Em Homens de Preto, uma galeria de extraterrestres divertidos como nunca se viu nas telas
Okky de Souza
A história é tão velha quanto o cinema: os extraterrestres estão chegando, são pavorosos, comem criancinhas e vão destruir a Terra. Salve-se quem puder. Mas essa história nunca foi contada como em Homens de Preto (Men in Black, Estados Unidos, 1997), em cartaz em circuito nacional a partir desta sexta-feira. O filme, dirigido por Barry Sonnenfeld (A Família Addams 1 e 2, O Nome do Jogo), é uma excelente comédia, dessas de rolar de rir. Quando o humor não está em cena, é também uma raridade no cinema atual: mistura ação, perseguições policiais e violência sem repisar os clichês do gênero. Tudo isso se torna possível porque jamais houve alienígenas como os que passeiam pela tela em Homens de Preto. Esqueçam-se os marcianos desengonçados de Marte Ataca ou o monstrengo ultra-high tech de O Predador. Charmoso e engraçado como os ETs de Sonnenfeld só mesmo aquele que voava de bicicleta e, em 1982, transformou Steven Spielberg no diretor mais bem-sucedido de Hollywood. Spielberg, por sinal, é o produtor executivo de Homens de Preto, embora tenha apenas emprestado seu nome aos créditos para que os produtores pudessem engordar o orçamento para 90 milhões de dólares.
O triunfo de Homens de Preto se deve em grande parte à atuação de seus protagonistas, Tommy Lee Jones e Will Smith. Lee Jones, conhecido por personagens durões como os que representou em O Fugitivo e Batman Eternamente, é aquele tipo de ator, como Marlon Brando, que consegue atuações empolgantes sem mexer sequer um músculo da face. Smith, dublê de ator e cantor de rap, é um dos nomes mais festejados do cinema desde que atuou em Independence Day, no ano passado. Seu estilo de atuação é oposto ao de Lee Jones. Careteiro, é capaz de arrancar risadas do público com um simples erguer de sobrancelhas. Ambos andam às voltas com extraterrestres que vivem na Terra disfarçados. Um deles é um cão miniboxer que fala pelos cotovelos. Outro é um velhinho simpático que trabalha numa joalheria e leva a tiracolo um gatinho suspeito. Um terceiro é um mexicano que tenta entrar ilegalmente nos Estados Unidos (deu-se mal: nem sabia falar espanhol). Todos eles, por baixo da pele (ou do pêlo), são na verdade seres do espaço horrorosos e cheios de más intenções. Ou melhor: quase todos. Há aqueles colaboracionistas, amigos dos terrenos e que às vezes nem precisam disfarçar-se. Como as simpáticas lombrigas que servem cafezinhos e roscas açucaradas a seus patrões humanos. De qualquer maneira, todos eles se envolvem em situações muito engraçadas. Todos os monstrinhos foram criados por Rick Baker, o mesmo que desenhou os bonecos da série Gremlins. Os efeitos especiais são assinados pela Industrial Light & Magic, o estúdio de George Lucas.
"Sem nazistas" -- A história que conduz Homens de Preto é o que menos importa. Serve apenas de fio condutor para as cenas, que sobrevivem independentemente do roteiro. O homem com nome de uma letra só, K (Lee Jones), trabalha para a MIB, uma agência do governo americano criada em 1950 para estabelecer contato com habitantes de outros planetas. Na década seguinte, a agência caiu no ridículo diante dos americanos -- mas não dos extraterrestres. Hoje ela tem dupla utilidade. Primeiro, funciona como uma zona politicamente neutra para ETs imigrantes e bonzinhos que se encontram sem planeta para viver ("Como no filme Casablanca, mas sem os nazistas", explica K). Os alienígenas chegam à Terra, passam pela imigração na MIB (que fica no coração de Nova York) e são encaminhados para funções terráqueas. Como aconteceu, aliás, com Sylvester Stallone, de acordo com uma das tiradas do filme. A segunda função da MIB é rastrear e eliminar os ETs mal-intencionados. Como K faz para rastreá-los? Lê os jornais sensacionalistas, é claro, sempre recheados de histórias envolvendo extraterrestres, "embora às vezes o New York Times também ajude". K está precisando de um ajudante e escolhe J (Will Smith), um policial de Nova York. Ambos se tornam parceiros das mais espetaculares aventuras, a bordo de um carro que até vira batmóvel e é capaz de cortar engarrafamento andando no teto dos túneis. O esforço é necessário. Afinal, pelos cálculos de K, há hoje cerca de 1.500 alienígenas vivendo no nosso mundo. "Quase todos em Manhattan, não é uma coincidência?", ele diz.
Há uma piada tácita em Homens de Preto, e ela concorre em grande parte para a originalidade do filme. Tanto K, que a toda hora enfrenta novos tipos de extraterrestres, cada vez mais horripilantes e gosmentos, quanto J, recém-iniciado no ofício, não demonstram o menor medo ou susto diante das criaturas. Enfrentam-nas como se estivessem à caça de batedores de carteira num domingo no parque. Com esse artifício, Sonnenfeld foge ao padrão dos filmes de ficção científica e encontra uma série de atalhos para o humor. Como na cena em que um monstro engole a arma de K e ele desliza pela goela da criatura para recuperá-la e estourar-lhe os intestinos feitos de geléia verde. Homens de Preto não seduz pelos sustos ou pela ação, mas pelos personagens, principalmente aqueles que não são deste mundo. Cada um deles se revela uma caixa de surpresas.
Cantada -- Uma atração à parte no filme é a bela atriz Linda Fiorentino no papel da doutora Laurel Weaver. Laurel é uma médica legista que adora seu trabalho e diz preferir a companhia dos cadáveres à dos rapazes que já namorou na vida. Certo dia ela depara com dois corpos bem estranhos. Um deles não tem fígado nem reto. O outro é de um velhinho que, na verdade, se revela um membro da família real de um planeta distante. Laurel também não demonstra o menor medo diante dos extraterrestres, mas ela não sabe o que a espera. Uma gigantesca barata intergaláctica, oculta no corpo de um motorista de caminhão, decide seqüestrá-la em sua nave. Numa das cenas mais impagáveis do filme, Laurel tenta dizer a J, em código, que o ET está escondido numa mesa na frente dela, apontando-lhe uma arma. J se convence de que está levando uma cantada amorosa das mais descaradas.
"Minha estratégia neste filme foi fazer os atores falar rápido e esconder deles que, ao final, seria uma comédia", explicou o diretor Sonnenfeld numa entrevista. A produção de Homens de Preto foi das mais acidentadas. Tommy Lee Jones é considerado pelos estúdios um ator de personalidade difícil -- exigente e brigão. A reputação de Barry Sonnenfeld não é muito diferente, com um detalhe: ele é também emotivo a ponto de chorar quando alguma coisa não dá certo durante as filmagens. O diretor também chorou quando mostrou o filme já concluído para o colega Steven Spielberg. "Sonnenfeld é o típico neurótico urbano", comenta o cineasta Ethan Coen, para quem Sonnenfeld trabalhou no início da carreira como diretor de fotografia. Como era de esperar, certo dia o tempo fechou no estúdio. Lee Jones, com um pedaço do roteiro na mão, disparou para o diretor: "Se você fosse mais esperto, não usaria esta porcaria". Silêncio geral. Sonnenfeld devolveu: "Como eu não sou esperto, vamos rodar a cena exatamente como está no papel". O diretor também entrou em rota de colisão com o roteirista do filme, Ed Solomon, que foi demitido e readmitido do cargo nada menos que cinco vezes.
Expectativa -- Antes disso, ainda na fase de pré-produção, o filme enfrentou problemas. Homens de Preto é inspirado numa obscura revista em quadrinhos homônima do grupo Marvel. Depois de comprar os direitos da história para o cinema, escolher diretor, roteirista e atores, os produtores do filme depararam com um problema. Tommy Lee Jones, que estava prestes a fechar negócio por 5 milhões de dólares, recebeu uma oferta de 8 milhões para estrelar The Rock, no papel que afinal seria de Sean Connery. Foi quando Steven Spielberg entrou na história. No papel de produtor executivo, deu o aval necessário para que os produtores conseguissem mais dinheiro para a empreitada, elevando o cachê de Lee Jones para 7 milhões de dólares. Apenas pelo empréstimo do nome, recebe 5% da bilheteria.
Homens de Preto estreou nos Estados Unidos na quarta-feira passada cercado de uma enorme expectativa. Para os analistas de Hollywood, o filme deverá ser o maior sucesso da temporada de filmes de verão no país. Pesquisas mostram que pelo menos um quarto dos freqüentadores habituais das salas de cinema americanas pretende assisti-lo nas próximas semanas. É um contingente maior do que aquele que anunciou presença em O Mundo Perdido, última aventura de Spielberg e continuação do filme mais bem-sucedido de todos os tempos. No Brasil, espera-se que Homens de Preto também alcance grandes bilheterias. Filmes de extraterrestres exercem um fascínio eterno nas platéias -- sete deles estão entre as dez maiores bilheterias de todos os tempos. A possibilidade de que o ser humano não esteja sozinho no universo é uma das fantasias favoritas do público de cinema de entretenimento. Muitos desses filmes, além de arrastar multidões ao cinema, tornam-se objeto de culto ao longo dos anos. Foi assim nos anos 50 com O Dia em que a Terra Parou. Nos anos 70 foi a vez de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e, na década seguinte, de E.T. Pode-se apostar que Homens de Preto será o próximo integrante dessa galeria. Ao trocar o mistério pelo humor, o filme encontra uma forma inédita, e magistral, de abordar um tema batido.
Cantando rap em HollywoodO ator Will Smith é uma pândega tanto na tela quanto na vida real. Em Homens de Preto, sua galeria de caretas é responsável por grandes momentos do filme. Nas rodas de amigos, ele é sempre garantia de risadas por sua obsessão em corrigir erros de inglês e passar pitos em quem os comete. Aos 28 anos, Smith é o mais novo superídolo de Hollywood. Sua catapulta para o sucesso foi o filme Independence Day, do ano passado, no qual vivia um marine que estraçalhava um extraterrestre. Mesmo antes da estréia de Homens de Preto nos Estados Unidos, sua extraordinária atuação já havido chamado a atenção das agências de talentos. Resultado: há um mês, ao assinar contrato para seu próximo filme, também dirigido por Barry Sonnenfeld e baseado no seriado de TV dos anos 60 James West, viu seu cachê subir para 10 milhões de dólares. Pouca gente ganha essa quantia por um único filme. Antes de Independence Day, Will Smith era mais conhecido pelo seriado de TV Fresh Prince of Bel Air, exibido em TV a cabo. Ocorre que mesmo antes de fazer sucesso nas telas ele já era um milionário do show biz, a bordo da dupla de música rap DJ Jazzy Jeff and the Fresh Prince, formada quando ele tinha apenas 12 anos. Aos 20, Smith já possuía sobre a lareira três discos de platina (mais de 1 milhão de cópias vendidas de cada um) e dois prêmios Grammy, um deles com a música Os Pais Nunca Entendem. O que mais dava lucro à dupla, no entanto, era o telefone disque 900 que ela mantinha com mensagens para as fãs. "Em nove meses fizemos mais dinheiro com as mensagens do que nos primeiros cinco anos gravando discos", ele se diverte. Recentemente, Smith e seu parceiro reativaram a dupla e estão gravando um novo CD. Na velha tradição de Sinatra e Sammy Davis Jr., pretende brilhar nas telas e nos estúdios de gravação. |
http://www2.uol.com.br/veja/090797/p_116.html