Os nus e crus

Brutalidade sem enfeites na boa
estréia de Tata Amaral

Paulo Moreira Leite

    Alleyona e
Vespúcio:
revólver e
ovo frito
  Foto: Divulgação    

Um Céu de Estrelas (Brasil, 1996), de Tata Amaral, é um filme sobre gente com pouco charme e nenhum dinheiro. Os personagens principais são um metalúrgico que virou bandido e sua namorada, uma cabeleireira que vai tentar a sorte num concurso da categoria em Miami. O cenário é uma asfixia -- um único ambiente, um apertado apartamento num bairro operário de São Paulo. O filme é uma seqüência bruta. Um assassinato violentíssimo, sem enfeites, com sangue em jorros horrendos. Um Céu de Estrelas também tem sexo -- muito sexo, até --, num amor de quem precisa matar a fome, e não escapar do tédio.

Aos 36 anos, em seu primeiro longa-metragem, Tata Amaral filma uma situação selvagem com mão delicada, sem comentários, culpas ou explicações. Começa sua história num ritmo estranho, lento, que evolui aos saltos. O filme convence tanto quando Vítor (Paulo Vespúcio Garcia) dispara seu revólver como na hora em que Dalva (Alleyona Cavalli) vai à cozinha para fazer um tremendo ovo frito que o casal vai comer misturado com arroz. Por motivos compreensíveis, marginais e marginalizados são um tema conhecido do cinema brasileiro. Só nos anos recentes, foram exibidos Como Nascem os Anjos e Quem Matou Pixote. A maioria desses filmes costuma desumanizar seus personagens, para empregá-los não como pessoas de carne e osso, mas como parábolas sociais. Um Céu de Estrelas faz a opção por apresentá-los com vida própria e desesperada.

http://www2.uol.com.br/veja/110697/p_126b.html

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