Godzilla, o filme, é uma decepção
Godzilla, o filme (Estados Unidos, 1998), que chega ao Brasil nesta semana, estreou nos Estados Unidos num feriado prolongado e arrecadou 75 milhões de dólares. Depois de sete semanas em cartaz, bateu nos 135 milhões. Sucesso estrondoso? Para os produtores, um fracasso. O filme custou 120 milhões de dólares e, em Hollywood, trabalha-se com a idéia de que um filme, para se pagar, tem de render o triplo. Quem diria, chegamos à época em que um filme que arrecada 135 milhões é considerado um fracasso! Este Godzilla é uma decepção também para o público. O filme é a versão americana do monstro criado pelo cinema japonês em 1954, originalmente como Gojira, numa série de fitas modestas e apocalípticas, em que progressivamente o monstro se tornava herói. O charme dos filmes estava na estética assumidamente "trash", com grandes lagartos maquiados — homens vestidos com roupas de borracha — destruindo metrópoles de papelão. Deliciosamente primitivo.
Já o Godzilla americano tenta levar-se a sério, e esse é o seu erro. Os produtores criaram uma campanha publicitária proibindo a divulgação de imagens do próprio Godzilla antes da estréia da fita (assim como havia feito Spielberg com seu E.T.). Mas o tiro saiu pela culatra, porque eles erraram no básico: a criação do monstro. O novo Godzilla não tem cara nem personalidade. Não foi humanizado (o que teria sido ótimo para vender bonecos) e, pior, ficou parecido demais com um fugitivo do Parque dos Dinossauros.
Defeitos — Os efeitos especiais também não têm nada de mirabolante. Quase todo o filme se passa na chuva ou à noite, para tornar menos visíveis os defeitos do monstro quando ele caminha por Nova York. O roteiro é muito mal alinhavado. Por alguma razão nebulosa, Godzilla resolve fazer seu ninho no famoso ginásio esportivo Madison Square Garden, em Nova York. Ele procria sozinho, sem parceiros, e nasce uma porção de "godzilinhas", o que abre a porta para uma improvável continuação. Sem a ingenuidade charmosa do original, Godzilla é dinheiro jogado fora. Seu "fracasso" pode ser também indício de que o público não consome com a mesma voracidade superespetáculos mal escritos e estúpidos, o que pode fazer com que os estúdios desistam deles.
Rubens Ewald Filho
http://www2.uol.com.br/veja/150798/p_113a.html