Novas empresas listadas na bolsa são alternativas
Fabio Cardoso
04/05/2006
A falta de liquidez de uma ação pode significar grande perda para o gestor de fundos caso haja necessidade de ele se desfazer dessa parte da carteira de ações. Seja para aproveitar oportunidades pontuais de investimentos ou para restituir aplicadores que solicitaram resgate de cotas, é essencial para qualquer gestor ter flexibilidade para liberar os recursos alocados.
Quando a ação é pouco negociada, esse desinvestimento fica comprometido. Assim, o gestor é obrigado a reduzir o preço até encontrar compradores, o que gera perda de valor na carteira. Esse problema, entretanto, não tem afetado as companhias que entram recentemente no mercado acionário, as chamadas novatas da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
Nos últimos dois anos, as empresas procuraram reforçar a liquidez de suas ações na Bovespa de forma sustentável, para não restringir o número de investidores interessados. As companhias que fizeram ofertas públicas primárias deram atenção especial ao aumento de circulação das ações. Já as companhias com pouca participação nos pregões decidiram realizar venda secundária para elevar o número de papéis disponíveis no mercado e, assim, impulsionar a movimentação.
Uma tendência comum nesse período de valorização de liquidez é a contratação de formadores de mercado. Segundo dados da Bovespa, 21 empresas já usam essa estratégia para garantir a negociação mínima, entre elas algumas novatas como Localiza, Rossi Residencial e Energias do Brasil. Uma estreante da Bovespa que não contratou formador de mercado, mas desponta nas análises de liquidez é a Cosan. Lançado em novembro de 2005, o papel atingiu um nível de negociação semanal de R$ 140 milhões. Esse volume é similar a empresas do porte da CSN, Unibanco, Gerdau e Aracruz e supera o desempenho de companhias como AmBev e Embraer. Essa liquidez ajudou a impulsionar o preço das ações, que atualmente está próximo de R$ 170 - uma alta de mais de 254% em comparação à época da oferta primária.
Diversas empresas aproveitaram o excesso de recursos para aumentar sua presença no mercado acionário brasileiro. As transações chegaram a R$ 14 bilhões nos últimos três anos, segundo dados da comissão de Valores Mobiliários (CVM). E o cenário atual continua positivo para as novatas. Além disso, a entrada maciça de investimentos estrangeiros no Brasil também foi um grande atrativo para impulsionar as ofertas realizadas desde 2004 e garantiu o fluxo de capital necessário para manter as negociações.
O resultado dessa movimentação foi um aumento das oportunidades de investimento à disposição dos gestores no mercado acionário brasileiro. Se antes os fundos tendiam a concentrar seus recursos em empresas ligadas a setores como bancos, telefonia, siderurgia, energia e mineração, o cenário está um pouco diferente. Não que as companhias tradicionais tenham perdido espaço na Bovespa. Elas continuam a ter papel de destaque. Mas as novatas também garantiram um bom lugar no mercado. Neste início de 2006, elas chamam a atenção basicamente em três setores: construção civil, sucroalcooleiro e mídia/internet. Empresas como Rossi Residencial, Gafisa, Cosan, Submarino e Ideiasnet têm bom potencial de crescimento.
Vale destacar ainda como muito importante para a aceitação dos novos papéis pelos investidores o fato de os atuais lançamentos ocorrerem, em sua maioria, dentro do chamado Novo Mercado. As empresas que optam por esse nível de governança corporativa precisam incorporar uma série de práticas que trazem maior segurança ao investidor minoritário: "tag along" em caso de venda da companhia, "free-float" de 25%, adesão à Câmara de Arbitragem, representantes independentes no Conselho de Administração e reuniões públicas com analistas e investidores ao menos uma vez ao ano.
Além disso, o fato de as novas empresa só lançarem papéis ON (ações ordinárias nominativas, que têm direito a voto) é certamente um estímulo maior para o investidor externo, pouco habitado à classe de papéis sem direito a voto, como era usual até pouco tempo na bolsa brasileira.
A liquidez e as práticas de governança corporativa tornaram os novos papéis uma alternativa viável para a formação de carteiras de fundos e grandes portfólios, sendo este movimento muito importante para a redução do risco das carteiras via a distribuição do risco por uma variedade maior de setores da economia. Não há dúvida de que esse é um movimento extremamente salutar para o mercado de ações brasileiro, que ganha novas opções de investimento já enquadradas nas novas e modernas diretrizes de governança corporativa.


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