Derrota justa

Barreto mereceu perder o Oscar para Caráter

Cena de Caráter:
tipos bizarros e
narrativa vertiginosa
Foto: Divulgação  

Agora que passou o furor cívico em torno da possibilidade de o Oscar vir para o Brasil pela primeira vez, é inevitável admitir: a derrota de O que É Isso, Companheiro? na categoria de melhor filme estrangeiro foi mais do que merecida. Caráter (Karakter, Holanda, 1997), que estréia nesta semana em circuito nacional, é melhor, mais original e de maior impacto do que nossa pobre fábula sobre guerrilheiros tropicais. Realizado por um diretor praticamente estreante, Mike Van Diem, 39 anos, com experiência anterior apenas em curtas-metragens e séries de TV, Caráter é uma adaptação de um livro clássico da literatura holandesa, publicado em 1938 por Ferdinand Bordewijk. Uma obra influenciada por Charles Dickens, com suas tramas tortuosas, revelações inesperadas e descrição acurada de tipos bizarros. Não é uma história de amor. Está mais para uma história de ódio, cujo protagonista é alguém que nunca conseguiu ser amado pelo próprio pai.

Para levar este argumento às telas, o diretor Van Diem foge do realismo. Admirador confesso do americano Terry Gilliam, ele cria ambientes opressores, que lembram ainda o expressionismo do alemão Fritz Lang. A cena inicial, vertiginosa, dá uma exata medida das intenções do diretor. O protagonista, um certo Katadreuffe (Fedja van Huet, que por vezes lembra muito Robert Downey Jr.), entra determinado dia no escritório do homem mais odiado da Roterdã dos anos 20, o oficial de Justiça Dreverhaven (um impressionante e impávido Jan Decleir). Depois de trocar algumas palavras, o rapaz se joga contra o homem mais velho e instantes depois sai ensangüentado. A partir daí, a história deste assassinato é reconstituída em flashback. O tom é grandiloqüente, os atores são teatrais, os movimentos de câmera são barrocos. Instaura-se uma estranheza que pouco a pouco envolve o espectador. Há no filme a criatividade que falta a O que É Isso, Companheiro?, que nada mais faz do que mimetizar o thriller hollywoodiano. O único senão fica por conta da verossimilhança. Faltou explicar melhor como o protagonista consegue formar-se advogado estudando uma enciclopédia. Ele teria de ser mais brilhante do que o personagem de Matt Damon em Gênio Indomável. Defeito que acaba sumindo em função da interpretação de Fedja van Huet. Ele vive seu personagem com tanta garra que acabamos acreditando que Katadreuffe é mesmo capaz de qualquer proeza.

Rubens Ewald Filho

http://www2.uol.com.br/veja/020998/p_146a.html

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