Clássico de Plínio Marcos volta sem rumo
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Vera Fischer: garra e fé para fugir do inferno |
| Divulgação |
Nas voltas que o mundo dá, a negra tragédia teatral de Navalha na Carne (Brasil, 1997) chega às telas em forma de musical. É assim que caminha por algum tempo a versão que o diretor Neville D'Almeida fez do texto clássico de Plínio Marcos, escrito em 1966 para retratar o submundo em que rastejam três seres humanos patéticos, a prostituta Neusa Suely (Vera Fischer), seu gigolô Vado (o cubano Jorge Perugorría) e o homossexual Veludo (Carlos Loffler). Musical dos bons na trilha, é esfuziante também no visual. Contém até uma cena de violência, na qual Vado bate e destrói o quarto de Veludo, mostrada menos com sangue e mais por meio de plumas multicores que voam pelo cenário.
Em outras dessas voltas, Vera Fischer purga seus pecados vivendo uma tragédia criada quando ela era uma adolescente e a transgressão suprema se consumava num baseado de maconha. Quarentona, sempre linda, apanhou da vida tanto quanto Neusa Suely do cafetão que ela imagina amar. Tudo pode ser mera coincidência, mas, de tantas voltas que o mundo dá, o filme Navalha na Carne acaba ficando tonto e perdendo o rumo. Ele é até mais que oportunista, ao fazer coincidir a chamada "vida real" com a ficção teatral, nos dois casos com a personagem buscando a purificação de um mundo podre por meio da fé religiosa, ou então em uma clínica para dependentes químicos. Navalha é um filme datado de hoje, como se pode acompanhar pelos jornais, mas, principalmente, de ontem.
Sem a música seria uma série de cartões-postais do Rio ou um desses laboratórios de teatro em que os atores dão o próprio sangue para impressionar uns aos outros. A atriz impressiona mesmo. Um delírio do diretor, que a mostra crucificada e sangrando, é de um mau gosto que só a coragem de alguém muito desesperado pela falta de uma única idéia boa ousaria representar.
Geraldo Mayrink
http://www2.uol.com.br/veja/261197/p_149.html