Quarta-feira, Maio 10, 2006

Vale identifica apetite de investidor dos EUA por ação

Por Adriana Cotias
10/05/2006

Eleita pela Boston Consulting Group como a número um em retorno aos acionistas entre empresas com valor de mercado superior a US$ 25 bilhões (de 2000 e 2004), a Vale do Rio Doce começa a despertar o interesse de pessoas físicas fora do Brasil. Como regra, a empresa já anuncia no início de cada exercício quanto pretende distribuir em dividendos. Para 2006, está previsto um pagamento mínimo de US$ 1,3 bilhão, montante que vai se somar à valorização dos papéis na bolsa, em nada desprezível também. No ano passado, as ações preferenciais (sem direito a voto) série A subiram 35% e neste ano acumulam mais de 17%.

Segundo o diretor-executivo de Finanças, Fábio Barbosa, a presença de investidores americanos potenciais nas apresentações no exterior representa a quebra de uma barreira importante ao atrair um perfil que costuma ser mais resistente a ativos brasileiros. Com tal sinalização, a direção da Vale já pensa em criar para os seus American Depositary Receipts (ADRs, os recibos de ações), negociados na Bolsa de Valores de Nova York, um programa de reinvestimento de dividendos similar ao adotado no Brasil.

Aqui, o plano foi lançado em outubro passado, mas ainda não recebeu adesões significativas. Ao contrário do mercado americano, onde grande parte da poupança da população está em ativos de renda variável tendo o dividendo como a parcela fixa do investimento, esse tipo de programa não é muito comum no mercado brasileiro - além da Vale, só Itaú e Bradesco têm planos do gênero.

Em vias de concluir um novo desdobramento de ações, em que cada ação preferencial ou ordinária (com direito a voto) passará a ser representada por duas ações, a iniciativa é um passo no sentido de atrair o pequeno investidor também no Brasil ao atribuir um valor unitário menor para cada ação. Em junho, o desdobramento será extensivo aos ADRs.

Além disso, para cativar a pessoa física no país, a companhia aposta mais na estratégia de criação de valor para a Vale, comumente na vitrine das principais casas de investimento, do que em iniciativas complementares. Nesta entrevista ao Valor, Barbosa fala da incorporação da Caemi, concluída na semana passada, do desdobramento, mas evita tópicos mais polêmicos como "tag along", a extensão do prêmio de controle aos preferencialistas, ingresso no Novo Mercado ou pulverização do capital.

Valor: O desdobramento de ações da Vale, a ser concretizado no dia 22, não é o primeiro da história da companhia. Por que a iniciativa veio agora e que benefícios trará para os acionistas e para a empresa?

Fábio Barbosa: O primeiro desdobramento recente tinha sido em 2004, na proporção de três para um, ou seja, cada acionista recebeu três ações para cada uma que já possuía. Quando se toma uma iniciativa dessas é porque geralmente o valor unitário atingiu um nível que não otimiza a possibilidade de transação para o pequeno investidor. Esse era o objetivo lá atrás e também agora, com o novo desdobramento numa relação que será de dois para um. A intenção é reduzir o valor nominal do preço de aquisição do investimento em Vale de forma a atrair mais investidores e proporcionar mais liquidez para o papel. Na prática, quem tinha uma ação em carteira teve o seu número de ações multiplicado por seis em menos de dois anos. Para a empresa, quando se aumenta o potencial de atração de novos investidores, ela ganha mais visibilidade junto às pessoas físicas também. É um conjunto de circunstâncias que fazem a operação ser muito positiva.

Valor: Qual é a participação da pessoa física na base atual?

Barbosa: Essa é uma informação muito mutante. A grande contribuição das pessoas físicas veio com a venda de ações ON, em março de 2002, que permitiu o uso do FGTS e mais de 600 mil pessoas adquiriram ações naquela ocasião. Desde então, o valor dos papéis se multiplicou por seis.

Valor: Em outubro, a companhia lançou o Vale Investir, o programa de reinvestimento de dividendos. Qual o nível de adesão?

Barbosa: É ainda incipiente. O investidor está numa fase de aprendizado, pois esse é um programa pouco usual no Brasil. Junto com parceiros, temos buscado aumentar a visibilidade do programa. É muito interessante porque traz comodidade para o investidor e permite que ele reinvista automaticamente os dividendos e assim evite a compra fracionada de ações. É um programa também voltado para fomentar a participação do pequeno investidor pessoa física. Temos de trabalhar para desenvolvê-lo, mas é um processo gradual.

Valor: E como estreitar esse relacionamento com o pequeno investidor?

Barbosa: Fazemos reuniões freqüentes com acionistas e analistas. Há 24 anos realizamos apresentações para o mercado. É um programa intenso de relacionamento com investidores, que inclui conferências no Brasil e no exterior. E há um dado que é o crescimento do interesse das pessoas físicas fora do Brasil pelo ativo Vale. Uma pesquisa da Boston Consulting Group entre companhias de larga capitalização apontou a empresa como a número um em termos de rentabilidade (valorização mais o retorno em dividendos) e isso tem atraído muitos investidores que querem entender melhor a Vale. Temos conseguido avançar no mercado externo e, no futuro, a intenção é lançar um programa similar de reinvestimento de dividendos para os ADRs, negociados na bolsa de Nova York. Estamos atingindo um perfil bem conservador, mais resistente, que é o investidor dos Estados Unidos, que se mostra interessado por uma companhia brasileira, e aí há uma ampla base de investidores potenciais.

Valor: Para quando é possível o programa de reinvestimento de dividendos para quem tem ADRs ?

Barbosa: Acho que já neste ano. Há uma série de procedimentos que ainda temos de lidar para tornar isso possível.

Valor: Falou-se muito na relação de troca entre as ações da Vale e da Caemi na ocasião do anúncio da incorporação da empresa (os minoritários receberam 0,04115 ações PNA da Vale para cada ação preferencial da Caemi, proporção que teve como base os preços médios das ações da Vale e da Caemi, sem adição de prêmio). Qual o balanço que o senhor faz da operação concluída quarta-feira? Acabaram os ruídos?

Barbosa: Não teve ruído. A operação foi realizada em bases estritamente de mercado. Não houve nenhum questionamento por qualquer órgão de controle e foi um processo absolutamente endossado. E como foi feita em bases de mercado, isso determinou o sucesso da operação. Os acionistas da Caemi aderiram integralmente, aprovando a troca na assembléia geral extraordinária realizada em abril.

Valor: O presidente da Vale, Roger Agnelli, em encontro com jornalistas do Valor, em fevereiro, afirmou que o aumento de capital contribuiria para reduzir o desconto entre as ações ordinárias e as preferenciais. Isso ainda não foi sentido e há uma diferença de 18% entre um ativo e outro. O que está embutido nessa defasagem?

Barbosa: A redução dessa defasagem será uma conseqüência do aumento da liquidez das preferenciais. E um ativo com liquidez é sempre atrativo. Uma vez concluída a operação, que trará ainda mais movimentação para os papéis, deve ter lugar o encurtamento progressivo dessa diferença. É uma questão de tempo.

Valor: Há ainda avanços a fazer em termos de governança?

Barbosa: Nossos acionistas controladores são muito pró-ativos e tiveram um papel fundamental na trajetória de criar valor para a companhia. Desenharam e adotaram um modelo bastante sofisticado de governança, com vários comitês. Na prática, ficaram fora da gestão e assumiram mais um papel de supervisão que é muito bem percebido pelo mercado. O sacrifício dos poderes resultou num benefício maior para todos os acionistas, não só para a Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) ou Bradespar, mas também para todos os acionistas da Vale. Nosso controlador tem sabido orientar os destinos da companhia de forma a assegurar que todos tenham o melhor retorno do seu investimento.

Valor: "Tag along" para as ações preferenciais é algo viável? Está nos planos da empresa?

Barbosa: Não estamos discutindo, cogitando ou avaliando qualquer evento dessa natureza.

Valor: E conversão das ações preferenciais em ordinárias, com adesão ao Novo Mercado?

Barbosa: Não estamos discutindo, cogitando ou avaliando qualquer evento dessa natureza.

Valor: Pulverização do controle, já comentada pelo mercado, mas negada pela companhia, pode ser um caminho em algum momento?

Barbosa: Não estamos discutindo, cogitando ou avaliando qualquer evento dessa natureza.

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