Você sabe o que é o esperanto? Já ouviu falar? Esperanto é uma língua planejada[1] desenvolvida por Ludwik Lejzer Zamenhof e tem como objetivo ser uma língua auxiliar[2], ou seja, uma língua que falantes de línguas diferentes podem utilizar para se comunicar. É importante dizer desde o início que o objetivo do esperanto não é acabar com as línguas existentes, muito pelo contrário(!), cada povo com a sua língua e o esperanto para todos. A cada dia mais e mais pessoas estão estudando o esperanto, o número cresce a rítmo acelerado graças a internet, bons materiais de estudo e disponibilidade de diversos itens culturais, tais como livros, músicas, traduções de software, etc.
Em toda a história da humanidade sempre existiu o problema da comunicação entre diferentes povos, a solução sempre foi eleger uma língua para ser a língua franca, no Brasil colonial foi escolhida a língua geral para a comunicação entre índios e portugueses[↓]; o aramaico foi usado no império Persa, mas depois foi substituído pelo grego nas áreas conquistadas por Alexandre, o Grande; o latim foi utilizado na maior parte da Europa durante o império romano; nos tempos modernos foi a vez do francês e a partir do século XX o inglês começou a ganhar espaço[↓].
Graças às melhorias do ensino dos tempos atuais, que são grandes se comparados a realidade de séculos atrás, muitas pessoas podem aprender uma língua franca, mas qualquer um pode constatar com sua experiência pessoal que é um número baixo que realmente conhece uma outra língua. O esperanto tem potencial para mudar essa realidade.
O objetivo principal deste artigo é divulgar a língua e, principalmente, combater muitos mitos que algumas pessoas teimam em acreditar. Não vai ser uma tarefa fácil, enquanto muitos se entusiasmam com o esperanto, outros gostam de implicar com a língua, só o simples fato de ser uma língua planejada já faz muitos rejeitarem a língua, eu me lembro de uma vez quando eu discutia o assunto e um sujeito dizia que o esperanto era uma piada mas defendia o ensino obrigatório de latim nas escolas.
Gosto de comparar a problemática da comunicação internacional com a dos sistemas numéricos que aconteceu muitos anos antes. No início o sistema numérico indo-arábico sofreu resistência por parte dos europeus cristãos que não aceitavam que um sistema inventado por mouros fosse mais eficiente que o seu sistema baseado em algarismos romanos. Foi um grande conflito, os abaquistas afirmavam que o sistema posicional não traria muita vantagem já que os cálculos poderiam ser feitos com relativa rapidez através do ábaco. Felizmente o sistema indo-arábico prevaleceu por ser mais rápido e os cálculos poderem ser feitos usando apenas um lápis e papel [↓]. Hoje eu vejo - no âmbito da comunicação internacional - o esperanto (ou qualquer outra língua auxiliar) como o sistema indo-arábico e o inglês (ou qualquer outra língua nacional) como o sistema de numeração romano.
Algumas pessoas muito mal informadas dizem que estudar esperanto seria o mesmo que estudar klingon ou na'vi, línguas artísticas inventadas para mundos imaginários. Deve ser lembrado que os objetivos dessas línguas são bem diferentes, os criadores das línguas klingon, na'vi, sindarin, almea, entre outras, não as fizeram com o objetivo delas serem línguas auxiliares, diferente do esperanto que tem esse fim.
O esperanto conta com milhares de falantes e é muito fácil encontrar pessoas para conversar, se não existirem falantes de esperanto em sua cidade você poderá bater um papo com esperantófonos (falantes da língua esperanto) de todo o mundo através de redes sociais, mensageiros instantâneos e programas de vídeochamada, basta ter acesso à internet.
Muitos vão dizer que o esperanto não é neutro, pois é eurocêntrico demais por ter sido feito por um europeu e por seu vocabulário provir de línguas europeias. Mas outros dirão que não aceitariam língua planejada de qualquer tipo como língua de comunicação internacional, apenas línguas nacionais, o que iria de encontro a neutralidade. Nada é perfeito e nada pode agradar a todos, mas de qualquer forma o esperanto não é propriedade de um único país e foi feito para ser de todos os povos sem distinção.
O esperanto é uma língua planejada, então não existe um país onde o esperanto é usado como primeira língua, o que é um ponto positivo, pois contribui para a neutralidade da língua. O esperanto é do mundo.
A resposta não é simples. Pense bem: como se sabe quantas pessoas falam português? Para encontrar o número de lusófonos (falantes de português) basta pegar o número de habitantes do Brasil, Portugal e o censo do número de pessoas que utilizam o português em países ou regiões como Moçambique, Cabo Verde, Angola, Macau, etc. Neste caso é mais fácil determinar a quantidade de falantes porque os governos desses países necessitaram e puderam contabilizar o número de lusófonos.
Você consegue perceber o problema? Para dificultar mais, deve-se considerar o nível de proficiência dos que estudaram ou estudam o esperanto, assim como existem pessoas que conseguem utilizar a língua como se fosse sua língua materna, outras não conseguem manter uma conversa por causa da pouca prática e falta de estudo. Se fosse possível encontrar cada um dos amantes da língua esperanto espalhados pelo globo, qual critério seria utilizado para determinar se alguém conta ou não como um falante?
Alguns tentam contabilizar o número de falantes através do número de vendas de livros, mas tanto este quanto outros métodos são muito falhos. A verdade é que não é possível determinar o número de falantes, mas estima-se um número entre entre 10.000 a 2.000.000. De qualquer forma o número de falantes só aumenta e a tendência é de mais pessoas se interessarem pela língua, sempre há pessoas disponíveis para bater um papo na internet e quem sabe até exista um ou mais esperantófonos em sua cidade.
O esperanto é para todos. É comum dizerem que esperanto é coisa de espírita (Brasil), de integrantes do Partido Radical (Itália), de vestibulandos (Hungria), de membros da Oomoto (Japão), etc. Bobagem! O fato de alguns grupos abraçarem certas coisas não as torna propriedade exclusiva desses grupos, dizer que esperanto é, por exemplo, coisa de mórmon (Estados unidos) é o mesmo que dizer que existe cadeira católica ou tapete muçulmano.
Não importa se você é ateu ou crente, comunista ou liberal, homem ou mulher, branco ou preto, velho ou jovem, o importante é aprender o esperanto.
Em torno de 75% dos radicais[5] do esperanto são provenientes de línguas latinas, 20% de línguas germânicas (inglês e alemão) e o resto de línguas eslavas (russo e polonês) e do grego (termos específicos). [↓]. Algumas pessoas acham o esperanto parecido com o italiano com sotaque russo, mas outros podem ter uma percepção diferente.
Saluton, kiel vi fartas? Esperanto estas facila lingvo kies celo estas interligi ĉiujn popolojn. Kiun lingvon esperanto similsonas laŭ vi?
O que mais chama a atenção em um texto escrito em esperanto são as letras ĉ, ŝ, ĵ, ĥ, ĝ e ŭ. Não é difícil escrevê-las no computador, existem softwares que permitem digitá-las nos sistemas operacionais mais utilizados (Windows, GNU/Linux, OS X, Android). Para Windows tem: Tajpi, EK, AdaptiloXP e o editor de texto Esperantilo. Para OS X você pode instalar um teclado em esperanto. No GNU/Linux você pode instalar um teclado em esperanto, além disso podes digitar as letras ĵ, ĉ, ŝ, ĝ e ĥ naturalmente através da combinação das teclas (j/c/s/g/h) + ^, a letra ŭ você digita com a combinação de teclas AltGr + Shift + \ mais u; também existe o programa SCIM que permite digitar as letras do esperanto e outros caracteres. Para Android existe o AnySoftKeyboard e o Multiling O Keyboard. E para sistemas de um modo geral há o site TypeIt.
Não consigo entender por que tem gente que critica as letras "diferentes" do alfabeto do esperanto, o português tem o ç, o espanhol tem o ñ, o alemão tem o ß, sem contar que praticamente toda língua tem um conjunto de acentos ou letras diferente do inglês - isso quando o alfabeto não é não-latino - e ninguém cria problema com isso, por que é diferente com o esperanto? Dizer que essas letras, que dão mais identidade a língua, são um empecilho, é uma inverdade, porque, caso não seja possível digitá-las, pode-se recorrer ao h-sistemo ou x-sistemo para representá-las.
| Letra | x-sistemo | h-sistemo |
| ĉ | cx | ch |
| ŝ | sx | sh |
| ĝ | gx | gh |
| ĥ | hx | hh |
| ĵ | jx | jh |
| ŭ | ux | u |
Com o esperanto não há preocupações com regras especiais e exceções, uma vez que a gramática da língua é regular e simples. Cada letra tem o seu som e isso nunca muda, ou seja, inexiste o problema de se ler uma palavra e não ter total certeza de como a pronuncia. Outro ponto positivo é o vocabulário, com 1 radical pode-se construir uma grande variedade de palavras através de afixos, como foi demonstrado no vídeo do Emílio Cid:
O esperanto tem 46 afixos, então... 1 nova palavra que você aprende x 10 terminações básicas do esperanto x 46 afixos x 46 afixos (cada palavra pode ter mais de um afixo ou até mesmo radical) = cada palavra que você aprende, você poderá formar mais 21160 palavras! Repare na lista de palavras acima que com apenas um sufixo, -ist-, foi possível fazer palavras de profissão; outra observação importante é o fato de construir uma palavra a partir de dois radicais, como foi o caso de "okulmezuri". Por isso que não é absurdo se afirmar que é possível escrever um livro com apenas 500 radicais.
Veja essa comparação:
| English | Português | Esperanto |
| Horse | Cavalo | Ĉevalo |
| Stallion | Garanhão | Virĉevalo |
| Mare | Égua | Ĉevalino |
| Foal | Potro | Ĉevalido |
| Colt | Corcel | Junĉevalo |
| Tooth | Dente | Dento |
| Teeth | Dentes | Dentoj |
| Dentist | Dentista | Dentisto |
Percebe agora porque o esperanto é tão fácil? No inglês e no português foram necessários usar radicais completamente diferentes para se referir a cavalos em diversos idades, gêneros e funções; o interessante é que existem mais nomes (completamente diferentes) para especificar a idade e gênero do animal, ou são simplesmente sinônimos das palavras já mostradas, como filly, yearling, gelding, suckling, weanling, etc. No outro caso uma palavra assumir três formas distintas para se referir a coisas relacionadas a dente! Não é necessário decorar mais de 4000 palavras para poder ler ou escrever um livro em esperanto.
É por conta de tudo isso que são necessários poucos meses para aprender esperanto, quem gastaria 4 anos para aprender inglês gastaria mais ou menos 4 meses para aprender esperanto.
O inglês é realmente uma língua muito importante para a comunicação internacional, além de possuir grande beleza na minha opinião. Afirma-se que existem 400 milhões de falantes de inglês como primeira língua, 400 milhões de falantes como segunda língua e entre 600 e 700 milhões de falantes como língua estrangeira, o que daria em torno de 21% da população mundial[↓]. Embora o número seja bastante expressivo, a realidade claramente mostra que não é possível se comunicar em qualquer lugar só com o inglês.
Muitas pessoas conhecem a língua inglesa, afinal em boa parte do mundo a língua inglesa é ensinada desde o ensino fundamental, mas, quantas pessoas sabem algo de inglês e quantas sabem realmente falar em inglês? Pode ocorrer do indivíduo conseguir apenas "se virar" com a língua, até manter uma conversa curta quando restrita a um determinado tema, mas não possuir vocabulário e desenvoltura para conversas cotidianas.
E importante dizer que o mundo todo não fala inglês, em número de falantes nativos o mandarim e o espanhol são superiores ao inglês [↓]. Se você for a um país desenvolvido não-anglófano e não estiver numa grande cidade, você terá dificuldade em encontrar alguém que saiba inglês na rua. Não tenho experiência pessoal e nem dados para sustentar essa afirmação, mas é isso que eu leio/escuto de pessoas que viajaram para outros países como França e Alemanha.
Apesar de ser uma língua relativamente fácil se comparado com o português ou mandarim, muito tempo e dinheiro são gastos para que o indivíduo adquira fluência na língua inglesa, para atingir a proficiência oral são necessários entre 3 a 5 anos e a proficiência do inglês academico toma cerca de 5 a 7 anos, isto nos melhores distritos de estudos da língua! [↓]. Pode-se dizer que são necessários mais ou menos 5 anos para se usar o inglês com fluência no dia a dia.
Por que não o esperanto que se pode aprender em poucos meses? Se o esperanto recebesse um terço da atenção e incentivo que o inglês ele conseguiria ter uma percentagem de falantes fluentes muito maior. O inglês não é adequado para ser a principal língua internacional porque ele carrega os problemas de toda língua nacional: não é neutro e muito menos igualitário.
Não adianta uma língua ter grandes qualidades se não for possível usá-la. Pessoas para conversar em esperanto existem aos montes, mas e quanto livros, revistas, filmes, softwares, etc?
Para quem diz que estudar esperanto é o mesmo que estudar klingon ou dothraki, uma pergunta: essas línguas tem milhares de livros publicados ou traduzidos[↓] como no caso do esperanto? Acho que não. No site da UEA (Universala Esperanto-Asocio) estão registrados mais 6000 livros para venda, a biblioteca Butler da EAB (Esperanto Association of Britain) contém mais 13000 livros, a biblioteca Hector Hodler contém cerca de 15000 livros e o Esperantomuseum contém mais de 30000 volumes. Além dos livros escritos originalmente em esperanto é claro que existem obras traduzidas para a língua, como: O Hobbit (J. R. R. Tolkien), a Bíblia, O Mercador de Veneza (William Shakespeare), etc. É verdade que não é 100% dos livros dessas bibliotecas que estão escritos completamente em esperanto (alguns podem estar parcialmente escritos em esperanto), mas mesmo assim há um bom número de livros.
Em outras mídias como TV e cinema não existe tanto material quanto em muitas línguas nacionais, até porque são mídias que exigem muito mais conhecimento técnico e dinheiro para serem produzidas. Mas mesmo assim algumas coisas foram produzidas, como por exemplo: o filme Incubus (1966), estrelado por William Shatner, e uma dublagem para o desenho Mazi en Gondolando.
Na internet o esperanto também tem seu espaço além dos sites que tratam exclusivamente da língua. Existem mais de 200.000 artigos em esperanto na Wikipédia[↓], o Google Translate conta com uma ferramenta de tradução do esperanto e, por último, mas não menos importante, em 2011 o New England Complex Systems Institute mostrou as línguas mais utilizadas para se referir a morte do Steve Jobs: o esperanto(0,8%) estava acima do tailandês(0,7%), alemão(0,6%) e dinamarquês(0,4%)[↓]!
O esperanto já foi usado em alguns trabalhos, eis a lista de parte deles:
Admito que o esperanto é bastante eurocêntrico no que diz respeito ao seu vocabulário, acontece que na época que Zamenhof criou a língua as línguas europeias eram sinônimo de línguas internacionais, tanto que isso se reflete hoje: as línguas europeias possuem muitos falantes nativos (principalmente porque as américas contribuem bastante com número de falantes) e estão melhor espalhadas pelo globo (o mandarim pode ter o maior número de falantes nativos, mas está praticamente todo concentrado numa único país).
Pra quem não está entendendo, algumas pessoas dizem que o esperanto é machista porque as palavras padrão são masculinas e as femininas são criadas através do sufixo -ino, como por exemplo "patro"(pai) e "patrino"(mãe), "ĉevalo"(cavalo) e "ĉevalino"(égua).
A medida que as épocas passam nossa consciência vai evoluindo, as reivindicações vão vindo com o tempo. É perfeitamente válido questionar essas características da língua, mas o esperanto foi criado há mais de 150 anos, o pensamento daquele tempo era outro, se Zamenhof tivesse nascido hoje a língua seria diferente, teria um vocabulário mais internacional e radicais neutros, mas será que hoje, apesar de toda consciência que temos a respeito da diversidade, não levamos em conta reivindicações que só aparecerão daqui a alguns anos? Acho improvável. Mas quem sabe?
Mas você sabe o que mais me irrita nesse ponto? As pessoas dizem que não usariam o esperanto por este ser demasiadamente eurocêntrico para no final se comunicarem através de uma língua europeia, mais precisamente a variante de um determinado país.
Vou usar um fragmento do livro O Desafio das Línguas: da má gestão ao bom senso, de Claude Piron. Um livro que eu recomendo que você leia.
“Mas o que quer que você diga, essa língua continua sendo artificial”, dizem-me com frequência. Pessoalmente, eu não percebo ali nada de artificial, sem dúvida porque eu estou às voltas com o esperanto desde a infância. Quando eu falo inglês, eu tenho muito mais a impressão de utilizar uma língua artificial. É natural para um inglês falar inglês, mas não para mim. É como se eu vestisse uma roupa talhada para um outro corpo que não o meu. O esperanto parece-me mais natural porque nele eu estou à vontade. A grande liberdade que rege a formulação do pensamento faz com que eu nunca esteja incomodado, ou pouco à vontade. O fato de que se tem um sentimento de segurança, porque se sabe que ali não há coisas aberrantes, torna a língua mais natural. Mesmo o francês é frequentemente, para mim, mais artificial. A ortografia, por exemplo. Eu verifico sempre no dicionário se personnalité leva dois n ou um só. Eu sei que há algo de incoerente na formação rationnel → rationalité, personnel → personnalité, mas eu nunca me lebro qual dos dois tem os dois n. Se o francês é uma língua natural, como se dá que eu não encontre naturalmente a resposta? Que eu não possa simplesmente seguir minha natureza? Eu não tenho jamais esse tipo de dúvida em esperanto. Outro exemplo, quando eu quero exprimir a ideia: “Bien que, si j’insistais, il finirait par céder” (Muito embora, se eu insistisse, ele acabaria por ceder), eu fico bloqueado por algo que eu sinto como artificial, eu não posso seguir minha natureza. Foi-me imposta de fora para dentro, por obrigação e, portanto, artificialmente, uma regra que diz: depois de bien que (muito embora) é preciso sempre usar o subjuntivo.
Eu começo então minha frase, e em seguida eu paro, bloqueado. Uma indicação de contra-mão aparece diante de finirait (acabaria) e eu me encontro diante de uma bifurcação: deve-se dizer finisse (acabe), ou deve-se dizer finît (acabasse)? Eu sinto essa dúvida como não sendo de forma alguma natural.
Eu tive a oportunidade de observar a linguagem de uma criança bilíngue esperanto-francês. Aos quatro anos, ela falava um esperanto absolutamente correto, mas um francês ainda muito distante da norma, como a maioria das crianças de sua idade. Se o esperanto não fosse natural, como explicar a maior desenvoltura daquela criança em uma língua que ela só falava com seu pai? Sua mãe, seus amiguinhos, seus vizinhos, os primos, o rádio, tudo isso falava francês durante todo o dia. Mas seu francês era muito pior: ele lhe vinha à boca menos naturalmente.
O argumento segundo o qual o esperanto seria artificial não me parece ser procedente. Ele tem além do mais o mofo de um bordão que se repete sem que se reflita a respeito. As pessoas que acusam o esperanto de não ser natural não hesitam em utilizar o artificial no dia-a-dia. Elas digitam suas correspondências num editor de textos. Elas comem pão, e não grãos de trigo. Elas se locomovem de automóvel. Elas sobem de elevador. Quando a mãe natureza dota os filhos delas com uma dentição irregular, elas mandam corrigi-la em um ortodontista, artificialmente.
Sinceramente me irrita esse argumento de que o esperanto não deve ser usado por ser uma língua artificial. O português também é uma língua artificial de certa forma, pois você não fala com perfeição o português formal, talvez quando está se policiando e tem um excelente conhecimento da gramática, mas o maior dos gramáticos falará um português vulgar quando exaltado.
Para terminar esta parte: a maior característica dos humanos é a artificialidade, praticamente tudo a sua volta é artificial, em maior ou menor grau. Até mesmo a forma como defecamos não é natural, é sério, pesquise sobre isso que você vai entender o que estou falando.
O que seria dar certo? Para mim o esperanto está dando muito certo. Basta entrar num grupo virtual sobre esperanto que você verá que a cada dia mais e mais pessoas se dispõem a aprender a língua e não se pode esquecer dos clubes onde esperantistas se encontram, se você mora numa cidade de porte médio ou grande são grandes as chances que nela exista algum grupo de esperantista, isso sem contar as pessoas que sabem esperanto, mas não frequentam clubes.
É importante lembrar que enquanto o inglês é ensinado em praticamente todas as escolas do mundo com o apoio de governos e instituições privadas fortes, o esperanto é divulgado apenas por esperantistas ou simpatizantes da língua, por isso que muita gente nem sequer o conhece.
Um único homem sem riqueza, fama e apoio de um estado com um exército criou uma língua que é falada por, na mais pessimista das expectativas, 10.000 pessoas no mundo, e os números só crescem. O esperanto é um verdadeiro sucesso!
A língua auxiliar por si só já questiona o uso, como língua franca, da língua da nação que "manda" no mundo, na minha opinião isso é mais do que o suficiente! Para ser sincero, me incomoda quando querem atrelar uma determina ideologia - por melhor intencionada que ela seja - a uma língua auxiliar, isso prejudica um pouco a neutralidade da língua. Isso é muito raro, mas já vi esperantistas discutirem porque um disse que o outro não é um verdadeiro esperantista por defender essa ideologia ou aquela instituição ou país, isso é muito chato, mas, como eu disso, isso é raro de acontecer, felizmente!
Bom, mas existe a interna ideo do esperanto. O que é isso? "A ideia interna do Esperanto é sobre um fundamento linguístico neutro derrubar os muros entre os povos e acostumar os homens a ver no seu próximo apenas um ser humano e um irmão", L. L. Zamenhof, 1912. Basicamente a ideia diz que os povos poderão se compreender melhor e se tolerarem mais se eles se compreenderem, o que seria possível com uma língua auxiliar como o esperanto. O esperanto por si só já traz discussões sobre quais tipos de línguas são usadas como língua franca.
Independente de ter uma filosofia por trás, o objetivo de uma língua franca/auxiliar é conectar as pessoas e quanto mais pessoas se conectando melhor. Uma língua mais fácil de ser aprendida, principalmente uma língua planejada como o esperanto, teria melhores resultados ao tentar alcançar esse objetivo se comparado a uma língua nacional.
Para finalizar: uma língua é uma ferramenta, podem dizer que aquela língual é da paz, que aquela religião prega o amor, que aquela ideologia defende a liberdade, mas tudo isso são coisas, são ferramentas, o que importa é o que pessoas farão com elas. Um esperantista pode ser contra a guerra, mas pode ser misógino; um cristão pode recitar mensagens de afeto, mas também pode incentivar o ódio contra os diferentes e por aí vai.
Para finalizar, não é a ferramenta que irá desenvolver o pensamento crítico de outras pessoas, mas sim outras pessoas e as idéias que essas outras pessoas expressam através da fala e escrita. A ferramenta por si só pouco pode fazer, apesar do esperando (mas olha só!) como língua auxiliar trazer um debate em relação ao uso de línguas nacionais como línguas francas.
Tudo bem que ninguém fala exatamente assim, mas é exatamente isso que muitos querem dizer! Resumindo: ninguém vai te impedir de aprender a língua que você quer!
Quando falamos em línguas adequadas para serem uma língua franca, o correto seria escolher a língua mais simples possível para facilitar o aprendizado, de forma que o maior número possível de pessoas de diferentes culturas possam se comunicar sem muita dificuldade, isso deveria ser o óbvio (vai me dizer que isso não é interessante?), mas infelizmente nem sempre as sociedades fazem suas escolhas com base no bom senso.
Se você gosta de desafios, nada e ninguém vai lhe impedir de aprender outras línguas, existem mais de 3000 idiomas no mundo e estão disponíveis muitas gramaticas e dicionários para aprender boa parte dessas línguas. Você tem que entender que nem todo mundo tem esse prazer em gastar meia década ou mais aprendendo um idioma.
Já discuti sobre a questão da cultura do esperanto, mas se o argumento não te convenceu: bom, basicamente a resposta deste questionamento é a mesma do questionamento anterior, você tem à disposição centenas de línguas para aprender com as mais ricas culturas, satisfazendo assim o seu desejo, mas vamos usar como língua franca uma que se aprenda em questão de meses porque as pessoas querem apenas se comunicar.
Muitos falantes de esperanto que conheço ou são poliglotas ou almejam sê-los. Eu, por exemplo, sou fascinado pela língua inglesa e eu adoraria estudar linguagens que sejam bem diferentes da minha, como: japonês, mandarim, árabe e russo. Eu vejo o estudo de línguas como um delicioso hobby, eu até faço alguns idiomas para os meus mundos fictícios. Infelizmente nem sempre tenho tempo para me dedicar aos idiomas.
Antes que você me cite um exemplo: é óbvio que existem pessoas radicais dentro do movimento esperantista, mas são uma minoria inexpressiva. Radicais existem em todos os movimentos, independente do tipo de movimento, seja religioso, político, ideológico, ou que for!
Não sei quais são essas falhas, mas nenhuma língua é perfeita. Nunca foi almejado que o esperanto fosse a língua mais lógica possível, mas sim ser uma língua auxiliar. O que importa é que dois esperantófonos podem conversar naturalmente como se usassem qualquer outra língua nacional.
Consigo conversar e ler livros em esperanto tranquilamente, é isso o que me importa e espero de uma língua, seja ela auxiliar ou nacional.
As pessoas tem medo de aprender o esperanto porque acham que 5 anos depois a "Academia" pode fazer algumas mudanças na gramática e vocabulário, invalidando parte daquilo que foi aprendido e publicado. Isso não vai acontecer! Por se tratar de uma língua planejada algumas pessoas se acham no direito de querer mudá-la, mas o esperanto já é uma língua pronta, você pode ler tranquilamente um livro escrito há mais de 100 anos atrás. Quem realmente quis aplicar "melhorias" à língua teve que criar uma língua derivada, o exemplo mais famoso é o Ido, que literalmente significa descendente.
Acho que quem diz isso não entendeu bem como funciona línguas auxiliares como esperanto. A ideia não é substituir as línguas existentes, na maior parte do seu tempo você falará a língua nativa do lugar onde você vive. Não é para você conversar com seus pais, vizinhos e amigos em esperanto, a não ser que seja por divertimento ou caso você de fato viva numa comunidade (ou família) multilinguística.
Se numa comunidade multilinguística onde o esperanto foi adotado apareceram gírias e novas expressões, as pessoas saberão que em um ambiente mais internacional deverá ser usado majoritariamente o “esperanto puro”.
??/??/2016