O Cineasta da Selva resgata
a vida
e a obra do pioneiro Silvino Santos
Marcelo Camacho
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| Silvino Santos na década de 20: revelando no mato com a água do Rio Branco |
Nos primeiros anos deste século, com uma
idéia na cabeça
filmar a Amazônia
e uma câmara na mão, o português Silvino Santos se embrenhou no mato. O
cineasta acabava de retornar de Paris, onde fora aprender cinema com os irmãos
Lumière, os pais da sétima arte. Em seu mergulho na floresta, Silvino fez o
documentário No País das Amazonas, finalizado em 1922, e também outros
oito filmes pioneiros. Armazenadas em arquivos acadêmicos, as imagens de
Silvino Santos estão em O Cineasta da Selva, longa-metragem
do amazonense Aurélio Michiles, em cartaz no Rio de Janeiro, em São Paulo e
Brasília. Documentário entremeado com ficção, com o ator José de Abreu
fazendo as vezes do cineasta, a virtude da fita é resgatar as imagens do começo
do século. São cenas que impressionam pela crueza, originalidade e surpresa:
índios em festas rituais, caudalosas correntezas do Amazonas e a matança de
peixes-boi, com bandos deles mortos
seqüência que horroriza a sensibilidade ecológica atual, mas puro folclore na
época.
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Com os índios
putumayos (1913-14): ineditismo |
Barões da borracha
Longe de ser apenas um documentarista, Silvino tinha pretensões artísticas,
evidentes nas seqüências sobre o cotidiano de Manaus e nas fábricas que
empacotavam frutos de árvores tropicais. Uma cena especialmente inspirada
mostra uma operária quebrando as cascas de castanha. Um corte leva a imagem
para a selva, onde um macaquinho, com uma pedra, sofre para quebrar o mesmo
fruto
associando a razão humana com a luta dos animais pela sobrevivência.
Silvino era patrocinado pelos barões da
borracha. A proeza mais ousada de sua carreira foi participar de uma expedição,
financiada por exploradores ingleses, em busca da nascente do Rio Branco, perto
de Roraima. Trabalhando em condições precárias, usava a água do rio para
revelar seus filmes. Como a temperatura durante o dia era muito alta, fazia esse
trabalho às 3 da manhã. A revista National Geographic fez uma
reportagem documentando a proeza. A expedição não chegou a seu destino, mas
nessa viagem foram feitas as primeira imagens aéreas da Amazônia, em hidroaviões.
Tudo isso aparece no filme No Rastro do El-Dorado, (1924-25), com trechos
incluídos no documentário. O Cineasta da Selva tem problemas de
acabamento
faltam créditos de alguns dos entrevistados. Mas comove quando ilumina a obra
de um pioneiro. Impossível não se emocionar quando, de repente, a selva
aparece na tela.
http://www2.uol.com.br/veja/101297/p_152.html