Uma adaptação caliente de Henry James
![]() |
Alison, Roache e Helena: triângulo insólito num bom filme de época |
Carismática,
passional, sexy como há muito não se via num filme de época, Helena Bonham
Carter é a principal razão para assistir a Asas do Amor (The
Wings of the Dove, Inglaterra, 1997), que entra em cartaz na sexta-feira em
circuito nacional. Essa inglesa de lábios carnudos, que sabe tirar o espartilho
como ninguém — como se pode aferir numa das cenas mais tórridas do filme
—, concorre, com boas chances, ao Oscar de melhor atriz e se consagra como o
nome favorito de Hollywood para produções de época. Já foi a noiva de
Frankenstein e uma boa Ofélia no pior Hamlet de todos os tempos, aquele
que Mel Gibson transformou numa versão elisabetana de A Máquina Mortífera.
O roteiro de Asas do Amor é baseado num romance do escritor americano
Henry James e traz um papel sob medida para colocar o talento de Bonham Carter
à prova. O livro apresenta um triângulo amoroso insólito. O vértice é
Merton Densher, um jornalista pobre. As outras duas pontas são Kate,
interpretada por Bonham Carter, pobre e voluptuosa, e Milly (Alison Elliott),
rica porém condenada à morte por uma doença incurável. Kate tece um plano
mirabolante: aproximar Milly de Merton e, depois da morte dela, casar-se com o
amante, que herdaria a fortuna.
Kate
é o único papel bom do filme. A personagem se debate entre sua natureza
passional e a frieza que seria necessária para consumar o plano. Nos demais
casos, os tipos cheios de nuances criados por James viram clichês do cinema
hollywoodiano. Maud (Charlotte Rampling), a tia de Kate que no livro a salva da
miséria e tenta lhe arranjar um bom casamento, vira a vilã que impede a
mocinha de se encontrar com o namorado. Densher (o ator inglês Linus Roache, de
O Padre) cai no estereótipo do galã, com muito olhar 43 e nenhuma frase
inteligente. No filme há também muito mais sexo do que em todos os livros de
Henry James somados — o que, dependendo do ângulo, não é exatamente um
defeito. Asas do Amor prende a atenção e é melhor do que as chatíssimas
produções de época de James Ivory. O filme, dirigido por Iain Softley, tem a
reconstituição apurada que é marca do diretor de Vestígios do Dia,
mas, em vez do tédio refrigerado de Ivory, brinda o público com uma atriz que
é uma descarga de lava na tela.
João Gabriel de Lima
http://www2.uol.com.br/veja/110398/p_111a.html