Disney reinventa o mito de Hércules,
transformado num herói bom-moço
Angela Pimenta
Berço da civilização ocidental, do teorema de Pitágoras e do complexo de Édipo, a Grécia antiga se vê agora transformada no mais novo playground Disney. Com bíceps de super-homem e sede de justiça comparável à de Santa Joana D'Arc, Hércules (Estados Unidos, 1997), que estréia nesta sexta-feira, é mais um desenho animado divertido, daqueles musicais perfeitos para a criançada em férias. Conforme revela o oráculo de Hollywood, os filmes de animação são hoje a fatia mais lucrativa de todo o mundo do cinema. Nascido para faturar, tal como O Rei Leão e Aladdin, Hércules é um herói bom-moço que, mesmo cumprindo seus trabalhos herculeamente, como enfrentar a Hidra de Lerna, um monstro terrível que habita os infernos, acaba até endurecendo os músculos da face -- mas sem jamais perder a ternura. "Tomamos todas as liberdades que quisemos com o mito original. Transformamos Hércules num herói de filme de ação, como o Batman", disse a VEJA Ron Clements, o co-diretor e roteirista do desenho.
![]() |
Hércules e seu técnico, o centauro Phil: doses cavalares de força e ternura num musical perfeito para as férias |
| The Walt Disney Company |
De olho no público brasileiro, hoje o sexto mercado mundial do cinema -- à frente de países como Itália e Espanha --, a Walt Disney preparou aqui uma campanha inédita para o lançamento. Exibido quase simultaneamente com os mercados americano e europeu, o filme estréia em 180 cinemas brasileiros, respaldado por uma campanha publicitária de 1,5 milhão de dólares -- a mais cara já bancada até hoje. Para abastecer papelarias, bancas de jornal e lojas de brinquedo, a Disney licenciou 300 produtos com a marca Hércules. Além de ganhar uma dublagem em português, providência de praxe em desenhos animados, agora a Disney inova no setor. A canção-tema de Hércules, criada por Alan Menken, ganhou uma versão em português interpretada pelo merengueiro Rick Martin, o ex-Menudo. Espera-se que no Brasil 2,3 milhões de pessoas paguem ingresso para ver o filme.
Diante
de tanta sede por reais tilintando na bilheteria, não é de espantar que, para
emergir nas telas, o Hércules grego tenha passado pelo bisturi dos animadores
da Disney. Trabalhando em parceria com o cartunista inglês Gerald Scarfe,
especializado em temas políticos, a equipe de criação do filme acabou
esculpindo um boneco de pescoço largo e um nariz aquilino que, de tão reto,
começa a nascer na sua testa. Maldosamente, Scarfe diz que talhou seu herói
vagamente parecido com a silhueta de Margaret Thatcher. De resto, este Hércules
tem pouco a ver com sua origem helênica. Se no mito original ele era uma
criatura martirizada pela discrepância entre sua força muscular e a fraqueza
emocional -- alguém capaz de assassinar a mulher Megara e todos os filhos do
casal só porque estava de cabeça quente --, no desenho ele é uma gracinha de
olhos azuis, incapaz de fazer mal a uma abelha do Olimpo.
A maldade fica reservada a Hades, o deus dos mortos, transformado pela Disney no inimigo-mor de Hércules. A inevitável seqüência em que o herói enfrenta a Hidra de Lerna, o monstro de nove cabeças que habita as trevas, é bem mais bonita do que qualquer ranger de dentes dos jurássicos atualmente soltos na praça. Além da sedução oferecida pelo visual Disney, que transforma a Grécia numa pradaria de paisagem rococó, na versão com legendas o filme traz a voz de Dany de Vitto, que interpreta o personagem Phil, um centauro atarracado responsável pela educação dos sentidos do herói. Segundo seus pais adotivos ianques, Hércules pode render até 1 bilhão de dólares em bilheteria, vídeos e licenciamento de produtos.
http://www2.uol.com.br/veja/250697/p_113.html