, pela primeira vez desde que surgiu para o futebol, Kak� passou a ser contestado, cobrado pelos torcedores, vaiado at�, acusado de "amarelar" nas partidas decisivas (na partida que eliminou o S�o Paulo da Copa do Brasil, diante do Goi�s, ele foi um dos principais alvos dos torcedores) � muito pela aus�ncia de t�tulos importantes que persegue o S�o Paulo. "Acho injusto tudo isso. O que eu mais gosto � de decis�o. N�o assumo essa carga. N�o me sinto pipoqueiro", afirma, mas com certa resigna��o. "At� que esta primeira fase ruim, se � que posso chamar de fase ruim, veio tarde. J� estou no meu terceiro ano como profissional." Para o supervisor Marco Aur�lio Cunha, "faltava isso para Kak� completar seu ciclo como atleta."
O fato � que Kak� resolveu encarar a desconfian�a moment�nea de frente. "Quero jogar fora, no Milan, Real Madrid, sei l�... Se eu n�o ag�entar essa press�o aqui, como vou me virar l� fora?"
A transfer�ncia para um grande clube do exterior, ali�s, est� mais em pauta do que nunca. Para seu empres�rio, V�gner Ribeiro, o momento de Kak� sair chegou: no meio deste ano, quando abre o mercado europeu � apesar de o meia ter contrato com o S�o Paulo at� o fim de 2004.
Segundo Ribeiro, o clube j� recebeu antes duas propostas oficiais pelo jogador: uma de 12,5 milh�es de d�lares do Brescia, da It�lia, e outra de 15 milh�es de d�lares do Bayer Leverkusen, da Alemanha. "Hoje, o Kak� tem sondagens do Milan e do Manchester. O presidente do Real Madrid tamb�m j� disse pessoalmente ao Kak� que queria ele no clube. O melhor para todos, inclusive para o S�o Paulo, � o Kak� sair agora."
O racioc�nio de Ribeiro � o seguinte: em janeiro de 2004, na reabertura do mercado europeu, s� os clubes m�dios, costumam contratar. Esse tipo de clube n�o interessa. Em julho de 2004, quando novamente as transfer�ncias estar�o liberadas, Ribeiro diz que Kak� n�o sair�. Afinal, restariam s� seis meses para o fim do seu contrato com o S�o Paulo e seria melhor esperar o fim do compromisso, para que o atleta negociasse sozinho sua transfer�ncia, sem ter que passar nada ao clube.
"Outro dia, estava olhando uma PLACAR em que apare�o na capa (edi��o 1206, de novembro/2001) e reparando nos dez objetivos que tracei no in�cio da minha carreira", diz o craque. � �poca, ap�s ter sofrido um acidente na piscina, Kak� se prop�s, entre outras coisas, a virar profissional e titular do S�o Paulo, jogar o Mundial Sub-20, ser convocado para a Sele��o principal e disputar a Copa. Cumpriu quase todos. "S� falta o �ltimo: jogar num grande clube europeu."
Met�dico, ele j� preparou uma nova listinha de metas, agora bem mais curta: 1) virar titular da Sele��o e disputar a Copa das Confedera��es, na Fran�a; 2) jogar e vencer a Olimp�ada de Atenas; 3) ganhar um t�tulo importante pelo S�o Paulo antes de ir para o exterior. "Vou dar a minha vida para me despedir do clube com uma conquista importante." Resta saber se os corneteiros de plant�o v�o permitir, Kak�. At� a pr�xima sess�o!
Bastou uma contus�o daquelas bem banais � uma contratura na coxa � para que todo o trabalho de fortalecimento que Kak� vem fazendo desde 2001 fosse posto em xeque. Em dois anos, o jogador se transformou em um "touro": passou de 71 quilos para 82 � desses 11 quilos a mais, 10 s�o pura massa muscular.
O SuperKak� ag�enta?
Em campo, o "SuperKak�" vinha atropelando os advers�rios. Mas a� veio a les�o e, com ela, as d�vidas. Kak� est� mais exposto a contus�es? Corre o risco de ter um problema mais grave, tipo ruptura de tend�o do joelho, pela massa adquirida?
Para apimentar a discuss�o, um elemento curioso: a Revista Oficial do S�o Paulo, que na edi��o 115, lan�ada pouco antes de Kak� se machucar, traz a manchete "SuperKak�: mais m�sculos, mais for�a, mais explos�o." Na reportagem, o fisiologista Tur�bio Leite de Barros, respons�vel pelo programa de fortalecimento de Kak�, o preparador f�sico F�bio Mahseredijan e o fisioterapeuta Ricardo Sasaki (todos do S�o Paulo) falam sobre o tratamento � mas n�o exatamente na mesma l�ngua.
Ao comentar os riscos que o atleta corre no caso de um programa mal planejado, Mahseredijan diz: "o risco � o desequil�brio muscular. A� voc� come�a a ter les�es de adutores ou de posteriores da coxa." Para azar dele, Kak� teve exatamente esse tipo de les�o. "Outro risco que se pode ter, mas n�o � consenso cient�fico, � o tipo de contus�o do Ronaldo". Para sorte dele, Kak� n�o teve nada no joelho. O preparador f�sico tamb�m diz acreditar que Kak� possa ganhar ainda "um ou dois quilos de massa", enquanto o Sasaki afirma que ele chegou ao limite: "Se passar disso, come�ar� a se sentir pesado."
Irritado, Tur�bio emitiu nota oficial. "O problema muscular que Kak� teve n�o tem rela��o com o trabalho de fortalecimento. Pelo contr�rio, o fortalecimento muscular previne as les�es. (...) Kak� n�o teve f�rias, n�o fez pr�-temporada, foi um dos atletas que mais partidas disputaram em 2002. O problema muscular � conseq��ncia �bvia desta grande sobrecarga."
Kak�, amigo pessoal de Tur�bio (o irm�o dele, Dig�o, � namorado da filha do fisiologista), disse que assina embaixo. "Eu confio neles. Ali�s, todos estavam elogiando o meu trabalho de fortalecimento at� eu sofrer essa contus�o comum. Diego e Gil tamb�m tiveram les�es musculares e ningu�m falou nada."
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