Vingança traz papel na medida para Jessica Lange
Não é todo dia que um diretor americano decide levar para o cinema uma obra de Honoré de Balzac (1799-1850), o escritor francês que ficou famoso por elogiar as trintonas e que retratou como ninguém a Paris de seu tempo. O filme A Vingança de Bette (Cousin Bette, Estados Unidos, 1998), que estréia nesta semana no Brasil, é um desses raríssimos casos em que Hollywood bebe em uma fonte literária de primeira e não engasga. Em grande parte por mérito de uma das melhores atrizes do cinema atual, Jessica Lange, de 49 anos. Ela encarna a vingadora de Balzac de forma estupenda, a exemplo do que fez nos papéis que já a levaram a concorrer a seis Oscar — dois dos quais repousam em sua estante.
A personagem de Balzac é uma solteirona que resolve vingar-se de um homem que a desprezou, mas que urde seus estratagemas na surdina, sem alarde. Jessica encarna esse prodígio de dissimulação sem abusar de truques como risinhos discretos ou olhares distantes. Ela compõe sua obscura personagem fazendo com que até os vincos de seu rosto externem o que ela tem de diabólico. Um dos segredos dessa boa atuação é o fato de Jessica conhecer a obra de Balzac desde os 20 anos de idade, quando se tornou fã da personagem Bette. Depois de ter estreado no cinema vivendo a garota por quem o macacão King Kong se apaixona, Jessica passou a buscar papéis desafiadores, vivendo mulheres perturbadas, independentes ou vingativas. Na refilmagem de O Destino Bate a Sua Porta (1981), sua personagem tenta matar o marido. Em Céu Azul (1995), como já havia feito em Frances (1982), a atriz encarna uma psicótica.
Acreditando que Jessica se sai bem em papéis assim mesmo sem o apoio de um grande diretor, os produtores do filme confiaram no estreante Des McAnuff, um egresso da Broadway que nunca havia trabalhado em cinema. Apesar da inexperiência, ele acertou a mão. Para os papéis secundários, sempre importantes em Balzac, atraiu estrelas como a veterana Geraldine Chaplin, o comediante britânico Hugh Laurie e a belíssima Elizabeth Shue, como uma cantora de cabaré que faz hora extra arrastando para seus lençóis alguns dos novos-ricos parisienses. McAnuff fez também uma reconstituição de época digna dos megaespetáculos teatrais que dirige. Nos quesitos cenários e figurinos, era mesmo de esperar que um diretor da Broadway tirasse nota 10.
Celso Masson
http://www2.uol.com.br/veja/211098/p_143a.html