Cenas velhas, maldades recentes e um trio
de astros fazem a festa-catástrofe de Con Air
Geraldo Mayrink
No meio dos tiros, homicídios e explosões que pontilham os 115 minutos de Con Air -- A Rota da Fuga (Con Air, EUA, 1997), que teve estréia mundial na semana passada, alguém faz uma reflexão surpreendente: a de que o grau de civilização de uma sociedade pode ser medido pela observação de seus prisioneiros. A frase, creditada ao autor, é do romancista russo Fiodor Dostoievski e, se aplicada ao filme, mede mais do que isso. Não só a sociedade americana está cada vez mais tomada pela "escória da escória", julgamento radical também feito por um personagem em cena, como a indústria do espetáculo é cada vez mais o território de bucaneiros sem dó do bolso do público. Quem quiser novidade que justifique o preço da entrada deve fugir de Con Air.
Mais um dos "filmes de verão" com que a indústria costuma faturar o que nem sempre consegue no resto do ano, Con Air vem com a garra de um pirata vitorioso, o produtor Jerry Bruckheimer, que promete e cumpre ao servir um fliperama como tantos outros. Ele só mente em palavras, ao anunciar seu produto com grandiloqüência: "Trata-se de uma história de redenção, uma grande odisséia com um herói dos tempos modernos, sobre seus imensos obstáculos e as situações de vida e morte que ele encontra na jornada para o seu lar e sua família". Deve estar falando de outro filme.
Homens e máquinas -- À sua própria marca Bruckheimer acrescentou o selo de qualidade de atores premiados com o Oscar (Nicolas Cage), candidatos insistentes a ele (John Malkovich) ou gente de prestígio mais intelectual como John Cusack, duas vezes escolhido para produções de Woody Allen. São eles que seguram uma história requentadíssima. Só que, acima do trio de ouro, e no caso é o que interessa, está um velho avião C-123, capaz de cair, decolar de novo e cair outra vez como nunca se viu antes, para imenso divertimento de seus ocupantes, nem sempre para o da platéia.
Essa junção de homens e máquinas (há ainda tanques, helicópteros, carros, granadas, revólveres, telefones celulares), com as máquinas sendo muito mais interessantes que os homens, é que transforma tudo em aventura de grande estridência. Como de hábito, quem achar que já viu este filme já viu mesmo, até no sentido mais literal. Trata-se de juntar um bando de facínoras num mesmo espaço (como num clássico dos anos 60, Os Doze Condenados) e acrescentar um monstro comportamental dos anos 90, uma paródia do canibal Hannibal que Anthony Hopkins imortalizou para o mal em O Silêncio dos Inocentes. Surpreendente é o que a indústria do liquidificador cultural consegue fazer ao triturar esses ingredientes conhecidos. Até porque a história, simples como a de um gibi, nasceu de uma notícia de jornal que caiu nas mãos do roteirista Scott Rosenberg. Lá se falava da existência de um serviço aéreo oficial, de altíssima segurança, para levar presos de uma cadeia para outra. Estava na cara: e se eles tentassem fugir?
Tom e Jerry -- Isso jamais aconteceu na vida real, mas aí é que entra a regra de que filme é filme e o resto é só história. O roteiro foi parar nas mãos do diretor Simon West, britânico e novato. Ele providenciou um delírio tamanho que o avião chega a decolar levando um carro dependurado por um cabo. Depois, o corpo de um infeliz cai do céu em cima de um carro, mas trazendo na jaqueta uma mensagem certeira para que os policiais em terra saibam para onde está indo o avião seqüestrado pelos prisioneiros. No chão está o agente Larkin (Cusack), numa correria infernal para capturar os fujões. No céu estão Grissom (Malkovich), o bárbaro chefe do motim, Cameron (Cage), que tentará detê-lo, e todos os outros -- um estuprador, um travesti, um diabético que precisa tomar remédio e por aí afora. Quanto mais o filme avança, mais frenético fica.
É diversão de tirar o fôlego, principalmente pelo humor a que o duelo Cage x Malkowitch chega ao incorporar incidentes que lembram os melhores momentos de Tom e Jerry. Para os atores, então, é uma farra só, ou pelo menos serve como um desses "exercícios de laboratório" para treinar mão-de-obra dramática. Cusack, sempre com cara de bobalhão e pouco acostumado a filmes de ação, não tira a gravata nem nas cenas mais esbaforidas. Cage aproveita para petrificar seu rosto numa única expressão de fé determinada e Malkovich, mais dado a exibicionismos, monta seu show de caras, caretas e urros. Como nem tudo é perfeito num filme tão bem planejado para ser visto e esquecido, fica deslocado o amor de Cameron pela mulher e filhinha, mostrado em cenas rápidas e constrangedoras. E o anunciado como o máximo dos máximos (o avião pousando nas ruas de Las Vegas, atrapalhando o trânsito e invadindo cassinos) é composto de momentos intermináveis, sem graça e surpreendentemente mal editados. Um defeito menor, pois o filme já está acabando.
A mão de ferro do patrãoA dupla mais pesada da produção americana, Jerry Bruckheimer e Don Simpson, não errou o alvo uma única vez desde Flashdance, em 1983, sua primeira parceria. É só conferir: Um Tira da Pesada, Ases Indomáveis, Os Bad Boys, Maré Vermelha e Dias de Trovão, entre outros. Nenhum de seus filmes pode ser considerado inesquecível. Em compensação, criaram uma máquina de ganhar dinheiro no valor de 3 bilhões de dólares em vendas de ingressos, vídeos e discos. Um economista de renome, Paul Krugman, considera Bruckheimer o número 1 do mercado, baseando-se na média de arrecadação nos Estados Unidos por filme. Filho de imigrantes alemães pobres (o pai vendia roupas), Bruckheimer nasceu em Detroit, formou-se em direito e trabalhou como fotógrafo e diretor de arte. Produziu sozinho O Gigolô Americano (com Richard Gere) e A Marca da Pantera antes de associar-se a Simpson. Este planejava e procurava roteiros, Bruckheimer ia atrás do dinheiro e equipes, grudando nelas como um carrapato durante as filmagens. Basta ver como foi a origem de Con Air, nas suas palavras: "O roteiro de Scott Rosenberg era muito bem escrito, mas precisava de mais coração". Quer dizer, mudou quase tudo e ainda chamou um diretor novato mas de sua simpatia, Simon West. Um patrão, em suma -- e tão vaidoso que sua idade certa (casa dos 50) é desconhecida. A parceria terminou de maneira trágica no ano passado, quando Simpson, então com 52 anos, morreu afogado na piscina de sua casa depois de uma overdose. Sozinho, Bruckheimer produziu A Rocha (335 milhões de dólares de faturamento mundial), Con Air e está trabalhando em cinco projetos ao mesmo tempo, um deles para ser filmado no segundo semestre, Armageddon, ficção científica com o superastro Bruce Willis. |
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