O que houve com Babenco?

Seu filme autobiográfico, Coração Iluminado, é
uma surpresa: pesado e difícil de entender

Okky de Souza

Hector Babenco:
depois do câncer, a
luta contra os efeitos
colaterais do tratamento
Foto: Frederic Jean  


"Achei que esse seria meu último filme, que iria morrer. Por isso tinha de me despedir das pessoas que foram responsáveis pelo que sou"

Em primeiro lugar, convém refrescar a memória sobre Hector Babenco. O diretor argentino naturalizado brasileiro é um dos poucos do cinema nacional que podem ser chamados de cineasta. Desses, é o único que tem efetiva projeção em Hollywood. Os seis longas-metragens que realizou, entre eles Pixote e O Beijo da Mulher Aranha (vencedor do Oscar de melhor ator e indicado a outros três), lhe garantem um currículo muito acima da sofrível média de produção do país. Babenco tem um estilo próprio de narrativa, conta histórias de maneira original sem se tornar hermético. Por tudo isso, muitos espectadores irão estranhar — e põe estranhamento nisso — o novo trabalho do diretor, Coração Iluminado (Corazón Iluminado, Brasil/Argentina/França, 1998), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. A obra não se destina a grandes platéias. É pesada, angustiante, longa, quase um filme de arte ao estilo europeu, no sentido que exige total cumplicidade do público para deslindar as entrelinhas e os meandros psicológicos das cenas. Em alguns momentos, desliga-se de qualquer compromisso com a lógica. Coração Iluminado tem muitas qualidades, mas nem todo mundo terá paciência de descobri-las.

A pergunta é inevitável: o que houve com Babenco? Por que ele empreendeu essa virada na carreira, investindo 8 milhões de dólares num filme tão difícil? Onde está o cineasta que tão habilmente contava histórias acessíveis a todos? Para esclarecer esse enigma, é preciso que se saiba como o filme nasceu e em que condições foi realizado. Coração Iluminado, à exceção da cena final, é inteiramente autobiográfico. Reúne passagens que marcaram o diretor na juventude e, mais tarde, na idade madura. Babenco decidiu recriá-las na tela como uma espécie de prestação de contas com a vida no momento em que ela lhe parecia fugir das mãos, levada por um câncer no sistema linfático. "Achei que esse seria meu último filme, estava ficando com os dias contados e tinha de me despedir de quem foi responsável pelo que sou", explica o diretor. Em Coração Iluminado, as memórias de Babenco vão surgindo na tela num jorro meio desordenado, combinando cenas realistas a outras puramente simbólicas. A doença, afinal, foi debelada, com um transplante de medula. Mas, por um longo tempo, o diretor ainda sofreu terríveis efeitos colaterais do tratamento, que o atormentaram durante as filmagens de Coração Iluminado.

No filme, o diretor se
retrata na juventude
(no centro da foto ao
lado, de chapéu)
e aos
40 anos (abaixo, ao lado
de Xuxa Lopes)
Fotos: Divulgação  

Pazes com a vida — Babenco quase não tinha forças para dirigir os atores no set. Ficava a maior parte do tempo sentado, ou instalado numa caminhonete, acompanhando as cenas pelo monitor. Faltava-lhe energia até para abrir o lacre das garrafas de água mineral. Por duas vezes as filmagens tiveram de ser interrompidas por causa de seus problemas de saúde. "Quando a última cena acabou, sentei e chorei, constatando que ainda estava vivo", ele conta. O diretor admite que no roteiro do filme, elaborado com a ajuda do escritor argentino Ricardo Piglia, não teve a preocupação de contar uma história de maneira linear. Diz ter sonegado informações e até cenas inteiras — filmadas e depois desprezadas —, que ajudariam o espectador a entender melhor a fita, inclusive seu final desconcertante. Os diálogos são todos em espanhol, mas, a certa altura, a personagem Lilith (Xuxa Lopes, mulher do diretor na vida real) começa a falar em português. Qual a explicação? "Nenhuma", afirma Babenco. "Ela disse as frases na hora da filmagem e decidimos aproveitá-las."

Coração Iluminado é basicamente a história de um grande amor. Na primeira parte do filme, Juan (alter ego de Babenco, interpretado pelo argentino Walter Quiróz) mora em Mar del Plata, tem 17 anos e apaixona-se por Ana (Maria Luísa Mendonça), mulher liberada, mais velha e com um passado de internações psiquiátricas. Os dois vivem um amor louco, que quase os consome. Surgem outros personagens que povoaram a juventude do diretor. O pai, um vendedor ambulante nem sempre honesto nos negócios. Os amigos esquisitos, como um guru com poderes paranormais e um fotógrafo que inventa uma câmara para registrar a alma humana. Na segunda parte do filme, a narrativa se torna francamente simbólica e delirante. Já com 40 anos e bem-sucedido como diretor de cinema em Hollywood, Juan (agora vivido por Miguel Angel Solá) volta à cidade natal para visitar o pai, moribundo, e procura sua antiga paixão. Na vida real, como no filme, Babenco viu o pai morrer mas não permaneceu em Mar del Plata para o enterro: no dia seguinte começariam os ensaios com William Hurt e Raul Julia para O Beijo da Mulher Aranha. Ele sempre se culpou pelo episódio. Colocar na tela essas e outras lembranças foi a forma que encontrou para fazer as pazes com a vida, depois de sentir a morte batendo à porta.

http://www2.uol.com.br/veja/111198/p_208.html

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