A cara do pai

Finalmente, em O Ouro de Ulisses, Peter Fonda
brilha num papel que lembra o velho Henry

Quem diria! Depois de 35 anos de carreira Peter Fonda finalmente se tornou um bom ator em O Ouro de Ulisses (Ulee's Gold, Estados Unidos, 1997), em cartaz em circuito nacional. Sua indicação para o Oscar deste ano e a premiação com o Globo de Ouro foram mais do que merecidas. Peter Fonda, 58 anos, era mais um ícone da contracultura — por causa de sua participação no legendário Sem Destino (Easy Rider), de 1969 — do que um ator. Em todos os filmes que fez nos últimos trinta anos primava pela canastrice. Em O Ouro de Ulisses vemos um Peter Fonda mais próximo do pai, o grande Henry Fonda. Há em sua interpretação traços da contenção que eram a marca registrada do patriarca da família. Claro que quem nasceu para Peter nunca irá chegar a Henry, da mesma forma que o esforçado Michael nunca conseguiu ser tão bom quanto o classudo Kirk Douglas. Mas já é um avanço, e o ator pinta, nesta fita, um retrato tocante de um homem amargurado.

Ulee, o personagem do filme, é um cinqüentão que jamais se recuperou da morte da mulher e da prisão do filho, detido por roubo. É um homem desiludido e de poucas palavras, que se limita a cuidar de abelhas e das netas adolescentes que vivem com ele. Chantageado por bandidos que seqüestram sua nora, uma drogada aparentemente incurável, o pacato Ulee se vê convertido, de uma hora para outra, numa espécie de herói de faroeste. Essa virada é a grande dificuldade do papel, e o ator a realiza de forma convincente. Na tela, a semelhança física de Peter com o velho Henry é assombrosa. Em seu livro de memórias, Don't Tell Dad (Não Diga ao Papai), recém-lançado nos Estados Unidos, Peter conta que se reconciliou com a memória de Henry. Ele não tinha um bom relacionamento com o pai, que só em seu leito de morte conseguiu dizer ao filho que o amava. No ranking do clã dos Fonda, Peter era o último colocado, atrás não apenas do pai mas também da irmã, Jane, e até da própria filha, Bridget. Depois do bom desempenho em O Ouro de Ulisses, ele já pode aparecer nos jantares em família sem se sentir tão inferiorizado.

http://www2.uol.com.br/veja/260898/p_121a.html

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