Terça-feira, Maio 09, 2006

Jovens nisseis discutem finanças e montam clube de ações

Danilo Fariello
09/05/2006

É comum integrantes de uma geração recente de nisseis embarcarem para o Japão como decasséguis em busca de trabalho, com o sonho de retornar ao Brasil em melhores condições de vida. Muitos conseguem parte desse sonho ao ganharem bons salários para os padrões brasileiros, mas se perdem ao não saberem administrar tanto dinheiro. Para evitar que essas pessoas tenham de retornar para lucrar mais ou mesmo para facilitar o alcance de suas metas sem terem de abandonar o Brasil, uma organização não-governamental sem fins lucrativos de jovens asiáticos resolveu disseminar noções de educação financeira e até dar acesso a um clube de ações para seus sócios.

A JCI Brasil-Japão, entidade de 23 anos composta por 120 jovens nisseis de 18 a 40 anos, criou seu programa de educação financeira para colaborar com o crescimento econômico de seus participantes e do país, diz Lucilia Cristina Satomi, presidente da entidade. "Queremos ensinar esses jovens a ganhar e administrar esse dinheiro no Brasil mesmo." Aqueles que viajam muitas vezes mandam dinheiro para a família aqui, que também tem dificuldades para aplicar esses recursos, completa.

O clube de investimentos foi uma conclusão lógica, porque trata-se de investimentos de jovens, que podem arriscar mais e têm objetivos de longo prazo, diz Fabio Yuki, secretário geral da ONG. O clube permite que se comece a investir com R$ 500 e, para os depósitos seguintes, o mínimo é de R$ 100. Poderão aplicar no clube Pé de Meia também integrantes da JCI São Paulo e da JCI Brasil-China.

Apenas neste ano, até março, foram criados no país 151 novos clubes de investimento, segundo a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Mais de 120 mil pessoas investem R$ 8,3 bilhões por meio de clubes no Brasil.

Só em grupo é possível comprar ações com tão poucos recursos e, ao mesmo tempo, aprender melhor sobre o funcionamento do mercado, diz Gustavo Cerbasi, professor da USP e autor do livro "Dinheiro, os Segredos de Quem Tem". Ele assessorou o grupo da JCI Brasil-Japão no seu projeto de educação financeira. "A busca por essa formação é uma conseqüência da estabilidade econômica recente, que move os jovens a buscarem logo cedo possibilidades para construir seu patrimônio."

O clube Pé de Meia investirá a maior parte dos recursos em ações de grandes empresas, com uma pequena parcela destinada a aplicações mais especulativas, segundo recomendação de Cerbasi.

O surgimento de um clube entre nisseis é fato que não surpreende, diz Roberto Sekiya, diretor administrativo da ONG. "Temos costume de poupar", diz ele. "Queremos aproveitar o bom momento da bolsa para estimular o interesse desses jovens em investir melhor." A cultura deles motiva a atuação financeira em grupo. É bastante conhecida uma tradição da comunidade asiática brasileira chamada tanomoshi, uma espécie de consórcio com sorteios mensais que premiam os participantes com o saldo total acumulado pelo grupo. "O clube é a evolução disso a um sistema legal e maduro de construir riqueza", diz Cerbasi.

Em paralelo à formação do clube, que deverá estar pronto para captação nas próximas semanas, Cerbasi e especialistas do mercado da corretora SLW, que mantém o clube, farão palestras aos participantes da ONG ou para qualquer interessado. "O simples fato de se falar sobre dinheiro em grupo já é importante para as pessoas deixarem vícios e aprenderem a acumular dinheiro", diz Cerbasi.

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