Safra de férias leva crianças
à China antiga,
à Inglaterra do Rei Artur e ao espaço sideral
Rubens Ewald Filho
Com as férias de julho, entram em cartaz três filmes dedicados ao público infanto-juvenil. Mulan é o tradicional desenho animado da Disney. A Espada Mágica é a produção com a qual a Warner espera abocanhar um naco do milionário filão dos desenhos animados — para ter uma idéia, O Rei Leão, de 1994, depois de render 400 milhões de dólares nas salas de cinema, continua a ter vida em revistas, livros, bonecos, álbuns de figurinhas etc. Em comum, Mulan e A Espada Mágica têm o fato de serem desenhos animados destinados mais às meninas do que aos meninos. O terceiro lançamento das férias é a versão para as telas da série de televisão Perdidos no Espaço, grande sucesso nos anos 60. Seguindo a tendência de filmes como Missão Impossível, na transposição do seriado para o cinema ganha-se em apuro cenográfico mas perde-se algo do encanto original. Mais do que um programa para quarentões que se divertiam na infância com as desmunhecadas do Doutor Smith, este Perdidos no Espaço é para seus filhos.
O famoso alerta do robô da série Perdidos no Espaço volta a ecoar pelo cosmo, desta vez em som dolby-stereo e em forma de longa-metragem. Perdidos no Espaço, o filme (Lost In Space, Estados Unidos, 1998), que estréia nesta quarta-feira em circuito nacional, é a versão anos 90 do seriado exibido inicialmente entre 1965 e 1968 e reprisado continuamente. O programa, uma mistura de ficção científica com humor, com seu robô de lata e atores maquiados com purpurina, até hoje mantém seu charme. Sobretudo pelo carisma do vilão Doutor Smith, interpretado por Jonathan Harris. No Brasil, Doutor Smith era dublado pelo ator Borges de Barros, que até hoje faz o papel de Caro Colega no programa A Praça É Nossa. Borges de Barros foi considerado pelo próprio Jonathan Harris a melhor voz entre os vários dubladores do Doutor Smith espalhados pelo mundo. Foi ele quem imprimiu ao personagem a pronúncia afetada. "A inspiração veio dos trejeitos esquisitos do Doutor Smith, que me faziam pensar numa cobra", lembra Barros.
Infelizmente para os fãs do antigo Perdidos no Espaço, há pouco da série antiga neste novo filme. O diretor Stephen Hopkins optou por fazer uma ficção científica bombástica e tradicional. Com um orçamento de 60 milhões de dólares, o diretor colocou na tela efeitos especiais de primeira e contratou um bom elenco, que inclui Gary Oldman no papel de Doutor Smith. Perdidos no Espaço, o filme, é uma espécie de pot-pourri das últimas produções de ficção científica: começa com uma batalha espacial digna de Guerra nas Estrelas, cria um universo paralelo como em De Volta para o Futuro, tem monstros pegajosos como Alien etc. Mas nada foi suficiente para cativar o público. Com toda essa grandiloqüência, o filme só empolga quando o robô fala "Perigo... perigo!" É que, para fazer a voz da geringonça, foi convidado o mesmo Dick Tufeld da série original. É o único momento em que este Perdidos no Espaço anos 90 lembra seu antecessor menos rico e bem mais divertido.
Mulan (Estados Unidos, 1998), o novo desenho da Disney, é inspirado numa antiga lenda oriental sobre uma mulher que se disfarça de homem para combater numa guerra. Você já viu, ou leu, esse enredo várias vezes — inclusive em Grande Sertão: Veredas —, mas os estúdios Disney o recontam com seu estilo inconfundível, ou seja, exuberância de imagens e tom politicamente correto. Mulan, a personagem-título, é uma heroína feminista, que vence os homens pela disciplina e força de vontade. Como ensina a velha cartilha da Disney, um desenho animado não pode ter cenas de violência — e isso é especialmente complicado num filme de guerra. Mostram-se combates sangrentos e paisagens devastadas pelas batalhas, mas não há cadáveres. Outro toque politicamente correto é a presença de Eddie Murphy dublando o desajeitado dragão Mushu, num papel parecido com o de Robin Williams em Aladdin. Falar em gíria de negros americanos dá certa graça ao personagem, mas embalar uma fábula passada na China antiga com True to Your Heart, cantada por Stevie Wonder, soa um pouco falso demais. No capítulo "exuberância visual", destaca-se a cena da batalha na neve, feita com efeitos de computação gráfica. O colorido do filme, elaborado pelo desenhista Hans Bacher, é todo em tons pastéis, lembrando antigas gravuras orientais. Com o desenho, a Disney quer fazer um agrado no governo chinês. Os filmes do estúdio estão banidos daquele país, com seu potencial mercado de 1 bilhão de consumidores, desde que Kundun, de Martin Scorsese, acusou abertamente a China de ter invadido o Tibete e expulsado o dalai-lama. Talvez Mulan consiga esse objetivo, mas com certeza não se conta entre obras-primas da Disney como Fantasia ou O Rei Leão.
Criadora de desenhos animados bem-sucedidos como Pernalonga, a Warner decidiu ousar em 1998, desafiando a Disney e lançando um longa-metragem de animação. O filme se chama A Espada Mágica (Quest for Camelot, Estados Unidos, 1998) e entra em cartaz em circuito nacional. De olho nas pesquisas, que indicam que as meninas são as consumidoras mais ávidas de desenhos, o estúdio escolheu uma trama visando a esse público. O filme conta a batida história do Rei Artur, mas pelo ponto de vista de uma garota que deseja seguir os passos do falecido pai e tornar-se cavaleira da Távola Redonda. Apesar dos esforços, o desenho não impressiona. Fracassou nos Estados Unidos, onde não rendeu mais do que 23 milhões de dólares. É uma fita que não vai vender bonecos nem perturbar a concorrência, embora não chegue a aborrecer as crianças.
Um dos grandes problemas do desenho é a fraca personagem central. Kayley é amorfa, pouco expressiva, incapaz de assumir sua missão de heroína. Na maior parte do tempo depende, para se salvar, das habilidades de um jovem cego que a acompanha na busca pela espada Excalibur. O vilão Ruber é uma figura marcante, assim como seu ajudante Griffin, um grande pássaro incompetente. Mas quem rouba a cena é um dragão com duas cabeças, que além de tudo tem a melhor canção do filme. As outras músicas são fracas e imemoráveis. Nem a participação da incansável Celine Dion, a cantora do tema de Titanic, consegue salvá-las. Na parte plástica, o desenho mistura imagens geradas por computador com técnicas mais tradicionais, não atingindo pontos altos de fluidez e elaboração. A Espada Mágica demonstra que o sonho da Warner ainda está distante. A Disney continua imbatível mesmo quando não produz grande coisa.
http://www2.uol.com.br/veja/010798/p_158.html