Outro dia lendo Clarice Pinkola Estés encontreiuma forma muito lúcida e coerente de classificarlaços que unem certas pessoas.
Ela explica que temos uma família sangüíneae uma família psíquica.
A sangüínea nos é dada.
A psíquica obtemos através dos encontrosnaturais, por identificação.
E ambas carregam muita força em seus laços.
Bem, eu tenho as duas.
E ambas são muito fortes.
Tenho muitos irmãos.Sete sangüíneos.Doze ou treze psíquicos.
Estes eu fui ganhando ao longo da vida, nasesquinas, nos esbarrões casuais.
Um a um eles foram chegando e fazendoparte do meu mundo.
Mal eu me dava conta e eles estavam lá eeram parte do meu dia-a-dia, de minhaspreocupações, de minhas preces.
É uma relação de amor.Baseada em amor e espontânea, natural eforte.
Outro dia eu perguntei a uma amiga se suaanalista já me "conhecia", se eu já tinha estadoem suas sessões e ela me respondeu sorrindo:
"não tem como não conhecer, não é? É natural."
É sim. É natural.Ela não mora na mesma cidade que eu.
Boa parte de meus amigos-irmãos moramdistantes.
Não nos vemos todos os dias, às vezespassamos muito tempo sem podermos nosencontrar, mas não faz diferença.
Burlamos as leis e os códigos ereduzimos as fronteiras.
Estamos juntos, ligados.Nas viagens e em cada paisagem, nos brindesque erguemos, no analista, no supermercado.
Nos momentos de tristeza e de alegria.
Todos lá, alternando conforme a identificaçãoparticular.
Cada um têm seu espaço e todos a mesmadimensão.
Há que diga que isso é bobagem ousentimentalismo piegas.Paciência.
Eu lamento por todas as pessoas que nãoconseguem encontrar semelhantes, amigos,irmãos psíquicos, ou como se queira denominar.
Mas entendo. Não é fácil isso.
Às vezes estamos tão ocupados em ordenar ocentro do nosso umbigo
que temos a ilusão - tola, banal - de quedevemos fidelidade e amor
apenas àqueles com quem temos laçossangüíneos.
José Luís Borges afirma a amizade é osentimento mais nobre que existe.
Paulo Sant'Ana complementa e diz quepoderia suportar, embora não sem dor, quetivessem morrido todos os seus amores, masenlouqueceria se morressem os seus amigos.
Eu concordo.
Chamo meus amigos de irmãos. É o que elessão.
Cada um tem uma história especial deencontro comigo,
cada um chegou em meu mundo de uma formadistinta e sem aviso prévio.
Mas vieram para ficar.
Alguns talvez nem façam idéia do quãoconcretos são em meu cotidiano.
Penso neles. Oro por eles, por suas vidas, peloseu bem estar.
Me alegro e me entristeço neles.
E, de vez em quando, sinto uma necessidadevisceral de lembrá-los o quão amados são.
Sim, porque em certos dias cinzentos,nebulosos e frios, faz uma enorme diferença terlenha para aquecer o coração.
E nunca é demais uma lembrança de que se é amado.
Não espero nunca respostas. Mas elas semprevêm.
Amor em dobro. Embrulhado para presente.
E percebo - com um prazer indescritível - o quantoeu também perambulo,
livre e constante, por seus mundos.E isso me esquenta a alma.
E prossigo, mais feliz, por tê-los.
A crônica hoje é deles.
Eles sabem o que as palavras significampara mim e doá-las é o minha expressãomáxima.
Escrevo melhor que falo, esinto melhor que escrevo.Eles sabem disso.
Sintam-se abraçados e amados.
Como sempre.
Para sempre.
Maine Virginia Carvalho