Ação pela metade

Spielberg mostra a guerra como nunca se viu,
mas enche lingüiça como numa novela das 8

Okky de Souza

Desembarque na
Normandia: vísceras
e corpos mutilados
em cenas brutais
Fotos: Paramount Pictures and Dreamworks  

A nova produção do diretor americano Steven Spielberg vai na contramão dos filmes de entretenimento, em que a história fica cada vez mais emocionante e termina com um grande clímax. Em O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, Estados Unidos, 1998), em cartaz em circuito nacional a partir desta sexta-feira, o momento grandioso vem logo no início. O final, em contrapartida, mostra uma das cenas mais aparvalhadas que se tem visto nas telas. No recheio, como numa novela das 8, há várias passagens que parecem feitas apenas para encher lingüiça. Mas atenção: nada disso faz de Ryan um filme ruim. Está-se falando aqui de um produto com a griffe Spielberg, um diretor que, mesmo quando erra a mão, como em sua produção anterior, Amistad, é capaz de oferecer ao público imagens estonteantes e um cinema muito acima da média de Hollywood. A questão é que sempre se espera dele aventuras fantásticas que toda a família adora, como a série Indiana Jones e Parque dos Dinossauros, ou filmes que despertam emoções profundas, como A Lista de Schindler e Império do Sol. Ryan não é uma coisa nem outra. É uma fita de guerra no sentido clássico, com muitas virtudes mas sem cacife para se inscrever entre os melhores do gênero.

O Resgate do Soldado Ryan começa com um soco no estômago do espectador. Um soco profundo, dolorido. Durante quase meia hora, como num videoclipe sem roteiro mas cujas imagens falam por si mesmas, Spielberg recria o desembarque das tropas americanas na praia francesa de Omaha, Normandia, no famoso dia D da II Guerra Mundial. Na vida real, esse ataque aliado, simultâneo a outros três em praias diferentes, marcou o início da vitória sobre a Alemanha. Ele provocou também um combate extremamente sangrento. Em questão de minutos, desembarcando a pé numa praia repleta de barricadas e fortificações alemãs, os americanos sofreram 2.400 baixas. Os que restaram, porém, conseguiram dizimar o inimigo encastelado. A recriação do episódio feita por Steven Spielberg é de um realismo assustador. Colocando suas câmeras na posição dos olhos dos soldados, ele mergulha o espectador num redemoinho infernal de tiros e explosões, corpos mutilados e rostos torturados pela dor. A certa altura, um recruta põe a mão na barriga e segura as próprias vísceras. Close. Na seqüência, um outro perambula segurando seu braço separado do corpo. Para fugir das balas alemãs, vários soldados mergulham no mar e acabam se afogando com o peso do equipamento grudado ao corpo — a câmera vai junto para mostrar tudo de perto. Jamais o cinema mostrou uma frente de batalha com tamanha brutalidade. "Minha intenção foi colocar o espectador no centro do horror, como se fosse um personagem", declarou Spielberg. Sem dúvida, ele conseguiu.

Damon como
Ryan: ator e
personagem
perdidos

Depois dessas cenas memoráveis, começa o filme propriamente dito, e também suas fraquezas. O capitão Miller (Tom Hanks), um dos sobreviventes da invasão, recebe uma missão espinhosa. Ele e sete de seus comandados deverão penetrar no território francês ocupado, numa região repleta de nazistas, para encontrar, resgatar e mandar para casa um certo soldado Ryan (Matt Damon), perdido ao saltar de pára-quedas. Ryan é um ninguém, um soldado raso como outro qualquer. Ocorre que seus três irmãos já foram mortos em batalhas e, segundo o código de ética do Exército americano, em casos como esse o irmão sobrevivente deve ser retirado da guerra para que os pais não percam toda a prole de uma só vez. A partir daí, a fita se resume à longa caminhada de Miller e seus homens França adentro. Spielberg começa a definir para o espectador o perfil de cada um no grupo: há o arruaceiro, o compenetrado, o brincalhão e o medroso, que só segue com a turma para servir de tradutor. Em raros momentos, porém, esse choque de personalidades é explorado pelo diretor. Os soldados caminham, matam alguns alemães, dormem numa igreja, voltam a andar, reclamam do desconforto, caminham ainda mais e nada acontece. Pelo menos, nada que lembre a vibração dos momentos iniciais do enredo. O único fio de interesse que sustenta a atenção do público é a pergunta óbvia: eles encontrarão Ryan? Mesmo assim, quando a resposta finalmente vem à tona, as situações dramáticas que dela decorrem são previsíveis.

Destruição no
interior da França:
batalha burocrática

O Resgate do Soldado Ryan, na verdade, sofre de um tipo comum de esquizofrenia cinematográfica. Em parte, a obra é deliberadamente ufanista, embebida de um patriotismo que chega às raias da pieguice. A bandeira americana tremula na tela, soberana, no começo e no final. Personagens citam grandes vultos da História do país, como Lincoln e Emerson, com a empostação de um Tony Bennett à beira do palco. Exatamente como nos filmes do gênero feitos durante e logo após a II Guerra. Por outro lado, Spielberg inscreve seus principais personagens na linha contemporânea das películas realizadas durante e depois do conflito do Vietnã: os soldados não estão nem aí para a grandeza da pátria. Admitem estar naquele inferno por obrigação, querem acabar o serviço rapidamente e encaram tudo com uma ponta de sarcasmo. "Por que estamos arriscando nossas vidas por causa de um soldado qualquer?", perguntam freqüentemente os comandados do capitão Miller, sem esconder a revolta. "É bom que, se acharmos Ryan, ao voltar para casa ele faça algo útil, como inventar um novo tipo de lâmpada", ironiza o próprio Miller. O espectador se pergunta que história, afinal, Spielberg quer contar. Próximo ao final, uma nova batalha campal, encenada numa cidadezinha destruída do interior da França, tenta levantar o ânimo da platéia. Dessa vez, porém, a luta é burocrática, em nada lembra aquela das primeiras cenas. Salva-se pelo estilo Spielberg de pregar sustos. O diretor já fez tubarões e dinossauros surgirem na tela como se fossem engolir o público — desta vez são os tanques de guerra que parecem prestes a passar sobre sua cabeça.

Relíquias — Como ocorre em todo filme de Spielberg, a produção de Ryan envolve cifras e soluções impressionantes. Na seqüência da invasão da Normandia, os corpos mutilados são mais uma travessura dos computadores da Industrial, Light & Magic, empresa de efeitos especiais de George Lucas. Os figurantes, porém, são de verdade: nada menos de 3.000 deles aparecem nas cenas. Para desenvolver seus personagens, Tom Hanks e os soldados de seu grupo foram obrigados a fazer um treinamento a que astro nenhum está acostumado. Chefiados pelo ex-oficial Dale Dye, que hoje presta consultoria a Hollywood, eles passaram dez dias em condições idênticas às de seus personagens na fita. Alimentando-se apenas de rações militares, fizeram caminhadas intermináveis carregando o pesado equipamento nas costas, dormindo apenas três horas por noite em tendas desconfortáveis. Alguns dos atores, como Tom Sizemore, que interpreta o bonzinho sargento Horvath, se irritaram e quiseram desistir no meio do treinamento. Tom Hanks, porém, no papel de bom moço de plantão do cinema americano atual (veja quadro), encarregou-se de contornar os atritos. A quem gosta de curiosidades sobre a produção de filmes, Ryan também oferece um prato cheio delas. Para editar a seqüência do desembarque na Normandia, de pouco menos de trinta minutos, Spielberg filmou doze horas de tiros e explosões. Os tanques e outros veículos militares que aparecem na tela são de verdade, usados na II Guerra e recuperados para as filmagens. As botas dos soldados saíram da mesma fábrica que as produziu naquela época. Das 2.000 armas, 500 eram relíquias de guerra e as demais, de borracha. Com tanto cuidado e capricho, é pena que não se possa colocar O Resgate do Soldado Ryan entre as melhores obras de Steven Spielberg.

O novo rosto do herói americano

Hanks, como o
capitão Miller:
o bom moço de 15
milhões de dólares

Assim como John Wayne nos filmes de guerra e faroestes de antigamente, Tom Hanks vem se especializando em encarnar o papel do grande herói americano. Primeiro, viveu o personagem-título de Forrest Gump, uma parábola sobre a vitória conseguida pela obstinação. Depois, foi a vez do astronauta de nervos de aço em Apollo 13. Agora, em O Resgate do Soldado Ryan, ele brilha como o capitão que se embrenha em território nazista para levar de volta à pátria um companheiro perdido. Para Hanks, 42 anos, papéis como esses caem como uma luva. Desde seu primeiro grande sucesso nas telas, Big Quero Ser Grande, de 1988, vem construindo uma imagem diferente daquela a que se costuma associar os astros do cinema. Ele é o protótipo do bom moço, aquele que toda mãe gostaria de ter como genro. Até porque ele vale ouro no sentido literal. Seu cachê hoje está na faixa dos 15 milhões de dólares por filme, assim como o de Jack Nicholson. Ao contrário de Nicholson, porém, ele é incapaz de gestos de estrelismo ou de declarações politicamente incorretas. Hanks vem se tornando uma espécie de namoradinho da América. "A maioria dos atores faria tudo para conquistar essa boa imagem", desafia.

Todo esse sucesso é uma vitória pessoal de Tom Hanks, um filho de cozinheiro de lanchonete que lutou muito para escalar os degraus escorregadios de Hollywood. Hoje ele tem dois Oscar na estante, por Filadélfia e Forrest Gump. Sua indicação para mais uma estatueta, por O Resgate do Soldado Ryan, é dada como pule de 10 no mundo do cinema. No início dos anos 80, Hanks participou de inúmeros filmes fracassados e fez pontas em seriados de TV. Hoje, pode escolher os personagens que quer fazer. Recentemente, recusou viver um papel inspirado no presidente americano Bill Clinton em Segredos do Poder, que afinal foi para John Travolta. E mais: Hanks só assina contrato para um filme se as cláusulas previrem que ele poderá dar palpites em todo o processo de produção e filmagem. Fitas românticas como Sintonia de Amor, que estrelou com Meg Ryan em 1993, por exemplo, não constam de seus planos futuros. Ele diz achar os filmes de amor uma farsa. "O mocinho beija a mocinha enquanto está pensando apenas na hora do almoço, e ela em seu próximo contrato", explica. Integridade é isso aí.

http://www2.uol.com.br/veja/090998/p_132.html

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