Coisinha do pai

Lolita, obra-prima da literatura, torna-se
uma história sem graça nas telas

Carlos Graieb

Fotos: Divulgação
A Lolita de Adrian Lyne: até que os atores estão bem

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta. Com essa música hipnótica, essas frases pontuadas pela repetição sedutora da letra "l", começa um dos grandes clássicos da literatura do século XX: Lolita, de Vladimir Nabokov, o russo que superou britânicos e americanos no domínio da língua inglesa. Humbert Humbert é o "herói" do livro. Um senhor de meia-idade, cínico e expatriado. Que só ama menininhas. Lolita é a "heroína", perversamente ingênua com seus 12 anos. Nabokov inventou a palavra ninfeta, hoje tão conhecida, apenas para descrevê-la. Lolita e Humbert fazem sexo. Com essa matéria explosiva, Nabokov construiu uma fábula de múltiplas facetas: moral e imoral, pornográfica e lírica, cômica e amargurada. Como toda obra-prima, o romance é inesgotável. Proporciona choques e delícias diferentes a cada nova leitura.

Os cineastas não ficaram imunes aos encantos de Lolita. Mas captar todas as dimensões do livro na tela plana do cinema é um desafio provavelmente intransponível. O primeiro a tentar foi Stanley Kubrick, em 1962. O resultado, nas palavras de Nabokov, que no começo abençoou o projeto, "não passou de um arremedo do filme maravilhoso que eu havia imaginado". O julgamento é um pouco ranzinza, talvez porque o escritor tenha trabalhado durante meses numa versão do roteiro que jamais foi utilizada. Deve ser reconhecido pelo menos um grande mérito à adaptação de Kubrick: explorar a carga humorística do romance, contando com o talento de um belo grupo de atores. Sobretudo James Mason, responsável por Humbert Humbert, tem desempenho na medida, entre o sinistro e o sardônico. Ao ver o filme, a famosa crítica cinematográfica Pauline Kael sentenciou: "Estamos diante da melhor comédia americana desde os anos 40". Mesmo assim, há passagens lentas e frias. Lolita, não resta dúvida, não está entre os melhores trabalhos de Kubrick.

Nabokov fez o
roteiro para a
Lolita de Kubrick,
mas o diretor
jogou no lixo

Caninos à mostra — Trinta e cinco anos mais tarde, Adrian Lyne, o mesmo de 9 1/2 Semanas de Amor e Atração Fatal, faz uma segunda tentativa. Sua Lolita (EUA, 1997) estréia nesta semana no Brasil, em circuito nacional. No frigir dos ovos, Lyne, um diretor em geral medíocre, talvez saia até ganhando na comparação com Kubrick, um diretor em geral brilhante. Ele e seu roteirista foram fidelíssimos ao romance de Nabokov, não furtando nada da trama e repetindo, em off, vários parágrafos do texto original. Lyne procurou filmar de maneira elegante, contida, sem recorrer à estética de comercial de lingerie que caracteriza outros de seus trabalhos. Sua Lolita, a atriz adolescente Dominique Swain, é infinitamente mais viva que a Sue Lyon de Kubrick (que parecia atuar sob o efeito de anestésicos). Lyne também encontrou um Humbert respeitável em Jeremy Irons, embora ele possa ser, às vezes, excessivamente amargurado. Chegamos quase a nos enternecer com ele (algo que nenhum pedófilo merece), enquanto o personagem do livro, mais selvagem, mais extravagante, no máximo desperta um pouco de simpatia, como qualquer figura com um lado cômico. A escassez de humor — que em geral significa escassez de inteligência — é, aliás, a limitação de Lyne. Ele também só fez jus a uma parte do romance.

A ironia é que, sem usufruir as glórias de Nabokov, tanto Kubrick quanto Lyne tiveram de enfrentar os mesmos dissabores que ele. Quando concluiu Lolita, em 1955, o autor teve problemas para publicá-lo. Ingleses e americanos recusavam-se a imprimir o livro. Nabokov teve de apelar para uma pequena editora francesa, de reputação duvidosa. Quando a obra chegou ao mercado, alguns críticos, chocados com as passagens de amor entre uma criança e um homem maduro, puseram os caninos à mostra. "É mera pornografia", rosnaram. Desde o início, porém, houve também simpatizantes, que perceberam ali o trabalho de um grande estilista. Com o tempo, foi essa a opinião que prevaleceu. Embora dificilmente venha a figurar um dia entre as leituras recomendadas pela TFP, Lolita já garantiu seu status de clássico.

Kubrick também teve de conviver com a patrulha dos bons costumes e sobretudo com os censores, que ameaçavam mutilar seu filme. Entre todos, porém, foi Adrian Lyne quem quebrou a cara. Ele, que se julgava imune a sanções, depois de já ter cutucado a moral de seus conterrâneos em fitas pseudoprovocadoras como Atração Fatal e Proposta Indecente, desta vez pisou em terreno realmente proibido. Nenhuma distribuidora americana aceitou lançar seu filme nos Estados Unidos. Ele teve uma única exibição em tela grande, para convidados, e então foi banido para os horários da madrugada na TV a cabo. Os produtores, que investiram 60 milhões de dólares, ficaram no prejuízo. No fim, a moral da história talvez seja a mais banal: bom mesmo é ler o livro. O estilo de Nabokov é um personagem que não pode aparecer na tela. Sua linguagem engraçada, exuberante, intrincada, poética, não tem como ser repetida. Falta Nabokov na Lolita de Adrian Lyne, assim como faltava na de Stanley Kubrick.

http://www2.uol.com.br/veja/020998/p_144.html

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