A versão de Kenneth Branagh é
magistral,
mas o Brasil só verá a metade
Barbara Heliodora
Numa evidente demonstração de
desprezo
e desrespeito
pelo público brasileiro, a distribuidora Columbia promoverá nesta sexta-feira
a estréia nacional de uma versão mutilada do Hamlet de
Kenneth Branagh. Em países como França e Estados Unidos, o público pôde
optar entre assistir à cópia integral ou à cortada. No Brasil, não haverá
escolha. Algo semelhante não acontecia desde 1964, quando O Leopardo, do
italiano Luchino Visconti, estreou com trinta minutos a menos, cores esmaecidas
e ridiculamente dublado em inglês. Para os executivos da Columbia, o Brasil
talvez seja um país de selvagens incapazes de apreciar Shakespeare na íntegra.
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Laertes (Michael Maloney) e Hamlet (Branagh):boas atuações, apesar dos cortes |
| Foto: Rolf Know |
Conceber uma versão cinematográfica de Hamlet para duas horas é uma coisa; cortar um filme de quatro horas e meia para ser apresentado em duas é outra, bastante diferente. Na verdade, o que mais desapareceu na única versão que será oferecida ao público no Brasil foi exatamente a concepção geral da obra, seja em termos de visão do significado da tragédia de Shakespeare, seja nos de linguagem fílmica, pois não se trata apenas de incluir um texto mais longo. Houve um crítico que afirmou que a maneira mais simples, resumida e escorreita de dizer do que trata o Hamlet é exatamente o texto integral do Hamlet, pois o autor não incluiu nele nada que não seja relevante, significativo, enquanto Maurice Evans, ao apresentar no palco alternadamente uma versão integral e uma cortada, afirmava que a integral era menos cansativa tanto para ele quanto para o público, porque ficava mais fácil de compreender.
Com o texto integral de Shakespeare, Kenneth Branagh concebeu um filme épico em diferentes dimensões e postura, no qual aparência e realidade são constantemente contrastadas: apesar da aparência majestosa, há qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca, e a austeridade do palácio real por fora, principalmente cercado de neve, contrasta com a luz, a opulência do vasto salão de cristais e espelhos, ao menos um dos quais é transparente e serve para o príncipe ser espionado, enquanto na biblioteca estantes se transformam em portas, por exemplo. A versão mais curta abre mão de praticamente todas essas informações paralelas e reduz a história de Hamlet a uma narrativa quase destituída de complexidades.
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Ofélia (Kate Winslet): perdida e perplexa |
| Foto: Rolf Know |
Andou em moda, por aqui, afirmar que Kenneth Branagh não era bom ator, que era um fogo de palha etc.; seu Hamlet é exemplar, maduro, refletido, extraordinariamente fiel ao personagem que Shakespeare escreveu, que cresce em estatura por se confrontar com nada menos que o excepcional Derek Jacobi como o Rei. De igual categoria é o Horacio de Nicholas Farrell, seguido de perto pelo Polonius (menos falso e insidioso do que de costume) de Richard Briers. Uma Julie Christie quase irreconhecível é uma Gertrude pateticamente ansiosa por agarrar-se à antiga beleza e realmente chocada com as revelações da cena das medalhas, enquanto Kate Winslet é uma Ofélia perdida e perplexa ante o afastamento de Hamlet e a morte do pai, e Brian Blessed resiste bem às lentes azuis no papel do Fantasma. Michael Maloney (Laertes), Timothy Spall (Rosencrantz) e Reece Dinsdale (Guildenstern) dão competente conta de seu papel, enquanto Rufus Sewell é devidamente conspiratório em um Fortinbras agressivo, único momento em que o diretor Branagh se afasta um pouco de Shakespeare, obviamente em favor de um grande final cinematográfico.
Apreensão
Pode ser facilmente criticada como mero recurso de publicidade a inclusão de inúmeros
atores famosos em pequenos papéis; mas com a única exceção de Jack Lemmon,
que não tem a menor idéia de como fazer Marcellus, essas participações se
mostram plenamente justificadas: Charlton Heston é uma surpresa no Primeiro
Ator (pena que seja muito cortado na atual versão), e Billy Crystal sai-se
muito bem no Primeiro Coveiro (com o ótimo Simon Russell Beale reduzido a uma
aparição muda no Segundo Coveiro). Não serão vistos por aqui o delicioso
Reynaldo de Gérard Depardieu, o digno Embaixador Inglês de Richard
Attenborough nem John Gielgud, John Mills e Judi Dench em marcantes momentos
mudos.
Os cortes feitos para a versão mais curta prejudicaram bastante a apreensão da concepção épica de Branagh para o filme; mas apesar deles permanece a impressão muito clara de uma obra cinematográfica. Não há nesse Hamlet nada da idéia de teatro filmado; uma câmera ágil faz a imagem contribuir de modo crucial para a concepção geral da obra, de modo que, apesar de impiedosamente cortado, o Hamlet de Kenneth Branagh ainda tem muito a oferecer em suas duas horas de bom autor, bons atores e bom cinema.
http://www2.uol.com.br/veja/240997/p_132.html