Malfeitores roubam a cena e provocam atrito
entre os heróis de Batman & Robin
Celso Masson
Já no primeiro diálogo do filme Batman & Robin (Batman & Robin, Estados Unidos, 1997), que estréia nesta semana em quase 200 cinemas do Brasil inteiro, dá para perceber que a dupla dinâmica não se entende mais como nos velhos tempos. "Quero um carro como o batmóvel", queixa-se o menino prodígio. "É por isso que o Super-Homem trabalha sozinho", resmunga o homem-morcego. À sombra de Batman, Robin vai à luta, de motocicleta mesmo, mas não se dá por vencido. A cada nova oportunidade, aumenta sua lista de reivindicações. Ele quer uma porção de coisas que fazem de Batman, Batman, e dele, Robin. Quer, e isso é que o deixa furioso, uma namorada. A pretendente não tarda a aparecer. Saída das selvas tropicais da América do Sul, ela enfeitiça o garoto com um vapor afrodisíaco. Santa cilada! Ela é Hera Venenosa, vilã que aprisiona numa só tacada os corações de Robin e de Batman. Incensados pela moça, os heróis se engalfinham.
Pudera. A atriz por trás da vilã é Uma Thurman, a mais nociva arma já inventada contra a supremacia da dupla dinâmica. Boa ladra, ela rouba a cena, ainda que não seja a única novidade que Batman & Robin, o quarto filme da série, tenha em relação aos anteriores. Para garantir mais um sucesso de público, gastou-se uma fortuna no elenco. Foram 60 milhões de dólares em atores, dos quais 25 milhões para Arnold Schwarzenegger. É o maior cachê que alguém já embolsou para atuar num filme. Em compensação, o ex-halterofilista teve de raspar a cabeça e submeter-se a sessões de maquilagem que chegavam a durar oito horas. Saía do camarim reluzente como um diamante, pronto para vestir a armadura metálica do gélido Mr. Freeze.
Além de Schwarzenegger e de Uma Thurman (que ganhou 3 milhões de dólares por seu papel), o elenco traz Alicia Silverstone, a loura de As Patricinhas de Beverly Hills, na pele de Batgirl, e Chris O'Donnell, o mesmo Robin do episódio anterior. Quem faz tremular a capa do homem-morcego -- personagem já encarnado por Michael Keaton e Val Kilmer -- é George Clooney, a maior aposta de Hollywood atualmente. Badalado por conta de seu personagem na série de TV Plantão Médico, Clooney tem seu charme, mas não consegue esconder que foi precocemente escalado para o papel de Batman. A escolha pode ter sido arriscada, mas o público americano aprovou a combinação de nomes consagrados com estrelas emergentes. O filme, que estreou em 20 de junho, rendeu 44 milhões de dólares em três dias, o que corresponde à sétima melhor estréia até hoje.
Trama frouxa -- Se os números mostram que a batmania continua em alta, a saga do homem-morcego sofreu pelo menos uma baixa considerável. Tim Burton, diretor dos dois primeiros filmes da série e produtor do terceiro, agora ficou de fora. Às voltas com uma refilmagem de Superman, Burton abandonou a batcaverna. Para dirigir o quarto episódio optou-se pelo mesmo Joel Schumacher de Batman Eternamente (veja quadro). Schumacher fez um grande filme, caprichando nos efeitos visuais e na monumentalidade dos cenários, duas marcas registradas da série. Ele também soube vestir seus heróis e vilões com figurinos bem desenhados. Mas pegou leve no que de fato importa: o lado sombrio de Batman. Criado por Bob Kane, em 1939, Batman voltou à tona nos anos 80 graças a Frank Miller, numa brilhante história em quadrinhos intitulada O Cavaleiro das Trevas. A recriação de Miller, um herói ambíguo, solitário e destrutivo, não apenas tirou o morcego da aposentadoria como abriu caminho para que Tim Burton lançasse em grande forma seu justiceiro dark -- Batman teve a sorte, ainda, de ser apresentado por um Burton bem menos narcisista do que se veria em filmes posteriores, quando parece mais ocupado em mostrar seu domínio de estilo do que em contar a história. Ao ressurgir nas telas, com um batmóvel que cuspia fogo pelo escapamento e sem o menino prodígio enganchado em seu cinturão, Batman era um vingador. Não perdia tempo explicando seus atos de bravura, nem os de violência.
Em Batman & Robin, aquele herói truculento dá lugar a um bom-mocismo que deixa a trama um tanto frouxa. O Batman atual não muda de personalidade quando veste sua máscara de orelhas pontudas. Continua pensando e agindo como se estivesse à paisana, com o roupão do milionário Bruce Wayne. Pior ainda, ele dá lições de moral a Robin e Batgirl. Quem sofre com isso é o espectador, já que não há nada mais chato que se sentar na poltrona do cinema para ouvir alguém dizendo o que é certo ou errado. Tirando esse detalhe, Batman & Robin agrada. Como se sabe, Gotham City é um lugar sinistro. Tão sinistro que até seu defensor é uma criatura das trevas. Lá, aberrações aparecem todas as noites. Isso porque até os cientistas de Gotham, por maior que seja o Q.I. deles, têm mau agouro. Vitimados por acidentes, esses gênios incompreendidos -- alguns são ex-funcionários das empresas de Bruce Wayne -- tornam-se monstruosidades ambulantes cuja missão é destruir Batman para espalhar o mal livremente.
Mutações -- Renovar os vilões de Gotham City é o segredo da longevidade da série. No episódio atual, eles são três, todos produto de mutações bioquímicas. Mr. Freeze, vivido por Schwarzenegger, pesquisava a cura de uma doença rara quando caiu numa piscina de produtos químicos congelantes. Sua roupa, sua pistola e seu horrendo carro parecem ser feitos de gelo, o que dá ao filme um belíssimo visual, menos gótico e mais luminoso que os anteriores. Hera Venenosa nasceu de outra experiência malsucedida. Contaminada por extratos vegetais ultraconcentrados, ela faz com que plantas carnívoras cresçam onde toca e envenena mortalmente quem a beija. O terceiro vilão é Bane (Jeep Swenson), um assassino serial arrancado à força de uma prisão latino-americana e transformado numa máquina mortífera com a musculatura do incrível Hulk. É uma trinca poderosa.
O primeiro Batman das telas, que teve como rival o Coringa, precisou conciliar astúcia e pancadaria. O segundo enfrentou o Pingüim e a Mulher Gato com sopapos e desdém. O terceiro contou com a ajuda de Robin para dar cabo de Duas-Caras e Charada. Agora, além de três inimigos, Batman tem de combater a rebeldia do menino prodígio, fisgado por Hera Venenosa. Precisa, portanto, de mais trunfos ainda que nos filmes anteriores. Ele usa os punhos, recorre a algumas das mirabolantes engenhocas criadas pelo mordomo Alfred e até mesmo às últimas invenções das indústrias Wayne, como um poderoso telescópio. Até aí, faz o que se espera de um super-herói. Para garantir que o bem triunfe, porém, o Batman de George Clooney usa outro expediente, que é jogar conversa fiada para cima de seus pupilos. Com isso, o filme desperta um novo tipo de reação no espectador. Muita gente pode mudar de lado e torcer para os vilões, já que os heróis, desta vez, não são nem de longe o que há de mais fascinante em Gotham.
Das agulhas ao batmóvelDesde a metade da década de 80, o diretor americano Joel Schumacher vem fazendo filmes marcantes que, quase sempre, são também sucessos de bilheteria. Eclético, ele costuma acertar a mão em gêneros tão distintos quanto a comédia romântica e o suspense de tribunal. Sua filmografia inclui O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, de 1985, que projetou Demi Moore para o estrelato, Os Garotos Perdidos (1987), sobre uma gangue de vampiros adolescentes, e Um Dia de Fúria (1992), aquele em que Michael Douglas espuma de ódio e sai arrebentando meio mundo. Schumacher dirigiu ainda duas adaptações para as telas de best-sellers assinados pelo dublê de escritor e advogado John Grisham, O Cliente (1994) e Tempo de Matar (1996). O diretor, que hoje tem 57 anos, começou como costureiro. Chegou a ser uma estrela do mundo da moda na Nova York da década de 60, feito que o levou a trabalhar como figurinista em filmes de Woody Allen. A carreira de sucesso no cinema é ainda mais impressionante quando se leva em conta que ele começou a beber aos 9 anos de idade. Antes dos 20, já havia mergulhado fundo nas drogas. "Em certo sentido, minha vida era como a de um vampiro", disse à revista americana Newsweek, explicando que só saía à noite e passava o dia trancado em casa, onde cobertores impediam que a luz entrasse pelas janelas. Saiu dessa fase negra em 1970, mas só se tornou um sóbrio convicto há pouco mais de cinco anos, quando percebeu estar se suicidando. "Como alguém pode ser viciado em drogas e alcoólatra a maior parte da vida e não sentir vergonha?", pergunta Schumacher ao repórter Mark Miller, de Newsweek. |
http://www2.uol.com.br/veja/020797/p_120.html