O que mudou em 18 anos na nossa vida gay?
A primeira vez que eu pisei numa boate gay foi em 1985. Era a Bub's, uma casa bem pequena localizada na Rua Regente Feij�, ao lado do Cine Bras�lia. Se voc� tiver menos de 30 anos, n�o deve saber onde fica este local, por que nem a boate, nem o cinema existem. Hoje, o saudoso cinema, que exibia filmes pornogr�ficos, abriga uma igreja evang�lica (eu sempre me pergunto que fim levou as almas penadas das bichas falecidas, que povoavam o local?).
Eu tinha 18 anos. Tinha acabado de entrar para a Puc para cursar jornalismo e minha curiosidade em saber o que existia naquele espa�o era muito grande.

E
u j� tinha ouvido falar, mas morria de medo de ir. Minha id�ia era um local aonde o povo transava na frente de todo mundo, ao vivo e a cores, bem no meio do local... Que ing�nuo... Curiosamente falando, hoje este pensamento n�o me parece t�o absurdo...

B
om, voltando, qual n�o foi minha surpresa ao me deparar com um espa�o aconchegando, acolhedor e que marcaria minha vida, por ser o primeiro local o qual eu dei meu primeiro beijo em um homem em espa�o p�blico?

A
casa era uma coisa min�scula. Na entrada, ao lado esquerdo, havia um bar. Em frente, um sof�
de alvenaria (uma coisa bem anos 80, diga-se de passagem), com v�rias almofadas e mesinhas, que o povo de�
mullet usava para a cuba libre b�sica. Um grande p�ster de um gostoso musculoso enfeitava a parede.
Um corredor levava a pista de dan�a. A byba de hoje n�o imaginaria que naquele lugar, as m�sicas que levavam o povo ao del�rio n�o tinham nada a ver com os drag-hits de hoje. Bronsky Beat, Depeche Mode, New Order, Eurythmics, Cyndi Lauper, Bar�o Vermelho e Marina Lima davam conta do recado. Madonna estava em come�o de carreira, ainda com aquele visual biscate folgada e sua voz era aquela coisa esgani�ada (pelo menos hoje, ela aprendeu a cantar).
O comportamento gay naquele per�odo era bem diferente do que vemos hoje. O povo saia para se divertir, encontrar os amigos e achar aquele corpo quente que iria aquecer o resto de sua noite e se este corpo fosse interessante, viraria um caso (outro termo muito anos 80). O grito da AIDS ainda era uma realidade pouco explorada. Existia. Mas, ningu�m sabia direito o que era.

E
ra imposs�vel voc� ir e n�o beijar algu�m. Sair acompanhado era b�sico. Voc� poderia transar at� no carro em frente (ah, aquela Bras�lia bege...)...

F
alar em viol�ncia era coisa de gente loka ou drogada. Portanto, assalto n�o era uma coisa muito comum.

H
avia uma certa ingenuidade naquele per�odo. O pa�s estava saindo de anos de ditadura. Os ventos do neoliberalismo estavam assoprando. E n�o t�nhamos que lutar contra nada (como a gera��o anterior), a n�o ser pelo direito de ser feliz.
Falar destas coisas hoje em dia parece papo de bicha velha, eu sei que muitos podem pensar. Mas, vendo esta gera��o do novo s�culo, que ainda tr�s um forte elemento dos anos 90, desanima.
N�o sou nost�lgico. Mas, puxa vida, por que esta gera��o � t�o imediatista?
L
endo a entrevista antiga no Bybas com o Silvio Carvalho da The Club, com sua est�ria em manter a qualidade da casa, com toda aquela estrutura e com um n�mero alto de funcion�rios, fiquei pensando como somos contradit�rios.

S
e, por um lado, temos um espa�o daquele tamanho, com mil depend�ncias, uma piscina deliciosa e uma pista super badalada, por outro, um monte de gente sozinha, ego�sta, medrosa e que s� pensa em se jogar no dark-room para aquele prazer que n�o dura mais do que 15 minutos. N�o tem coisa errada?
N�o posso acreditar que teremos que esperar a pr�xima gera��o para poder entender esta aqui. Est� na hora de come�armos a fazer alguma coisa.

Q
ue a gente come�ar a pensar num rem�dio realmente eficaz contra a solid�o?

C
aso contr�rio, n�o sei aonde iremos chegar.
� Marcelo Oliveira - 2003.
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Ser� que em 18 anos (tempo de minha primeira vez numa boate gay) mudamos tanto assim com nossos desejos?

U
�, mas o sonho de todo mundo n�o � ter um namorado, um companheiro, um marido ou algu�m para ficar ao nosso lado no sof�, comendo pipoca e vendo o novo filme da Julia Roberts no v�deo?

B
om, ent�o, nada mudou. Os desejos s�o os mesmos. Os sonhos idem. Mas, aonde foi que erramos e que n�o conseguimos acertar?
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