Pouco inspirado, Spielberg solta suas feras
e vai à luta para recuperar o velho prestígio
Geraldo Mayrink

Fotos: Universal Studios / Amblin
O Tyrannosaurus rex de 10 toneladas: um astro de
verdade entre humanos de baixa categoria
Aos 50 anos, Steven Spielberg virou um menino-problema. Seu reinado como menino prodígio já dura um quarto de século e pouca gente na indústria do cinema juntou tantos brinquedos caros (quer dizer, um patrimônio pessoal de 1 bilhão de dólares, nas contas da revista Forbes) quanto ele. Estava à toa fazia três anos, desde que dirigiu Parque dos Dinossauros, e passava o tempo contando cada moeda que pingava no seu cofrinho gigante por conta do faturamento desse filme, uma das maiores bilheterias de todos os tempos, 913 milhões de dólares. "Foi quando percebi quanto estava me fazendo mal ficar longe das câmaras", disse ele repetidas vezes na maratona de entrevistas que está dando de um mês para cá para promover sua volta ao batente, O Mundo Perdido -- Jurassic Park (The Lost World -- Jurassic Park, EUA, 1997).
Seus fãs esperavam ansiosos por esse momento. No dia da estréia americana, há pouco menos de um mês, deixaram nas bilheterias 26 milhões de dólares espalhados em 3.281 salas. Era o aviso de que o dono do filme deveria providenciar mais um cofrinho gigante. Em sete dias, O Mundo Perdido rendeu 102,4 milhões de dólares nos Estados Unidos. Custou 75 milhões, uma ninharia diante do que foi torrado nos filmes que disputarão a bilheteria com ele no segundo semestre, como Velocidade Máxima-2 (140 milhões) ou Titanic (200 milhões). E sua carreira está apenas começando.
Então, qual é o problema? Ele pode ter mais de uma face, e a primeira e a mais cruel é que a fonte da juventude onde Spielberg sempre bebeu pode estar secando. Outra é que o sucesso de O Mundo Perdido era tão previsível quanto o próprio filme. Uma terceira é que Spielberg, sempre acusado de incapaz de dirigir filmes "adultos", já tinha seu Oscar por uma obra poderosa e sombria, A Lista de Schindler, mas não ousou achar nada melhor do que o velho e seguro parque de diversões para inspirar seu reencontro com a câmara. Além disso, seus produtores, bilionários, resolveram economizar dinheiro. No elenco, sempre com atores baratos, e também na produção. Não há outra palavra para classificar a seqüência inicial, em que uma família inglesa faz um piquenique naquela ilha fatal, a não ser indigência. "Nosso filme custou pouco porque foi planejado com rigor. Nada que não tivesse chance de entrar na montagem final foi rodado", informa a produtora executiva Kathleen Kennedy. Inspiração súbita na hora de filmar, portanto, nunca mais. Enfim, é a reengenharia fazendo estilo em Hollywood.
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Moore e Goldblum: apertos da gralha e do canastrão |
A verdade é que o diretor, inspirado ou não, se esforçou pouco para valorizar o roteiro pobre que lhe foi fornecido por David Koepp, baseado num esboço ainda mais ralo de Michael Crichton, o criador dos parques jurássicos. Voltam personagens do outro filme. O cientista John Hammond (Richard Attenborough) pede que o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) e sua namorada, a paleontóloga Sarah Harding (Julianne Moore), voltem à Ilha de Sorna para documentar a vida dos bichos lá. Mas o sobrinho do cientista, Peter (Arliss Howard), tem outros planos: capturar dinossauros vivos para vendê-los a zoológicos. Depois de uma conversa fiada que parece não ter fim, duas equipes, uma do bem e outra do mal, desembarcam na ilha e o filme finalmente começa.
Começa também o triunfo do reino animal sobre o humano, em todos os sentidos. O papel dos atores é tão secundário que só isso pode justificar a presença em cena do canastrão Jeff Goldblum (cuja única performance notável foi transformar-se num inseto repugnante em A Mosca) ou da tagarela Julianne Moore, com sua voz de gralha. A fauna, nota-se, é exuberante. Em vez das cinco espécies extintas mostradas no filme anterior, agora são nove, incluindo adoráveis minidinos que comem bolacha na mão das pessoas mas são capazes de devorá-las a bicadas. Os mais grandalhões, da medonha espécie Tyrannosaurus rex, são artefatos de borracha com olhos brilhantes pesando 10 toneladas.
Atrás do prejuízo -- A novidade é que agora eles merecem closes, que revelam suas intenções. Um deles, o astro do filme, uma fêmea que provoca hecatombes para proteger sua cria, acaba sendo dopado e levado para uma cidade grande, onde urra no alto de um morro contemplando as luzes. Sessenta e quatro anos depois, um descendente do grande King Kong está de novo barbarizando na selva do asfalto. Como rei do pedaço, ele esmaga automóveis e bebe água nas piscinas das casas de luxo. São todas dele, do meio do filme em diante, as cenas mais movimentadas e divertidas de O Mundo Perdido.
Ao contrário do gorilão King Kong, que tinha personalidade e classe, os dinossauros não têm caráter nem modos. São máquinas de matar que vão devorando o que aparece na sua frente, inclusive o coração do diretor, que comoveu o mundo em tantos filmes. Técnico supremo, Spielberg conduz tudo como deve ser conduzido, mas em nenhum momento emociona. O humor, outra característica comum em personalidades geniais, reduz-se a piadas de dar dó. Num dos vários clichês de filmes de aventura mostrados mais uma vez, quando Ian e Sarah estão presos dentro de um furgão dependurado num abismo, alguém lá em cima pergunta se eles precisam de alguma coisa. "Um filé com fritas", responde Ian.
Cobram-se emoção, inteligência e graça de Spielberg pelo mesmo motivo que não se deve cobrar de brutamontes dos filmes de ação como Simon West (de Con Air) ou Luc Besson (de O Quinto Elemento), por exemplo. Cada filme dele é um acontecimento e os dos outros são acidentes, ossos do ofício. Pai de sete filhos, com suas barbas grisalhas que lhe dão o ar de um profeta de boné, Spielberg anda dizendo agora que não quer mais saber de vida mansa. Por isso, antes mesmo que a cachoeira de moedas de O Mundo Perdido começasse a jorrar, ele já estava dirigindo Amistad, história verídica de uma revolução de escravos ambientada em Porto Rico em 1839. No fim do ano começa, na Europa, Saving Private Ryan, com seu amigo Tom Hanks, no cenário da II Guerra Mundial. "Passei três anos levando a filharada à escola e o máximo que fiz em direção foi transformar-me em motorista de lotação. Agora, chega", ele promete. Seus admiradores torcem para que seja verdade. Afinal, a vida pode recomeçar aos 50.
http://www2.uol.com.br/veja/180697/p_152.html