Jodie Foster, cientista de fé,
mostra que
há vida inteligente na ficção científica
Geraldo Mayrink
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Foster na geringonça espacial: contato sideral, solidão terrestre |
| Warner Bros |
Que ninguém duvide: os extraterrestres não estão entre nós para fazer turismo, mas para ficar. Gostaram da Terra, não se sabe por que, mas desconfia-se que não passam de assalariados contratados por Hollywood para encher as salas de cinema. Contato (Contact, EUA, 1997) aterrissa na onda de homenzinhos verdes e cruéis que assola o cinema. Nesse sentido, é uma decepção. É também sua vantagem sobre uma concorrência cada vez mais numerosa, vulgar e espalhafatosa. Pois não há um único ET em cena nas quase duas horas e meia do filme que Robert Zemeckis extraiu do romance do astrônomo Carl Sagan. Em compensação, fala-se de Deus e do diabo, de religião e ciência, de orfandade e família. Mais: o "contato" tão esperado se dá não através da incompreensível parafernália eletrônica entronizada nesses filmes, mas por antenas de rádio. O velho rádio de ondas curtas e médias, como na era de um dos filmes de Woody Allen.
O engenho e arte bolado por Sagan e desenvolvido por Zemeckis é de uma simplicidade encantadora. Jogadas no espaço, as mensagens radiofônicas, de jogos de futebol aos rocks de Elvis Presley, de John Kennedy a Adolf Hitler, vão perdendo nitidez até repousar em algum receptor não se sabe onde. Quem sabe um dia não serão devolvidas? Solitária diante de seu equipamento de radioamador, a pequena Eleanor Arroway (quando crescer, será Jodie Foster) só pensa nisso. O pai, viúvo, mostra-lhe as estrelas e a incentiva. Mas ele morre cedo, do coração, e a menina se sente culpada por não tê-lo socorrido a tempo. "Preciso de uma antena maior", decide ela, mais sozinha que nunca, disposta a voar para muito mais longe.
O tempo passa
A doutora Arroway ganha todas as antenas, um namorado teólogo, Palmer Joss (o
bonitão Matthew McConaughey), um chefe brilhante e oportunista, David (Tom
Skerritt), e um patrocinador misterioso, bilionário e ambicioso, Hadden (o
grande John Hurt, irreconhecível sem cabelos, mas impressionante na sua pronúncia
inigualável numa voz de trovão). A charada não tem segredos, e nisso está
sua força. Quando os maravilhosos ouvidos da doutora captam pancadas sonoras no
espaço, "que não podem ser de origem natural", e ela percebe que
esses ribombos expressam uma seqüência de números primos, Contato tece
rápido sua teia de filme de aventura. Daí à decifração de um hieróglifo
que é a receita de uma máquina para viajar no tempo, o filme diz a que veio.
É a batalha dos gananciosos contra os cientistas, quem vai construir a máquina
e a que preço, que países vão mandar nela e, principalmente, quem será seu
único passageiro
nunca, se depender dos mandões, a doutora Arroway, que tem fé na técnica, mas
não em Deus.
O filme é algo lento para o gênero (não é um defeito, só uma característica), cheio de nuances espirituais e carnais, e só cede ao cine-fliperama de efeitos espetaculares na parte final. Investe mais em sutilezas de diálogo, no caráter dos personagens e na qualidade do elenco, no qual Jodie Foster brilha no papel de um gênio sideral no corpo e no olhar de uma mulher bonita, dura e triste, miseravelmente terrestre. Zemeckis confirma sua fama, em parte justa, mas na verdade extravagante, de ser o Alain Resnais americano, tal a obsessão pelo passar do tempo que une o diretor de Ano Passado em Marienbad a filmes como De Volta para o Futuro, Forrest Gump e Contato. Sem a grossura de Independence Day, mas também sem o humor de Marte Ataca, o filme de Zemeckis é um bom meio-termo, com suas antenas ligadas num mundo afinal não tão distante, o da vida inteligente na ficção científica.
http://www2.uol.com.br/veja/170997/p_129.html