
No silêncio da noite imensa, escuto o cântico de minha alma: um cântico que vem de muito longe e traz consigo um sabor do infinito.
As coisas dormem e a voz canta.
Eu velo e escuto, porque a noite escuta comigo.
O mistério que existe em mim é o mistério das coisas: dois infinitos se olham, se sentem, se compreendem.
Lá embaixo, pela margem deserta, além da vida, o cântico responde, as sombras despertam e, das profundezas, todos os seres me estendem os braços: " Não temas a dor, não temas a morte; a vida é um hino que não tem fim ".
Eu os olho, e perdôo à sarça a inocente ferocidade de seus ásperos espinhos; perdôo à fera sua garra, à dor sua investida, ao destino sua angústia, ao homem sua inconsciente ofensa.
" Perdoa e ama " - diz o meu cântico.
E eis que ele possui uma estranha magia: os seres todos me olham, como doentes, e cai o espinho, a garra, a ofensa...
E, pouco a pouco, ignorantes e cheios de espanto, a magia os vence e comigo recomeçam o hino, lentamente: a harmonia se dilata, espalha-se e ressoa em toda a Criação.
Sobre cada espinho nasceu uma rosa, sobre cada dor, uma alegria, sobre cada ofensa, uma carícia de perdão.
Abro os braços ao infinito e os seres, em falanges, me estendem os braços.
" Canta " - dizem-me - " canta, cantor do Infinito; nós te escutamos. Teu cântico é amor, teu cântico é alegria, nós te acompanhamos. Teu cântico é a Grande Lei, é a grande festa da vida. Teu cântico é luz que afugenta o ódio e a dor. Canta, canta, cantor do Infinito ".
Meu corpo está cansado e eu canto. Meu corpo sofre e eu canto. Meu corpo morre... e eu canto.
Pietro Ubaldi - 1969
