Os sonhadores de Canudos renascem
num espetáculo milionário e belo
Geraldo Mayrink
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Cláudia Abreu: seca, obstinada e centro da história da dissolução de uma família |
| Foto: Estevam Rezende |
Guerra de Canudos, que estréia
em cinqüenta salas do país no dia 3, é um rosário de superlativos. Projeto
que tomou cinco anos da vida do diretor Sergio Rezende, é o filme mais caro já
feito no Brasil (6 milhões de dólares), um dos mais longos (2h45), o de figuração
mais numerosa
800 pessoas são vistas em cena
e a melhor demonstração de que um superespetáculo nacional pode ter drama,
emoção, ritmo, beleza
numa palavra, pode ter eficiência. Não é todo dia que o cinema brasileiro
ousa tanto.
Retrato de uma tragédia histórica fortemente retocado pelas cores da imaginação, Guerra de Canudos tem na figura do enigmático Antônio Conselheiro (José Wilker) o seu emblema, mas na maravilhosa obstinação de uma mulher, Luiza (Cláudia Abreu), personagem de ficção, sua face mais impressionante. A sertaneja, antes de tudo uma forte, é o centro de uma história de dissolução familiar, com o pai, Zé Lucena (Paulo Betti), e a mãe, Penha (Marieta Severo), juntando-se aos seguidores do conselheiro e ela caindo na vida. Os massacres pontuam uma história de vidas secas, miseráveis. As primeiras seqüências são paradas, quase geométricas, acentuando a decrepitude daquele mundo numa espécie de Idade Média. Depois, a paisagem é sacudida a bala e acaba de pernas para o ar, explodida. São cenas que nada devem às que se vêem na maioria dos filmes de aventura importados. Raríssimo de ver nesses filmes são momentos como os de Penha resgatando um filho morto na guerra, três cachorros lutando por um naco de carne e a tristeza resignada do Conselheiro ao se despedir desse mundo, em palavras tocantes: "Adeus povo, adeus aves, adeus campos..."
Conselheiro Rezende
Sergio Rezende seguiu à risca sua visão da História: "Tudo é ficção".
Como toda ficção, ou sonho de artista, tem seu preço; e aí a mulher de
Sergio, a produtora Mariza Leão, começou sua própria guerra. Saiu atrás de
dinheiro e ficou surpresa com a ignorância dos eventuais investidores. "E
quem fará o papel de Lampião?", perguntou um deles. Quando bateu na porta
da Columbia, o advogado Dino Menasche foi logo avisando: "Já tenho 150
roteiros para ler". Mas a Columbia foi a primeira a investir no filme
entrou com 1,2 milhão de dólares. Vieram depois muitos outros, inclusive o
governo da Bahia, empurrado pelo senador Antonio Carlos Magalhães.
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| Foto: Estevam Rezende |
| Wilker: enigmático |
Assim, em Junco do Salitre, região de Juazeiro (BA), a quase 300 quilômetros da verdadeira Canudos, ergueu-se o maior cenário já construído no Brasil: mais de 500 casas de pau-a-pique, duas igrejas, 350 fachadas. O Exército forneceu 350 soldados para a figuração, 600 armas e três canhões, além de um assessor para questões militares, como emboscadas e cenas de guerra. O governo baiano abriu estradas e instalou telefones celulares, permitindo que a equipe falasse com o mundo enquanto estorricava ao sol.
Produção é isso. Um belo filme como Guerra de Canudos é sua conseqüência, em dois sentidos. No primeiro está o princípio da realidade. O filme precisaria conquistar entre 3,5 e 4 milhões de espectadores para se pagar e dar lucro, quando os dois maiores sucessos brasileiros do ano (Pequeno Dicionário Amoroso, 390.000 espectadores, e O que É Isso, Companheiro?, 300.000) ficaram a quilômetros disso. "Um filme desse preço não se paga no mercado nacional", diz Rodrigo Saturnino Braga, gerente da Columbia. Como não dá para imaginar o povo fazendo filas de dobrar quarteirão em Paris, Nova York e Tóquio, a dedução é que a conta não vai fechar. Mas aí mora uma espécie de utopia. "O que me animou a fazer esse e outros filmes foi pensar em sucesso de outra natureza, um sucesso cultural, cinematográfico, de debates. Gostemos ou não, o lugar onde se produz uma cultura que discute o país e debate seus rumos não é a música nem a televisão, mas o cinema", diz o conselheiro Sergio Rezende.
http://www2.uol.com.br/veja/011097/p_118.html