Segredos do Poder narra a
ascensão de Clinton
entre manobras eleitorais e aventuras de alcova
Eurípedes Alcântara, de Nova York
O fato de Segredos do Poder (Primary Colors, Estados Unidos, 1998) ter sido um retumbante fracasso de bilheteria entre o público americano não deve ser levado muito em conta. Certas verdades profundas sobre a sociedade em que se vive, especialmente quando expostas de forma autêntica e vívida, não são percebidas. Nos testes com audiências selecionadas feitos pelos produtores deste filme, apenas 3% dos entrevistados viram "semelhanças claras" entre os personagens principais e Bill Clinton e a primeira-dama Hillary. Só um em 100 percebeu, acima de qualquer dúvida, que o filme era a adaptação para o cinema de um livro escrito há dois anos sobre os bastidores da campanha eleitoral que levou o casal Clinton ao poder em 1992. Não foi por acaso que o filme, que entra em cartaz nesta sexta-feira em circuito nacional, saiu de fininho dos cinemas americanos.
Para que não fique dúvida na cabeça do público brasileiro, saiba-se que Jack Stanton (John Travolta) é Bill Clinton, e Susan (Emma Thompson) é Hillary. Ao redor deles circula uma controversa fauna humana, personagens imersos numa trama de verdades tão desconcertantes que só a ficção pode contar. O filme é melhor do que o livro em que se baseia, que é melhor do que tudo que a imprensa escreveu sobre a ascensão ao poder do casal Clinton. Quem não conseguiu passar do segundo parágrafo das reportagens sobre as horas extras sexuais do presidente dos Estados Unidos e as manobras dos aliados para encobri-las vai encontrar uma completa e engraçada síntese na tela. Segredos do Poder, baseado no livro Cores Primárias, já editado no Brasil, é o que se convenciona chamar de romance "à clef" — ou seja, uma história em que personagens de carne e osso aparecem com nomes falsos. O livro foi escrito anonimamente por Joe Klein, enquanto era colunista da revista Newsweek. Descoberta sua identidade, Klein foi demitido. Sete milhões de dólares mais rico com a venda dos direitos para a edição do livro e para o cinema, ele escreve agora para a revista New Yorker. É o que se pode chamar de um jornalista de recursos.
Muito do magnetismo de Segredos do Poder se deve à habilidade do diretor Mike Nichols, o mesmo de A Primeira Noite de um Homem e Ardil 22. Nichols, casado com Diane Sawyer, dama de ferro do telejornalismo americano, é amigo de longa data dos Clinton. Talvez por isso o filme nunca descambe para o escárnio. Tem aquela temperatura de fundo, respeitosa e ao mesmo tempo engraçada, de quando se contam em família as trapaças e aventuras conjugais de um avô muito querido e já morto. Nichols não expõe os podres de nenhum de seus personagens antes que o público possa ter a chance de examiná-lo e, em muitos casos, de se afeiçoar a ele. Teve a sábia intuição de descartar Liam Neeson e Tom Hanks, atores mais cotados para o papel principal. Hanks talvez fizesse um Stanton/Clinton mais verossímil. Neeson, um mais denso. John Travolta fez um inesquecível.
Ele engordou 20 quilos para preencher o mesmo espaço que Clinton/Stanton ocupava dentro dos ternos mal cortados do então governador de um pequeno Estado do sul do país. Os cabelos grisalhos, a simpatia gestual, o olhar de derreter geleiras são os mesmos do presidente americano. Como por mágica, enxerga-se Bill Clinton na tela. Transmutação quase tão convincente quanto a de Ben Kingsley vivendo Mahatma Gandhi no épico dirigido por Richard Attenborough em 1982. Stanton/Travolta/Clinton é um político mulherengo, demagogo e idealista, candidato a candidato à Presidência que quer chegar ao topo mesmo que isso implique antes descer ao porão. "Ele se convenceu de seu enorme poder de sedução. Isso o atrai para o perigo, pois sabe que sempre poderá escapar", diz Travolta de seu personagem. Tem sido assim a crônica sentimental de Clinton na Casa Branca.
Sinceridade de dentista — "Ninguém quer ver as diferenças, mas garanto que a história contada no filme não se seguraria se fosse literalmente sobre a vida dos Clinton", disse o diretor Nichols na estréia, com uma sinceridade de dentista falando de vacina contra cárie. Se fossem apenas Travolta e Emma Thompson, que vive uma Hillary Clinton ainda mais gélida do que a original, seria possível acreditar em Nichols. Mas os outros membros da turma também são recriações de gente de verdade. Billy Bob Thornton, que interpreta o personagem Richard Jemmons revive na tela o assessor presidencial James Carville, caipira, comedor de feijão, bebedor de uísque e esperto como uma serpente. O jovem ator inglês Adrian Lester é Henry Burton, talvez a única alma pura de todo o grupo que cerca o candidato. Burton é descendente de negros. O descendente de gregos George Stephanopoulos, peça-chave da campanha de Bill Clinton na vida real, se reconheceu em Burton. Gennifer Flowers, a ex-cantora de cabaré, estopim do primeiro escândalo sexual de Clinton, também está no filme como a cabeleireira Cashmere McLeod. Há muitos outros.
O filme entrou em cartaz nos Estados Unidos duas semanas depois de estourar o último escândalo envolvendo o presidente, a acusação de que teve um caso amoroso com uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky. Ao contrário do que imaginavam os executivos da Universal, o "caso Lewinsky" não aumentou a curiosidade sobre o filme. A abundância de detalhes expostos na imprensa diariamente sobre a incontrolável libido do presidente empalideceu a força da sátira política dirigida por Mike Nichols. Talvez este seja um daqueles filmes que no futuro merecerão uma reavaliação. Não apenas pela extraordinária radiografia que faz do processo político eleitoral americano, mas por ter os ingredientes com os quais os grandes filmes são feitos. Segredos... tem coração, consciência e um ponto de vista franco, que se revela quando a história se aproxima do fim e a leveza da comédia dá lugar a um drama humano profundo e amargo vivido pela excelente Kathy Bates.
http://www2.uol.com.br/veja/270598/p_164.html