Forró com miolos

Misturando música e sangue, O Cangaceiro está de volta, mas não dá para acreditar

Geraldo Mayrink

   

Gorgulho, o áspero,
e Luíza, a cantora: desavenças até
na cama
  Foto: Divulgação    

O filme brasileiro mais famoso de todos os tempos (prêmio em Cannes em 1953, faturamento de 50 milhões de dólares em oitenta países) está de volta de roupa nova rumo ao anonimato. O Cangaceiro (Brasil, 1997) é impressionante. Mesmo quem não viu a versão original, dirigida por Lima Barreto, conhece a história do quarteto envolvendo dois cabras-machos e duas mulheres que se vão amando, odiando, dando tiros e cantando pelo sertão. Talvez por causa dos costumes da época, até com alguma elegância. O remake dirigido por Anibal Massaini Neto radicaliza tudo. O filme é um tropel só, com um barulho de patas de cavalos que soa como trovoada.

O holocausto inclui decapitações, extração de língua com faca e explosão de miolos. Galdino (Paulo Gorgulho) só não mata quando está dormindo, e cada cena de amor com sua mulher, Maria Bonita (Luiza Tomé), é quase um estupro. Secretamente, ela cobiça um ajudante de Galdino, Teodoro (Alexandre Paternost), e tem ciúme do interesse dele pela pálida Olívia (Ingra Liberato). Sabe-se disso quando Luiza Tomé começa a cantar Sodade, meu bem, sodade, como se estivesse no novo filme de Woody Allen. É que O Cangaceiro envereda por um gênero novo, o musical-sanguinário, com direito até a coreografia do povo feliz cantando e dançando para comemorar os massacres. Eloqüente, o maestro Vicente Salvia reveste a velha Mulher Rendeira com acordes que remetem o agreste para um outro mundo, aquele em que os homens fumam a cavalo. Com seu sorriso e sua simpatia, Dominguinhos também não tem cerimônia em interromper a ação e dedilhar sua sanfona. Se fosse assim o tempo todo, pelo menos dava para ouvir, apesar do artificialismo.

O problema é que há ainda uma história para ser contada. Pior ainda, contada com o elenco em cena, que, para sua infelicidade, precisa recitar diálogos. Centro da ação, o personagem de Galdino é o que mais sofre com a interpretação, digamos assim, de Paulo Gorgulho, áspera como um pedaço de toco. O Cangaceiro é um desacerto de proporções épicas.

http://www2.uol.com.br/veja/110697/p_126a.html

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