| Minha primeira hero�na foi a Batgirl |
| No final do ano passado, durante uma entrevista dada a uma aluna de psicologia da Puc, surgiu a fat�dica pergunta: quando foi que voc� se descobriu homossexual? Eu a olhei atentamente e devolvi a seguinte pergunta: e quando foi que voc� se descobriu heterossexual? Ela ficou sem saber o que responder. E eu ri. Expliquei para ela que � a mesma coisa. Voc� nasce homossexual e pronto. Voc� pode n�o saber disso. Voc� pode n�o querer aceitar isso. Voc� pode discordar disso. Mas, desculpe, esta � a realidade. Eu me lembro que aos cinco anos, eu assistia ao seriado trash Batman. Eu vibrava com as aventuras do her�i mascarado e seu fiel companheiro Robin (naquele tempo, eu n�o sabia exatamente qual era o grau de amizade entre eles, que s� vim a descobrir anos depois...). Mas, confesso: eu realmente me empolgava era com a presen�a da Batgirl. Sim, Batgirl foi minha primeira hero�na. Eu adorava sua roupa. Eu adorava seu cabelo. Eu adorava o jeito que ela lutava e queria reproduzir exatamente aquele comportamento. Eu tamb�m gostava do Batman. Mas era t�o �bvia a for�a f�sica masculina, que eu n�o achava a menor gra�a. Al�m do mais, o ator era t�o panaca e o personagem t�o mal constru�do, que os vil�es eram bem mais interessantes (nem vou falar que a Mulher Gato foi a primeira vil� de minha vida e para quem me conhece sabe qual a import�ncia dos vil�es em minha vida.). |
| Nas brincadeiras com meus amigos de inf�ncia, Carlos e Marina, eu queria ser a Batgirl e n�o tinha conversa. Como eu s� me lembro do meu amiguinho loiro, o Carlos, em minha vida, nem vou falar o que a Marina achava disso, pois sinceramente, eu n�o me lembro... E o tempo foi passando e outras hero�nas foram surgindo em minha vida. A Mulher Maravilha, A Mulher Bi�nica e por indica��o de minha m�e, As Panteras, que se transformou no meu seriado preferido (ainda hoje confesso: assisto as reprises nas manh�s de s�bado na Sony!). |
| O que quero dizer com esta sess�o nostalgia � que para mim sempre foi tranq�ilo escolher mulheres para admirar. Eu achava muito mais interessante � figura delicada de uma mulher lutar com um homem e levar vantagem do que ao contr�rio. Mesmo que elas usassem o charme e a sedu��o para isso, na minha cabe�a, uma figura delicada, poderia se destacar e ser vitoriosa em suas lutas e conquistas. Conforme os anos foram passando e eu fui crescendo, estas figuras continuaram a ser meus modelos e isso foi determinante para minha personalidade. Afinal, eu n�o era o esportista da escola ou muito menos o mais bonito e paquerado por todas as meninas. Eu era o menino t�mido, que queria ser deixado de lado, apesar de gostar de conversar com todas as meninas e com alguns dos meninos que n�o eram os mach�es. Estes mach�es eram aqueles que passavam o tempo atormentando os tipos como eu. Tenho certeza que n�o fui o �nico. |
| O tempo passa. Ver aquele menino t�mido, sentado e comendo doces escondidos da professora parece um quadro de um passado distante. Mas o que importa neste quadro � saber que aquele menino sonhava com aquelas hero�nas que o tiravam do opressivo mundo h�tero para o mundo de sonhos, aonde as figuras mais fr�geis eram as donas do peda�o e que ser diferente do garot�o atl�tico, bonit�o e com o sorriso do Tom Cruise tamb�m era bacana. |
| Aquele menino cresceu e seus modelos continuaram a ser as mulheres fortes ou os homens que n�o eram idiotas por que tinham a for�a. A diferen�a daquele menino para o adulto que hoje escreve � que hoje eu sou o meu her�i preferido. Aquelas hero�nas me ajudaram a me olhar no espelho e ver um homossexual que n�o tem medo de ser quem eu seja. Elas me mostraram que o mais fr�gil tamb�m � inteligente, esperto e forte quando for necess�rio. E que n�o temos que nos esconder atr�s de ningu�m, pois temos tanto direito de tudo o que a vida nos d� como todos. N�o me importa se a grande maioria n�o seja gay e que eu n�o fa�a parte da grande maioria. Quem disse que esta grande maioria � interessante? |
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| Quem disse que esta grande maioria � mais feliz do que eu? Quem disse tamb�m que eu quero fazer parte de alguma maioria? Hoje, eu sou um cara bem resolvido, que tem uma auto-estima bem trabalhada, com uma fam�lia que sabe desta orienta��o sexual e que lida de forma tranq�ila com meu estilo de vida gay. Tenho uma m�e e um irm�o que quando encontram alguma mat�ria na televis�o ou no jornal sobre homossexuais me chamam para assistir e ainda comentam comigo indignados diante de algum caso de homofobia. Ah, sim! No mercado de trabalho que eu fa�o parte, todos sabem de minha homossexualidade e a grande maioria aprendeu a me respeitar, pois eu me fa�o ser respeitado. Alguns podem at� n�o aprovar, mas eles aprenderam a me respeitar. A� est� a grande diferen�a. E se o homossexual n�o se respeita, quem � que vai respeita-lo? |