Entre amigos

Coroas, juventude rebelde e um gênio
brindam e brigam com classe

Geraldo Mayrink

Williams e Damon:
o médico e o paciente
num duelo de emoções
Foto: Divulgação  

Modernamente antigo assim é Gênio Indomável (Good Will Hunting, EUA, 1997). Nele há a atmosfera pesada e surrada dos dramas entre gerações, outrora chamados de "retratos da juventude transviada", como o próprio Juventude Transviada ou Sementes de Violência, dos anos 50, e não há rebeldes sem causa ou drogados ferozes à beira do abismo, como os de Trainspotting, do ano passado. Aqui se trata de gente simples e pobre, operários de cabelos curtinhos, lutando pelo pão de cada dia, que tomam cerveja, fumam tabaco, não matam e só gostam de bater em antigos rivais, nesses folguedos próprios da idade. Além disso, o filme retoma a linha do gênio marginal, como o limítrofe Forrest Gump de Tom Hanks, e acrescenta a ela as virtudes de uma boa formação escolar, como a que Robin Williams transmite a seus alunos em Sociedade dos Poetas Mortos. Coisas como valores bons, autênticos, originais, humanos principalmente. É a tradição entrando na avenida, mas também um apreço e uma torcida pelo considerado fora do comum.

Poderia dar numa grande confusão, mas o filme de Gus van Sant (Drugstore Cowboy, Garotos de Programa) acaba interessando pela sinceridade com que mostra encontros, farras, brigas e birras, tudo entre amigos. Amigos de verdade, na tela e fora, são Will Hunting (Matt Damon), faxineiro numa universidade, mas capaz de resolver em segundos equações que os matemáticos de cátedra só decifram em anos, e Chuckie (Ben Affleck), pedreiro que dá carona a Will e sabe, resignado, que sua vida nas demolições de Boston será a mesma até o fim de seus dias. Amiga dos dois e namorada de Will é Skylar (Minnie Driver), inglesa rica e esnobe que prefere o contato com as classes populares. E amigo ainda, negócios à parte, é o professor Lambeau (Stellan Skarsgard), luminar acadêmico que persegue o jovem gênio para arrumar-lhe bons empregos, em troca da decifração de intrincados teoremas. Will, no entanto, está mais interessado em beisebol e hambúrgueres.

Imodéstia Damon e Affleck escreveram o roteiro do filme durante anos. Era no começo uma peça de teatro, com o objetivo, imodestíssimo, de consagrá-los um dia. Eles penaram, mas chegaram lá: além de concorrer a nove Oscar, Gênio Indomável custou l5 milhões de dólares e faturou 70 milhões nas bilheterias americanas nos três últimos meses. O roteiro rodou de estúdio em estúdio, criou fama antes de ser filmado e despertou cobiças. A atriz Gwyneth Paltrow obteve uma cópia e deixou o texto debaixo do travesseiro de Brad Pitt, seu namorado. Pitt, tão louro quanto Damon mas sem dotes literários, que se saiba, tentou roubar o papel de Will, mas não conseguiu segurar nem a namorada. Damon, de 27 anos, visto no Brasil no papel de um soldado na Guerra do Golfo em Coragem sob Fogo, puxou seu diploma de formado em literatura inglesa em Harvard e defendeu sua criação com o poderoso apoio de Francis Ford Coppola (com quem fez o recente The Rainmaker, ainda inédito no Brasil). Ele e Affleck ouviram também as opiniões de muitos outros amigos e reescreveram tantas vezes a história que nenhum dos dois é capaz de lembrar como era no início. Entre outras evoluções, ela chegou a ser até mais um desses embates coalhados de sangue envolvendo tiras e traficantes, um lugar-comum total no atual mercado hollywoodiano. "Foram muito além do que esperavam, que era algum prêmio em festivais de arte e uma bilheteria razoável", comenta Van Sant.

Na versão finalmente realizada, a ação entre amigos tornou-se envolvente e centrou seu foco na relação entre Will e o terapeuta Sean (não por acaso, e sempre bom nesses papéis didáticos, Robin Williams), os dois vindos de infâncias desvalidas, ambos fortes em suas crenças, um querendo curar o outro e o outro querendo continuar do jeito que está. Will se orgulha de nunca ter saído de seu mundo suburbano e cita filósofos como Karl Popper como seus amigos de bate-papo. Sean o fulmina: "Eles estão mortos. Você sabe tudo sobre arte, mas nunca pôs os olhos no teto da Capela Sistina, que está viva". Obviamente é um desses reencontros dramáticos e simbólicos entre pai e filho, mas o roteiro reduz o choque ao mínimo, na sabedoria de que poltrona de cinema só serve como sofá de analista por cinqüenta segundos.

Há momentos bonitos, como a cena em que os dois se abraçam reconhecendo que não há culpa no mundo, a não ser o tempo perdido, e alguns desagradavelmente repetitivos, com a simpatia natural provocada pelo personagem excepcional se transformando em antipatia, tão agressivo, sem modos e atrevido ele é. Mas gênios devem ser assim mesmo. Albert Einstein era um obscuro burocrata quando formulou a teoria da relatividade e ainda hoje pode ser visto em cartazes mostrando a língua, numa espécie de vingança infantil. Damon, mesmo sem ser gênio, pode mostrar a língua para Brad Pitt assim que entrar em cartaz com Saving Private Ryan, ao lado do duas vezes oscarizado Tom Hanks e sob a direção de Steven Spielberg. A rebeldia compensa.

http://www2.uol.com.br/veja/250298/p_074.html

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