A morena gelada

Num raro espetáculo de branco total,
Julia Ormond inventa a sedução on the rocks

Geraldo Mayrink

Metamorfose boreal: a ex-Sabrina assume sua porção esquimó

Finalmente aparece um espetáculo de paisagens e sensações diferentes, todas congeladas abaixo de zero e comandadas por uma morenaça de alma viking, coração esquimó e carcaça dura como um iceberg. Ela é Julia Ormond e Mistério na Neve (Smillas's Sense of Snow, Alemanha/Dinamarca/Suécia, 1997), o trenó que ela pilota numa aventura mirabolante. Como o título indica, é uma mulher gelada. Nasceu na Groenlândia e vive em Copenhague. Sente e domina a neve nos seus pés como as tropicais sintonizam com a areia. Não quer intimidade com ninguém e vira uma ursa furiosa quando morre um menino esquimó seu vizinho, ao despencar de um telhado. Tudo aponta para um acidente. Seu instinto lhe garante que foi assassinato. Aí, ela afia as garras. É um animal interessantíssimo.

O romance de Peter Hoeg, best-seller internacional desde 1992, dá ao diretor dinamarquês Bille August a oportunidade de mostrar com luxo o que raramente se vê por aqui -- o branco total, geleiras de dar medo pelo tamanho e silêncio que as envolve e cenas urbanas de uma Copenhague que é puro arrepio de blocos brancos flutuando nos rios e carros sufocados pela neve. Ao mesmo tempo, fornece uma receita de gosto internacional com duplas personalidades, assassinatos, multinacionais cúpidas e até, acreditem, micróbios pré-históricos que renascem incrustados num meteoro que caiu um século atrás. Mas é Smilla, a personagem de Julia Ormond, quem domina tudo, assumindo ao mesmo tempo o papel de Modesty Blaise cruzado com Bruce Willis e outros machos duros de matar. Assiste-se com prazer a esses cartões-postais que parecem vindos de outro mundo e batem-se palmas para a bela Julia, vista recentemente no papel da delicada Sabrina, porque ela não se intimida com o ambiente hostil que a rodeia. Esse ambiente tem os nomes de seus parceiros em cena, Gabriel Byrne, num papel secundário, o que é bom, Vanessa Redgrave, num papel menor, o que é ótimo, e Richard Harris, numa aparição minúscula, o que é o melhor de tudo.

http://www2.uol.com.br/veja/230797/p_107a.html

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