Gays masculinos nas tramas - discretos e afetados
    Se no setor feminino, o homossexual aparece sempre em dupla (a exce��o foi a Vieira, da novela A Indomada, de 1997, do autor Aguinaldo Silva, que no come�o insinuava um romance com Zenilda - Renata Sorrah, mas que quando esta partiu para um romance com o casado Pedro Afonso, a mo�a passa longos per�odos na novela curtindo uma forte dor-de-cotovelo),� no setor masculino, isto n�o acontece com freq��ncia. E quando acontece, esta dupla n�o � facilmente reconhecida.
    Em 1992, na novela Pedra Sobre Pedra, dos autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linharez, que para tirar do arm�rio o cafet�o Adamastor (Pedro Paulo Rangel) da sua eterna paix�o plat�nica por Carl�o (Paulo Betti), entra o policial Paulo Henrique, na pele do mui macho Reinaldo Gonzaga. A maior ousadia do casal era aparecer tomando caf� da manh� na cama. Mas foi um impacto, j� que o p�blico n�o estava acostumado a ver homens t�o viris, como o ator Reinaldo Gonzaga, no papel de um homossexual. A trama n�o se prontificou a escancarar a rela��o ou muito menos verbalizar algo no g�nero. Mas as cenas de carinho diziam por si e este personagem acabou provocando pol�mica na PM do pa�s. Em mat�ria da Folha de S. Paulo em Janeiro de 92, o presidente do Sindicato dos investigadores de Pol�cia de S�o Paulo, Vanderlei Bailoni afirmava que "o homossexual denigre a imagem da categoria". Estas e outras p�rolas provavam que o personagem incomodou. Pelo menos uma parte de uma categoria profissional do pa�s. Do outro lado, representantes dos movimentos organizados, como Luiz Mott elogiavam o personagem, afirmando que "Achei fant�stico que o Aguinaldo Silva, um dos fundadores do Lampi�o tenha oferecido uma vis�o positiva, n�o caricata, dos gays."
    Voltando mais para tr�s, em 1974, a novela O Rebu, do autor Br�ulio Pedroso, o grande ator Ziembinski encarnava o milion�rio Conrad Mahler que sustenta o garot�o Cau� (vivido pelo gostos�o Buza Ferraz). Tudo era muito sutil, apesar de que exatamente este romance � o plot da trama, quando Conrad mata Silvia, pois esta estava de caso com o mocinho dele. Mas o p�blico na �poca n�o entendia exatamente qual era a origem real daquele relacionamento.
    Anos depois, em 1981, Gilberto Braga resolve botar o dedo na ferida ao colocar Denis Carvalho no papel de In�cio Newman, homossexual que morre de medo da matriarca Chica Newman (Fernanda Montenegro) e jamais assume sua orienta��o. Diante da press�o da m�e, ele acaba se casando com Leonor (Renata Sorrah), uma vigarista e interesseira e somente no final da trama toma coragem e foge do pa�s para viver um romance com um garot�o. Foi pol�mico, apesar de que a palavra homossexual nunca ser dita durante a trama, apesar das fortes desmunhecadas de Denis no papel. A novela chamava Brilhante..
    Em 1986 foi a vez de C�cil Thir� soltar muito a franga em Roda de Fogo, novela de Lauro C�sar Muniz, no papel de Mario Liberado, grande inimigo do empres�rio Renato Villar (Tarc�sio Meira). Thir� teve seu melhor momento como ator e suas trocas de car�cia com o mordono Jacinto renderam assunto por longos meses. Mas a paix�o plat�nica e ardente pelo arqui-inimigo tamb�m rendeu pol�mica.
    Uma travesti teve seu cr�dito em 1989, na novela Tieta, de Aguinaldo Silva, na pele de Rog�ria. Ela faz uma apari��o muito especial e bem r�pida como Ninete, a gerente do puteiro que Tieta deixou em S�o Paulo quando voltou para Santana do Agreste. Ela chega na cidade chamando a aten��o por sua peruise, mas logo a polemica est� armada quando se revela que se trata de uma travesti. Como a novela foi muito bem dirigida e muito bem escrita, esta situa��o � tratada com um fino humor, apesar do limite da situa��o.
    A novela das oito tem maior impacto na sociedade, pois � o programa mais assistido pelo pa�s. As tramas s�o mais pol�micas, desta forma, sua visibilidade � muito maior, mas em outros hor�rios, o personagem homossexual deu suas caras. Nem sempre de forma positiva.
    O segundo bissexual assumido na teve brasileira (o primeiro foi o Chico Diaz na novela Kananga do Jap�o,  de 1989, na extinta TV Manchete) apareceu em 1997 na novela Zaza, Lauro C�sar Muniz, na figura de Ro Ro Pedalada (Marcos Breda), uma drag-queen que depois de seus shows em boates volta para casa de bicicleta para os bra�os de sua amiga-namorada Mercedes (Louise Cardoso). O personagem� tamb�m gostava de rapazes. Como a novela foi um grande fracasso, este personagem n�o chamou muito aten��o.
    Ney Latorraca � um ator que j� teve alguns momentos pol�micos sem sua carreira. Em Um Sonho A Mais, em 1985, de Daniel M�s, Lauro C�sar Muniz e Mario Prata, ele fez quatro pap�is diferentes, entre eles Anabela Freire e teve cenas engra�adas e despertou a paix�o do coroa Pedro Ernesto (Carlos Kroeber). Algumas cenas eram relativamente ousadas, quando o coroa pegava pesado para cima da simp�tica Anabela. Outro momento do pr�prio Ney foi na j� citada novela Zaza, quando seu personagem, Silas Vadan, se auto-denominava pansexual, ou seja, poderia transar com homens, mulheres ou animais. O que isso significava na trama era completamente desconhecido.
    A Rede Manchete fez boas novelas, apesar do p�blico reduzido. A citada Kananga no Jap�o foi um exemplo. Outro momento foi em Xica da Silva, em 1996, no autor Walcir Carrasco. Al�m da trama com a escrava poderosa, vivida pela atriz Thais Ara�jo, outro que chamou a aten��o foi Z� Mulher, vivido pelo ator ga�cho Guilherme Piva. Ele viveu o drama de ser homossexual num �poca que o pa�s o Brasil, em nome da Inquisi��o[1], perseguiu mais 100 homens[2].�
Gays masculinos nas tramas na d�cada de 90
    Como a d�cada de 90 falar sobre homossexual virou assunto do dia, os jornais cederam seu espa�o para uma discuss�o mais ampla da quest�o. Revistas surgiram, como a Sui Generis, a primeira publica��o s�ria do g�nero no pa�s, em Janeiro de 1995 e a internet, outro excelente aliado teve seu grande impulso na comunidade GLTTB em Junho de 1996 com o surgimento do site Mix Brasil. Estes fatores colocaram o personagem homossexual com mais freq��ncia nas tramas das novelas brasileira. Um casal chamou a aten��o para um tipo "diferente" do usual nas tramas.
    Sandrinho e Jefferson roubaram a cena na novela A Pr�xima V�tima, novela de Silvio de Abreu de 1995 ao assumirem sua orienta��o para seus pais (e para o Brasil). N�o houve nem beijo, muito menos alguma troca de carinhos. Os meninos eram comportados, n�o davam pinta e conquistaram pela cara garotos do vizinho. Eles poderiam passar com dois amigos muito �ntimos, se n�o verbalizem seu romance. Foi t�mido, mas foi o �nico passo positivo neste sentido.
    Mas a teve brasileira n�o estava preparada para uma vers�o feminina bem sucedida quando matou o casal Rafaela e Leila em 1998, em Torre de Babel. A sociedade hetero-machista-burguesa n�o gostou de ver duas mulheres bem resolvidas, saud�veis e felizes. O resultado foi a morte das duas na explos�o do Shopping. A sociedade estava mandando um recado: at� toleramos a presen�a de gays e l�sbicas, desde que, claro, n�o sejam felizes, n�o possam ter uma vida tranq�ila ou muito menos, n�o possam ser liberais ou independentes.
    Se n�o bastava a infinita quantidade de gays afetados, em 1999, Aguinaldo Silva pisa linda na bola na novela Suave Veneno, ao colocar o paranormal U�lber (Diogo Vilela) e seu assistente Edilberto (Luiz Carlos Tourinho). O primeiro ficou conhecido como a bicha de turbante, mi�angas e echarpes coloridas. O segundo pela bichinha poc-poc de miniblusas, sapatos de salto alto e cal�as saint-tropez. Elas despertaram o carinho das dona-de-casa, que as aceitaram tranq�ilamente. O mesmo n�o se pode dizer dos homossexuais, que novamente se viram retratados como as palha�as da m�dia, nas figuras caricaturais e afetadas de ambos.
    E como n�o bastasse, eis que surgem em pleno novo mil�nio as figuras de Ariel (Jos� Wilker) e Tadeu (Ot�vio Muller) em Desejos de Mulher, de Euclides Marinho. No inicio da novela, os dois pareciam ser um casal bem resolvido, apesar do passado bissexual do primeiro. Mas conforme a novela foi afundando na audi�ncia, um terr�vel show de equ�vocos transformou os personagens numa releitura U�lber/Edilberto, no pior sentido que possa existir para o erro do erro. Ou seja, os personagens se transformaram na pior caracteriza��o do homossexual das telenovelas, donos dos piores textos e das piores situa��es da trama. Se antes, o exagero parecia intencional (dentro do contexto), agora, parecia proposital. Estes dois representam o pior do pior do preconceito e da caricatura. Na cena final da novela, quando Ariel � transformado em fadinha, respons�vel pela felicidade geral do restante do elenco merece destaque como o pior final de novela da hist�ria da telenovela moderna.
    Se a l�sbica � ainda uma figura invis�vel, o gay � figura de embara�o ou de rid�culo. A invisibilidade l�sbica acaba poupando o personagem do grotesco. A visibilidade negativa do gay refor�a o estere�tipo e facilmente refor�a o preconceito. Os autores de novela ainda buscam nos programas humor�sticos de baixa qualidade o modelo de homossexual masculino que a sociedade aceita como o ideal. Fugir desta figura ainda � um passo que a telenovela brasileira necessita urgentemente em realizar.
Conclus�o
[1] A Inquisi��o ou Santo Of�cio funcionou entre 1536 a 1821. Era um tribunal eclesi�stico que punia crimes contra a f� cat�lica. Perseguia, basicamente, crist�os-novos (judeus convertidos) e homossexuais.
[2] No Brasil, segundo o antrop�logo Luiz Mott, a Inquisi��o investigou mais de cem homens acusados de praticar o abomin�vel pecado da sodomia. Pelo menos dez foram presos, mas nenhum foi condenado � morte.
C�cil Thir� no papel de M�rio Liberato na novela Roda de Fogo
O gay em outros hor�rios
notas
Ot�vio Muller, o Tadeu de Desejos de Mulher, na Parada do Orgulho Gay 2002 em SP
Leia a primeira parte desta mat�ria
� Marcelo Oliveira - 2003.
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