Com garra de xerife do ar, o
presidente
Harrison Ford dá um show e maus exemplos
Geraldo Mayrink
A Guerra Fria, do tempo em que os presidentes americanos voavam em fabulosos Boeings 707, está mais viva do que nunca em Força Aérea Um (Air Force One, EUA, 1997). E tão mais viva e futurosa quanto o presidente agora é James Marshall, aliás Harrison Ford, e seu cavalo aéreo, o ainda mais formidável Boeing 747. Jamais se viu presidente e avião iguais. O primeiro, modelo de retidão tão grande que nem James Stewart e Henry Fonda em seus melhores momentos lhe fazem sombra, está em Moscou para ser homenageado. Junto com a nova Rússia, o presidente Marshall (que quer dizer "xerife") capturou e pôs na cadeia o tirano Radek, líder de uma daquelas repúblicas cujos nomes terminam em ão, que sonha reinplantar o comunismo. No vôo de volta ao lar, o avião é seqüestrado pelo facínora Korshunov (Gary Oldman) e sua horda fanática. Querem a soltura de Radek, do contrário matarão, de meia em meia hora, todo mundo a bordo, inclusive primeira-dama e primeira-filha. Um plano infalível, se o presidente não fosse o que todos os presidentes do mundo que voam em aviões mais modestos sonham ser, misto do agente da Uncle, Hans Solo e Indiana Jones.
É um filme menos patriótico do que Independence
Day, e menos ridículo também, o que não é vantagem, embora insista em
certas taras atávicas desse tipo de aventura falsamente política. O presidente
russo, de olhos asiáticos repuxados e bochechas vermelhas, é fraco e bebe. Os
presos comunistas, crentes que seu líder está sendo solto, cantam a Internacional
com estridência. O roteiro foi escrito por um estreante de muita sorte, Andrew
Marlowe, que não quis correr riscos, e a direção, entregue a um alemão
competente em misturar homens, máquinas e explosões, Wolfgang Petersen (A
História sem Fim, Na Linha de Fogo). Com a ajuda da Força Aérea
Americana, foi construída uma réplica de fantasia do avião presidencial (que
não carrega pára-quedas, como no filme). Em terra, a vice-presidente Bennett
(Glenn Close) cuida com energia das negociações com os seqüestradores. Mas é
nas alturas, esgueirando-se entre os porões, matando sorrateiramente como o
velho Rambo, que o estadista armado cumpre à risca a promessa que fizera em
Moscou
não negociar, jamais, com as forças do mal. Quanta inveja também deve ter
despertado nos gabinetes presidenciais pelo mundo afora.
Um dos cinco campeões de bilheteria na sua primeira semana de exibição americana (37 milhões de dólares, contra um custo de 85), em julho, Força Aérea Um seduz por não ter a menor vergonha de ser um espetáculo infantil. É, em suma, a reafirmação da saga do self-made-man, o bem é o bem e o que não for é o seu contrário, e seu suspense espacial é o mesmo que gerações passadas encontraram nas leituras de outros campeões de audiência do tempo da Guerra Fria, os gibis. As novidades são que o mundo é seu se você tem um celular na mão e não tem importância dizimar pessoas, se o seu lado é o certo. Crivado de balas e alvejado por mísseis, o Air Force segue impávido pelo céu. A empresa fabricante agradece o anúncio. Quanto aos congressistas que defendem a democracia em terra, iam ficar de cabelos arrepiados se o filme durasse mais alguns minutos. Com um xerife do porte de Harrison Ford, quem precisa de deputados e senadores para fazer leis? Esta é a última fruta desse pomar de invejas com que o filme tenta os presidentes do mundo.
http://www2.uol.com.br/veja/030997/p_125.html