O mau ladrão

Pilhagens de Brian De Palma não dão resultado

O diretor Brian De Palma é uma espécie de salteador do cinema. Gosta de encher suas obras de referências a filmes alheios. Quando tem uma boa história para contar, essas citações constituem o charme das produções assinadas por ele. É o que acontece, por exemplo, em Os Intocáveis (1987), no qual havia uma belíssima seqüência inspirada no clássico O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. O problema é que, quando De Palma não tem idéias, ele não consegue disfarçar essa falha pilhando os outros. É o caso de Olhos de Serpente (Snake Eyes, Estados Unidos, 1998), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. Há, logo no início, uma passagem memorável em que se filma uma luta de boxe sem focalizar o ringue. A tensão do embate é mostrada através dos rostos dos espectadores. A idéia é tirada, claro, da cena de abertura de A Flauta Mágica, de Ingmar Bergman, no qual a emoção da ópera de Mozart é filtrada pelos olhos da platéia. Há também um outro trecho em que várias testemunhas de um crime dão versões diferentes do acontecido, mostradas com o recurso de fazer inserções do passado, o flashback. Isso, óbvio, já foi feito antes — em Rashomon, de Akira Kurosawa. Virtuose da câmera, De Palma faz essas duas "homenagens" com mão de mestre. Mas nem isso salva o filme.

Em Olhos de Serpente, o cineasta faz o contrário do que se espera de um bom thriller. Em vez de aumentar gradativamente o suspense para deixar o espectador cada vez mais nervoso, ele começa quente, fica morno na metade e vai esfriando até chegar num desfecho frustrante. Desperdiça, com isso, os dois bons atores do elenco. Eles se perdem em papéis estereotipados. Nicolas Cage faz um mau-caráter que, no fundo, tem bons sentimentos. Gary Sinise é um mau-caráter sem nenhum sentimento. O diretor tenta esconder a falta de uma história com piruetas de roteiro. Abusa, por exemplo, do tal recurso do flashback. É fácil distinguir um bom De Palma de um mau De Palma. Em seus melhores filmes, há citações, idas e vindas, movimentos de câmera inusitados, sem que o público perceba tudo isso, de tão envolvido que está com o enredo. Nos piores, sai-se do cinema entediado e com a sensação de que De Palma conhece bastante a história do cinema, é um virtuose do roteiro — mas não consegue usar esses talentos para contar uma história. Em outras palavras: quando a construção é sólida, não se percebem os alicerces. Olhos de Serpente é um prédio que não fica em pé. Tanto que não emplacou nos Estados Unidos. Rendeu, no primeiro mês, 46 milhões de dólares, arrecadação baixa para uma produção que custou 73 milhões.

http://www2.uol.com.br/veja/230998/p_143a.html

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