Entrevista com Claire Danes - Por Mark Marvel (1995)


Claire: Meu nome � Claire. Tenho 15 anos. Cresci em Nova York, na Crosby Street, no SoHo. Ningu�m mais da minha fam�lia atua.

Mark: Como � que voc� se envolveu em representa��o, ent�o?

Claire: � uma hist�ria meio longa; normalmente todas as pessoas t�m uma hist�ria meio longa para contar. Pratico dan�a moderna desde pequena. Participei de alguns pequenos espet�culos de dan�a no Lower East Side, e acredito que foi um impulso para que eu come�asse a dan�ar. Aos onze anos, fui para o Lee Strasberg Performing Institute, onde aprendi mais sobre representa��o e fiquei apaixonada por teatro. Depois ent�o fui para um col�gio rec�m fundado de representa��o e dan�a, pois eu odiava minha escola de primeiro grau e queria sair dela.

Mark: Voc� ent�o se identifica com sua personagem Angela, de My So-Called Life (Minha Vida de C�o), por ela tamb�m odiar a escola?

Claire: Sim. � dif�cil n�o se identificar com este tipo de coisa quando voc� � um adolescente. Mas Angela � uma personagem dif�cil de interpretar, pois ela fala sobre coisas a respeito das quais eu mesma ainda n�o tenho opini�o formada. Portanto, � meio que...

Mark: ... aprender na pr�tica!

Claire: Isso mesmo, � como estar mexendo na ferida. Parece meio sombrio, mas � verdade.

Mark: Como foi fazer o papel de uma adolescente em uma outra �poca, em Ador�veis Mulheres (Little Women)?

Claire: Tive que mudar radicalmente de uma menininha grunge dos anos 90, ou seja l� o que for, para uma personagem bondosa e singela. Foi bom finalmente estar fazendo algo diferente, pois eu j� estava trabalhando em My So-Called Life por muito tempo. Mas Ador�veis Mulheres n�o fala somente a respeito da adolesc�ncia. Fala mais a respeito da rela��o entre as irm�s, e elas sendo como uma fam�lia. Uma parte muito importante do meu papel no filme � que eu morro, o que foi, para mim, uma experi�ncia muito intensa. N�o esperava que fosse t�o dif�cil quanto foi. Eu tinha que mudar de maquiagem no trailer, para parecer que estava com escarlatina e isso era muito inc�modo. Eu lembro que quando eu entrei no set pela primeira vez, as pessoas da equipe come�avam a cochichar quando eu me aproximava delas. Elas abriam as portas para mim. Era dif�cil para minha m�e me ver daquele jeito, e era dif�cil para mim tamb�m.

Mark: A morte n�o � algo que os jovens pensam muito a respeito.

Claire: Em todos os est�gios da sua vida voc� pensa sobre a morte. Mas o adolescente, em particular, considera-se invenc�vel. Ele n�o consegue pensar em morte, sen�o teria muito medo de viver, Beth � vista como a irm� fraca e fr�gil, embora ela suporte o resto da fam�lia de v�rias maneiras, especialmente Jo (Winona Ryder), o que n�o deixa de ser ir�nico, pois Jo � a mais extrovertida, forte e corajosa.

Mark: Como foi aprender sobre este per�odo da vida das mulheres atrv�s da Beth?

Claire: Quando come�amos, eu n�o sabia nada sobre este per�odo. Eu havia lido a respeito. N�s recebemos um pequeno panfleto sobre modos e regras de etiqueta. Eu pensei: Droga! ser� que tenho mesmo que ler esta coisa toda? Ser� que eu tenho que memorizar isto tudo? Entre os assuntos , havia milh�es de coisas que voc� pode fazer com um leque em uma festa, todos os protocolos de um flerte, ou ent�o falando que as mulheres devem sentar com o corpo reto o tempo todo, e que devem vestir colete. E eu pensava: Que cruel deve ser viver assim. Que bom saber que mudamos tanto, embora ainda h� muito a mudar. Como acontece com qualquer tipo de preconceito, n�o fazemos id�ia dos v�rios n�veis de discrimina��o que h� contra a mulher. Se soubessemos o quanto ela j� foi discriminada, poderiamos resolver esta quest�o.

Mark: O fato de voc� fazer um filme que lhe permite conhecer a raiz de um problema como este, deve dar a voc� uma nova compreens�o.

Claire: Aprendi muito fazendo este filme. E me senti uma pessoa de sorte por trabalhar com um grupo t�o forte das mulheres.

Mark: O que foi que voc� mais aprendeu a respeito de voc� mesma?

Claire: Meu Deus. Que pergunta dif�cil. Aprendi a admirar pessoas como Beth, que s�o ignoradas e menosprezadas. Quando comecei a fazer Ador�veis Mulheres (Little Women), eu dizia: Como � que vou fazer Beth? N�o tenho nada em comum com esta personagem! Com o desenvolver das filmagens, pude perceber que n�s �ramos parecidas em certos aspectos.

Mark: Quais?

Claire: Nunca havia me considerado t�mida, e ent�o percebi que eu sou um pouco; eu apenas construo defesas para esconder minha timidez. Beth possui uma maturidade, que eu acho que posso tamb�m e talvez eu tenha trazido isto para esta personagem, esta coisa de compreender como as coisas funcionam em sua fam�lia. Ela � perceptiva, e eu sou tamb�m. Mas o que eu realmente respeitei em Beth, foi sua generosidade com os outros, algo do qual eu gostaria de ter um pouco mais. As pessoas me perguntam se eu teria amizade com a Angela se ela fosse de verdade, e eu respondo que n�o sei se teria. Por�m me sinto bem com ela, e acho que temos muito em comum. �s vezes me sinto t�o s� quando estou trabalhando. Al�m das pessoas do programa, n�o existem muitos jovens da minha idade com quem eu possa sair. Estou pr�xima deles, mas n�o somos amigos fora do ambiente de trabalho. Portanto, Angela torna-se, de fato, uma amiga minha, sabe.

Mark: O que pensa a respeito do modo como as adolescentes s�o representados hoje em dia? Ou seja, essa coisa toda da Gera��o X.

Claire: Bem, o que � esta imagem para voc�? Esta coisa do acomodado? Ou do sem esperan�a? Ou do que � c�ptico? Acho que a minha gera��o est� mais preocupada com suas espinhas no rosto, e em descolar um programa para Sexta-Feira a noite. Acho que esta � a realidade deles. N�o sei se eles est�o muito preocupados com o futuro.

Mark: � com este tipo de coisa que voc� mais se preocupa?

Claire: Voc� est� falando sobre as espinhas e o programa de Sexta � noite? � claro que sim, e gra�a a Deus que eu me preocupo com isto. � sinal de que eu sou normal. Mas estou sempre refletindo sobre ser adolescente. Toda semana tenho que olhar no espelho do programa (My So-Called Life). Quando eu era pequena eu adorava aqueles filmes do John Hughes, como Sixteen Candles e The Breakfast Club, Fotloose � ainda um dos meus filmes prediletos. Eu ficava encantada com os adolescentes e eu queria muito ser um. E aqui estou eu em um desses programas, vivendo um adolescente.

Mark: Voc� acha que se um adolescente � uma boa hoje em dia?

Claire: � uma boa �poca. Mas acho tamb�m que, de um certo modo, as pessoas amdam com medo. � uma �poca um pouco assustadora, com a AIDS, toda a tecnologia, a m�dia e tudo mais.

Mark: A escarlatina era como a AIDS na �poca de Ador�veis Mulheres. Mesmo aos quinze anos, hoje em dia voc� tem que pensar em AIDS.

Claire: Sim, mas eu n�o lindo com isto diretamente. Eu anida n�o pratico sexo. Mas � como uma nuvem de medo que te cerca. Esta ali, bem no fundo da sua consci�ncia.

Mark: E por falar em medo, voc� alguma vez sentiu que os adultos tem medo dos adolescentes?

Claire: Sim, no sentido de que os jovens est�o finalmente decidindo sozinhos, tornando-se menos dependentes ou predispostos a cometer besteiras. Os adolescentes possuem uma energia intensa a qual n�o pode ser mexida, e � muito particular desta idade. Eu acho que ela � muito poderosa e assustadora para os adultos. Pode haver tamb�m um pouco de inveja, pelo fato de os adolescentes terem corpos saud�veis e estarem prontos para cair no mundo. Isto pode ser amea�ador. A mudan�a causa medo, mas a maioria dos adultos n�o acham que isto seja verdade.

Mark: Sua vida mudou?

Claire: Parece que deu uma enorme volta de 180 graus. Quando comecei My So-Called Life, a minha fam�lia e eu mudamos para o outro lado do pa�s. Deixei todos os meus amigos para tr�s e agora vivo esta vida estranha como numa bolha. Fiquei mais pr�xima de uma por��o de pessoas novas. Muita coisa aconteceu, e eu ainda estou digerindo isto tudo, mas � bom. Eu queria que tudo acontecesse assim mesmo, e estou muito contente por dar uma parada no col�gio. O trabalho abre novas perspectivas. Voc� n�o leva as coisas t�o a s�rio, e percebe que o mundo n�o vai acabar se voc� n�o for bem em uma prova de Hist�ria. Mas o trabalho tamb�m te distancia um pouco dos outros jovens, o que � triste, porque parece que n�o h� volta. Eu me sinto muito diferente hoje em dia.




�traduzido por Eduardo Paulo de Ara�jo especialmente para o O Mundo de Claire Danes




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