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Aaron Eckardt e Stacy Edwards em cena: vilania em estado puro |
Se o diabo usasse terno e pastinha de executivo, seu nome seria Chad. Movido apenas pelo ódio contra as mulheres, Chad parte para a ação, seduzindo e partindo o coração de uma moça. Ela é ingênua, boazinha e, como se não bastasse, surda. A partir dessa matéria-prima surradíssima, o diretor estreante Neil LaBute realizou uma poderosa tragicomédia. Na Companhia de Homens (In The Company of Men, Canadá, 1997), que estréia esta semana em São Paulo e no Rio de Janeiro, é uma pérola do humor negro, sem concessão ao sentimentalismo. Custou míseros 25.000 dólares — o equivalente a menos de dois segundos de Titanic —, mas numa única semana faturou oito vezes o valor de sua produção. Sua virtude, se é que se pode falar assim de um filme sobre a vilania em estado puro, está no fato de que, antes de abordar a guerra dos sexos, a história trata da miséria humana — independentemente do sexo de seus personagens.
O relativo sucesso de público de Na Companhia de Homens se deve à boa acolhida que o filme teve no festival de Sundance, o mais prestigiado do cinema alternativo nos Estados Unidos. Chad, o melhor personagem, interpretado com deliciosa perversidade pelo novato Aaron Eckardt, é um predador. No saguão de um aeroporto, enquanto espera um vôo, decide, juntamente com o amigo Howard, outro engravatado desiludido com as mulheres, partir para o ataque. "Vamos machucar alguém", diz Chad. "Vamos recuperar nossa dignidade." Ambos tecem um plano: seduzirão uma mulher vulnerável, somente para deixá-la a ver navios. A vítima aparece. É um monumento chamado Christine (Stacy Edwards). Só lhe resta cair na armadilha. No devido tempo, num requinte de crueldade, será informada da traição. Com o sorriso mais cândido, Chad pergunta: "Dói muito?"
Como era de esperar, o filme despertou o patrulhamento politicamente correto contra o diretor LaBute, acusado de chauvinismo. Impávido, ele declarou à revista Time: "É melhor o ódio do que a indiferença". Inteligente e provocante, Na Companhia de Homens causará certa repulsa na platéia feminina, mas também não deixará tranqüilos os homens que encontrarem em si uma farpa do selvagem Chad, uma ponta do abjeto Howard. O filme, que usa uma câmera fixa, à moda dos documentários sobre o mundo animal, faz pensar na frase célebre de Hobbes, o filósofo inglês: "O homem é o lobo do homem". Uma lição que é bom lembrar de vez em quando.
Carlos Graieb
http://www2.uol.com.br/veja/180398/p_133.html