O sexo dos anjos

Hollywood injeta açúcar na refilmagem
de uma história do alemão Wim Wenders

Depois de tomar um banho de loja, o filme Asas do Desejo, do alemão Wim Wenders, reencarna nas telas americanizado, com ares de comédia romântica. Em Cidade dos Anjos (City of Angels, Estados Unidos, 1998), que estréia nesta quinta-feira em circuito nacional, a soturna Berlim de Wenders dá lugar a uma frenética Los Angeles, repleta de vias expressas e parques ensolarados. Se no original germânico o amor entre o anjo (Bruno Ganz) e a trapezista de circo (Solveig Dommartin) era um sentimento à beira do platonismo, em Hollywood o desejo pega fogo. O anjo americano é um Nicolas Cage sedento por uma noite de amor debaixo do edredom da suspirante Meg Ryan, que mais uma vez interpreta o mesmo papel: o de Meg Ryan. Ao contrário do filme alemão, fotografado quase todo em preto-e-branco, Cidade dos Anjos é puro technicolor, com uma trilha musical embalada pelo rock de Alanis Morissette e do U2. Sem a aura dark do original, a fita guarda parentesco com o finado Ghost, só que com um roteiro bem mais descosturado. Por essas e outras, os cinéfilos mais ortodoxos, admiradores do estilo angustiado de Wenders, abominarão Cidade dos Anjos. O próprio alemão, no entanto, depois de ver a versão de sua obra, disse não ter do que se queixar.

Os estúdios americanos, que costumam detestar os filmes de arte, freqüentemente fazem refilmagens de fitas européias adaptando-as ao paladar de seu público. Entre os exemplos mais bem-sucedidos de bilheteria das refilmagens está a comédia A Dama de Vermelho, versão dirigida e interpretada por Gene Wilder a partir do filme francês O Doce Perfume do Adultério. Outro transplante de sucesso foi a adaptação de A Gaiola das Loucas, com Robin Williams e Nathan Lane nos papéis principais, cujo original franco-italiano tem como protagonistas Ugo Tognazzi e Michel Serrault. Além de ser uma refilmagem como tantas outras, Cidade dos Anjos sinaliza uma tendência do cinema americano. "Depois do sucesso de Titanic, os estúdios estão apostando pesado na volta do romantismo", diz o crítico Rubens Ewald Filho. Hollywood se deu conta de que, nos últimos anos, ao dar preferência a filmes de ação e pancadaria, havia relegado a um segundo plano a platéia feminina, sempre sedenta por histórias de amor. Meloso, sem aqueles diálogos herméticos do filme de Wim Wenders, este Cidade dos Anjos é um programa razoável para as moças sonhadoras e um excelente soporífero para os marmanjos dispostos a acompanhá-las ao cinema. É só não roncar muito alto.

Angela Pimenta

http://www2.uol.com.br/veja/100698/p_151a.html

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