Sem caricatura

Um Nordeste diferente do que aparece na TV

Lampião: na floresta, não na caatinga
Foto: Divulgação  

O Baile Perfumado, que entra em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo nesta sexta-feira, é um filme nordestino que não tem cacto, acarajé ou xaxado. Em vez de terras assadas pela seca, aparecem paisagens verdejantes. No lugar de velhos baiões de Luís Gonzaga, uma trilha que mistura rock, som de raízes e modos orientais. Pior: o filme é narrado em árabe, com legendas. Mais que uma esquisitice, Baile Perfumado, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, é um programa divertido. Deve isso à ótima história, verídica, contada de maneira simples e envolvente. O filme, vencedor do Festival de Brasília no ano passado, narra a vida do libanês Benjamim Abrahão, um misto de fotógrafo e caixeiro-viajante que produziu um documentário cinematográfico sobre Lampião. Acabou sendo vítima da censura do Estado Novo, por desmoralizar as instituições. Empenhada havia anos na caça ao cangaceiro, a polícia não conseguia localizar e encurralar o bando. Enquanto isso, um mascate encontrava a turma e ainda a filmava.

Feito com consultoria de historiadores, Baile Perfumado é o primeiro longa-metragem produzido em Pernambuco em vinte anos e pretende ser uma espécie de reação contra a maneira como os "sulistas" vêem o Nordeste. Vêm daí escolhas como ambientar as locações em terras aprazíveis. Ao contrário do que aparece em O Cangaceiro, Lampião nunca acampava em locais desérticos, por um motivo simples: não havia água. Embora não tenha grandes pretensões dramáticas, o filme mostra personagens mais interessantes do que os tipos regionais que aparecem na televisão e relações sociais complexas. Essa é a maior virtude de Baile Perfumado: exibir um Nordeste diferente da caricatura grosseira e pouco inteligente do horário nobre.

João Gabriel de Lima

http://www2.uol.com.br/veja/300797/p_101b.html

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