Paixão de Hemingway na guerra perde
força em função da fraqueza dos atores
Celso Masson
Louco para combater na I Guerra e sem idade suficiente para ingressar no Exército, um jovem americano, recém-saído do colégio, faz o diabo para pegar em armas. Consegue um posto na Cruz Vermelha, onde sua função é servir cafezinhos e distribuir maços de cigarro para soldados italianos. Achando aquilo monótono, decide meter-se numa trincheira. Acaba ferido e internado num hospital, com estilhaços de granada e uma bala de fuzil encravados na perna. Como era de imaginar, ele se apaixona pela enfermeira mais bonitinha do ambulatório. Como raramente acontece, a paixão é correspondida. Esse seria um enredo boboca caso não tivesse Ernest Hemingway como protagonista. Autor famoso, premiado com o Nobel, Hemingway escreveu muito sobre si mesmo. Curiosamente, ao levar para as telas esse detalhe da biografia do escritor, Richard Attenborough (conhecido por Gandhi) preferiu valer-se do ponto de vista da enfermeira, a partir de um diário que ela escreveu.
Mesmo sendo narrado por outra pessoa, No Amor e na Guerra (In Love and War, Estados Unidos, 1996), filme que estréia nesta semana no Brasil, retrata um Hemingway heróico, camarada e galanteador, num perfil que o próprio não retocaria. Isso porque o diário da enfermeira Agnes Von Kurowsky, vivida por Sandra Bullock (veja reportagem), cobre seu amante de glórias. Ele é condecorado pelo Exército italiano e recebido com honrarias quando regressa à América. Sem contar sua bem-sucedida determinação em seduzir uma beldade disputada não só pela tropa de convalescentes como também pelo médico de plantão.
Ao encenar o diário de Agnes --. em vez da versão romanceada por Hemingway --, o filme conta uma história de amor difícil, mostrando a paixão e o sofrimento de ambos em meio à hostilidade da guerra. A cena em que os dois dançam num quarto de bordel de terceira classe é um dos acertos de Attenborough. Ele também obteve bons resultados visuais, já que sabe lidar com imagens fortes, como mostra nas cenas em que há soldados feridos. Seu erro foi ter escolhido para o par central Sandra Bullock e Chris O'Donnell (o Robin). Como Hemingway, o garoto é duro de engolir. Com dois atores ruins, ainda que badalados em Hollywood, o diretor desperdiçou a chance de fazer mais um filme brilhante.
http://www2.uol.com.br/veja/060897/p_129a.html